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A EXPERIÊNCIA CENTRAL



Não afirmo conhecer Deus na Sua total plenitude. E certamente não acho que entenda Deus em nenhuma extensão. Mas existe um poder, além da minha vontade pessoal, que pode realizar coisas amáveis e maravilhosas por mim, coisas que eu mesmo não consigo realizar – disso tenho certeza, sem dúvida alguma. Senti esse maravilhoso poder regenerador trabalhando no meu próprio ser e presenciei efeitos miraculosos desse poder misterioso e indefinível, sobre as vidas de milhares de adictos em recuperação que são meus amigos em Alcoólicos Anônimos.


Fui um ateu ou agnóstico durante mais de vinte anos. Durante esse período, tornei-me um alcoólico sem esperanças, um adicto de anfetaminas e um fracasso completo em todas as áreas da minha vida. Todo esse horrível sofrimento foi auto-induzido. Durante aqueles anos de orgulho, dizia freqüentemente: "Se Deus existe, que Ele me dê uma prova". Havia me esquecido de que tinha sido eu quem rompera a comunicação, quando tornei-me muito inteligente aos dezessete anos. Naquela época, pretendia provar que Deus não existia e, durante mais de vinte anos, as confirmações da minha opinião a respeito continuaram. Assim, a primeira coisa que vim a compreender sobre Deus é que Ele é muito cooperativo. Foram necessários vinte anos de sofrimento para aprender isso!


A segunda coisa que aprendi sobre Deus foi que Deus é amor. Um santo disse uma vez: "Todo homem que ama nasce de Deus". Minha sorte foi passar meu primeiro dia em A.A. com um homem assim. Ele assistiu a três reuniões comigo naquele dia, e me levou para sua casa tanto para almoçar quanto para jantar. Estava intrigado e confuso; sentia que, se ele realmente me conhecesse, não teria permitido que entrasse em sua casa. O amor e aceitação daquele homem, por si só, não introduziram-me ao programa. Amor, encorajamento, orientação e compreensão eram coisas que me haviam sido oferecidas muitas vezes antes. Mas daquela vez correspondi! Não somos redimidos apenas pelo amor, mas sim pela nossa resposta ao amor. Nossa compreensão sobre Deus cresce através da nossa resposta espontânea a Ele.


"Reze, se conseguir", disse meu padrinho. Não possuindo fé de espécie alguma e pensando que a oração deveria ser uma espécie de auto-hipnose, caí de joelhos como uma criança, sozinho em meu apartamento, e rezei para um Deus desconhecido. "Deus," pedi a Ele, "afasta de mim essa compulsão para beber". E a minha compulsão pela bebida foi eliminada e não voltou desde aquele dia. Sem saber como havia feito, tinha me rendido ao Poder e o Poder fizera por mim o que eu não conseguira fazer por vontade própria.


Fui às reuniões de A.A. e rezei todas as noites e, a cada noite, tive longas e maravilhosas conversas com Deus. "A experiência central", como hoje a chamo freqüentemente, estava me envolvendo e me arrebatando tão perfeitamente quanto minha mente desnorteada o permitia. Foram-me concedidas muitas bênçãos – a bênção da fé e a confirmação da fé – e fiquei tão excitado que não conseguia me decidir entre fundar uma nova religião ou me candidatar a papa.


Durante cerca de três meses, fui às reuniões, rezei, sonhei e procrastinei. A nuvem cor-de-rosa desapareceu e comecei a me sentir ocasionalmente muito incomodado; disseram-me então que eu estava pronto para começar a colocar em ordem meu passado. A próxima coisa que aprendi a respeito de Deus foi que "a fé sem obras é morta".


Comecei gradualmente a me aplicar aos Passos, do Quarto até o Nono e, depois de mais ou menos quatro anos, o poder do passado que tinha me afligido foi eliminado em grande parte. Vim a acreditar em um Deus que é misericordioso e clemente mas não é desmemoriado. Não tenho nenhum desejo de esquecer o passado. Minhas recordações não me enchem mais de vergonha e remorso. Pelo contrário, elas me enchem de gratidão e alegria. Para mim, toda minha história é uma espécie de mistério divino. Não sei como um ser humano tão inteligente foi capaz de se enfiar em tamanha confusão e, quanto mais firmemente estabelecido na sanidade me torno, mais assombrado fico por ter conseguido sair da confusão.


Logo no início da minha vida em A.A., percebi que a experiência e o conceito de Deus não tinham sido inventados pelos AAs. Para mim, não foi suficiente confiar nas minhas próprias experiências e continuar a repetir nas reuniões as palavras "Deus na forma em que O concebemos". Redescobri o Deus da Bíblia em grande parte através da pratica das técnicas descritas por Norman Vicent Peale no livro "O Poder do Pensamento Positivo". Fui crismado na igreja que escolhi e reconciliei-me com o Deus da minha infância. Aprendi que o Deus temível que havia imaginado na infância era na realidade um Deus de amor...



... Mas a história das instituições religiosas começou genericamente a se revelar cada vez mais, para mim, com a minha própria história: muito elevada nas promessas e muito decepcionante no desempenho. Assim, tornei-me interessado no misticismo cristão, o que me levou ao estudo das técnicas de meditação profunda e fazer comparação das religiões. Comecei a perceber que os assim chamados místicos de qualquer tradição  Cristianismo, Judaísmo, Budismo, Hinduísmo, Taoísmo ou Islamismo – falavam todos em última instância a mesma linguagem. De uma forma ou de outra, todos eles descreveram o mesmo Bem-aventurado além de muitos outros, que podia ser diretamente percebido através da prece e da meditação profundas.


Comecei a meditar pela manhã e à noitinha; os resultados foram tão surpreendentes que senti necessidade de orientação pessoal. Os vívidos sonhos que me despertavam e as estranhas experiências internas me tornaram um pouco ansioso acerca de prosseguir sozinho. Pesquisei as organizações existentes em Toronto, que ensinavam técnicas de meditação, e escolhi a sociedade que me agradou mais.


Não tenho meios de saber quais serão as opiniões que poderei ter e as técnicas que poderei usar daqui a um ano ou daqui a cinco anos. Mas percebi, durante os últimos sete anos, que sempre tenho sido mais feliz quando meu envolvimento em A.A. e com os Doze Passos são maiores que meu envolvimento em qualquer outra atividade ou grupo.


No meu atual dia-a-dia, tento aperfeiçoar minha compreensão de Deus respondendo a Ele de três formas: obrigando-me a ações positivas, exercendo minha capacidade de escolher raciocínios positivos e permitindo-me ser internamente levado a ser positivo.


Para mim, as ações positivas significam tentar agir conscientemente com as outras pessoas, de acordo com os ensinamentos das Escrituras nos quais acredito, indiferentemente de ter ou não vontade de agir dessa forma. Descobri que é muito mais fácil abrir meu caminho em direção à fé do que acreditar no meu caminho em direção à ação. Um dos meus ativos diários em direção a Deus é o programa da Irmandade de A.A. A grande tragédia do dependente químico é que, dentre todos os tipos de personalidades, ele é provavelmente o que mais necessita de amor; e no entanto, gradualmente e através da sua dependência, ele se torna totalmente impossível de ser amado. O carinhoso companheirismo de A.A. iniciou a minha recuperação e eu mantenho contato diário com aqueles que me amam e me compreendem, porque hoje preciso dessa ajuda quase tanto quanto no dia em que assisti minha primeira reunião.


Outro tipo de caminho em direção a Deus, que tento seguir todos os dias, é o processo do pensamento positivo. A.A. me ensinou que é realmente possível – embora nem sempre seja fácil – interromper uma seqüência de raciocínio negativo ou desesperador e, através do uso repetitivo de um lema, recuperar um sentimento de gratidão que me permita iniciar uma seqüência de raciocínio positivo. O pensamento positivo final é, evidentemente, "Deus", a palavra que reafirma nossa fé em que o universo é benigno para nós.


Através da oração, empreendo o caminho da fé em direção a Deus. A cada manhã, entrego minha vontade e minha vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebo. Seu poder integrador dentro de mim levou-me gradualmente a um estado de serenidade e de felicidade que sempre achei ser impossível.


Através da meditação profunda, empreendo o caminho sem esforço em direção a Deus. Medito durante meia hora a cada manhã e ao anoitecer. A finalidade da meditação transcendental profunda é permitir que a atenção seja levada até a fonte do pensamento, que é experimentada como uma essência bendita, e trazer a natureza bendita desse estado até nossa consciência normal, para ser desfrutada ao longo do dia.


Tornei-me cada vez mais consciente da extensão infinita da felicidade acessível em nosso interior. Os Upanishads, parte das escrituras do hinduísmo, sintetiza: "Todas as coisas nascem da Alegria; todas as coisas são sustentadas pela Alegria; todas as coisas retornam à Alegria". Quanto mais plenamente consigo me render a essa proposta, mais plenamente desfruto da alegria da minha vida. O meu Deus na forma em que O concebo é, em última instância, a alegria e a expansão da alegria.

Toronto, Ontário