DP - Quarto Passo: “Descobrindo Deformidades Emocionais”

"Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos."

Existem muitas frases ou lemas em A. A. que refletem a sabedoria acumulada no decorrer dos anos. Um dos mais interessantes é: “Somos tão doentes quanto nossos segredos”.

Baseando-nos nessa verdade, à medida que vamos revelando nossos segredos ficamos menos doentes, donde deduzimos que o Quarto Passo é o início de um processo de recuperação. Todo esforço desprendido nesta tarefa será recompensado.

Ao dar início à prática do Quarto Passo é fundamental termos em mente que Deus, como cada um O concebe, conhece perfeitamente nossa natureza individual. E sabe, também, que não podemos ver a nós mesmos sem a Sua ajuda. Damos início, assim, à nossa parceria com Deus iniciada no Terceiro Passo quando decidimos entregar nossa vida e nossa vontade aos Seus cuidados.

O Quarto Passo parece à primeira vista assustador e muitos recuam diante dele, mas devemos nos lembrar que todos os que estão perto de nós, a começar por Deus, vêem nossas faltas e imperfeições há anos, ou seja, estas falhas só são desconhecidas por nós mesmos. Está na hora de conhecermos estas falhas.

Idéias fundamentais do Quarto Passo:

Inventário: relação, registro, balanço, descrição pormenorizada.

Moral: é o conjunto de regras e prescrições a respeito do comportamento, de condutas consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada, estabelecidas e aceitas por determinada comunidade humana.

Inventário Moral: relação de nossas forças e fraquezas.

Medo: é com frequência nossa primeira reação a qualquer coisa nova. Enfrentamos qualquer mudança com medo porque nos sentimos ameaçados.

Orgulho: conceito muito elevado que alguém faz de si mesmo; amor-próprio exagerado, empáfia, soberba.

Segundo nossa literatura, o medo e o orgulho são os nossos maiores inimigos nesta empreitada. O medo afirma: “Para que fazer inventário?” Ao que o orgulho reforça: “Bobagem. Você já está sem beber mesmo e, além do mais, você é o máximo, sabia?”

Temos que nos esforçar para dobrar esses inimigos. Com um mínimo de coragem nós perceberemos que eles são somente dois guardas imóveis à porta de um palácio; não nos farão nenhum mal, é só passar por eles.

O Quarto Passo é simplesmente uma medida para nos ajudar a colocar toda a nossa vida em perspectiva novamente. Há um ditado em A. A. que diz: “Não é o que sabemos ou não sabemos, mas o que achamos que é verdade e não é”. Portanto, vivemos dirigidos por falsas verdades, é chegada a hora de tirarmos as máscaras e nos conhecermos por inteiro, sem medo. Todos já ouvimos falar que “a verdade nos libertará” é chegada a hora de conhecermos esta verdade sobre nós mesmos, a qual nos conduzirá a um patamar de vida superior ao que vivíamos até então.

Escrever nossa história num papel é um antigo método de auto conhecimento utilizado por pessoas notáveis, de Santo Agostinho ao físico Pascal, mas escrever esta história, como sugerido na nossa literatura pode ser muito difícil para a maioria de nós, portanto devemos nos lembrar que colocar nosso Quarto Passo no papel é apenas uma sugestão e não devemos nos auto depreciar por não conseguirmos escrevê-lo como o sugerido nem usar esta dificuldade para abandonar a prática do passo.

Devemos nos lembrar, também que o inventário é moral e não imoral; devemos procurar coisas importantes em nossas memórias, não só fracassos ou eventos que envergonham, como por exemplo, os desvios sexuais. É importante colocar as coisas positivas também.

O Quarto Passo fala que devemos relacionar nossas virtudes, nossas qualidades. E isto nem sempre é uma tarefa fácil. Não é raro ouvirmos de nossos companheiros a seguinte afirmação: “Durante o meu inventário não tive dificuldades em relacionar todos os meus defeitos de caráter. O problema começou quando fui fazer o inventário de meus traços positivos. Fiquei perplexo. Quando conseguia pensar em algo positivo, sentia-me culpado”.

A maioria de nós, e eu, entre esta maioria, gostaríamos que este inventário se resumisse a responder um questionário de múltipla escolha com “xis” no quadrinho vazio. Tipo: “Sou invejoso?” Sim ou Não. E depois de respondidas todas as questões tudo estaria resolvido.

Ah! Que bom se assim o fosse! Pelo menos seria menos penoso. Até a lista dos pecados capitais sugeridas por Bill no livro Os Doze Passos Ed as Doze Tradições são amplamente comentadas entre nós como um modelo acabado de inventário.

Mas terá a simples admissão de possuir todos os pecados capitais como defeitos um bom inventário de Quarto Passo? Penso que não. Seria algo muito superficial e sem profundidade, sem a meticulosidade exigida. Temos que perceber o defeito em alguma situação por nós vivida e como este defeito interferiu na história.

O inventário tem que ser feito em profundidade (minucioso), cada vez mais devemos descer, não devemos jamais ficarmos restritos às lambanças da época das bebedeiras, afinal, isso não é inventário, é simplesmente história. Inventário é algo mais.

Tem de ficar entendido que uma história não é uma vida, é só uma seleção de eventos de uma vida, influenciada pelas crenças da pessoa sobre si mesma e sobre outras pessoas.

Assim, torna-se possível utilizar a história para construir uma nova história com novas crenças. As crenças fazem parte da história; mudando a história, as antigas crenças são destruídas. Destruindo antigas crenças destruímos antigos fantasmas de nosso passado.

Uma pessoa tem dificuldade de contar sua história quando não pode achar a sua própria voz para descrever suas experiências. A descoberta da própria voz para contar uma história ocorre quando a pessoa é ouvida, validando assim, as próprias percepções de sua realidade, mas isto é assunto para o Quinto Passo.

Agradeço a Deus e a paciência de vocês por mais esta oportunidade de estar me conhecendo.


(Fonte: Revista Vivência Nº 114)