DP - Êxtase

Não devemos nos contentar com um A.A. morno, de meias-medidas na prática dos Passos ou com uma vida sem graça e vazia, em nossos dias de
sobriedade. Não se quisermos continuar sóbrios. Não. Acho que temos que continuar procurando algo melhor do que o tédio, melhor do que uma vida banal, melhor do que a espiritualidade medíocre. Em um artigo intitulado "A Busca do Êxtase", escrito para A.A. Grapevine, o filósofo Gerald Heard disse: "Aparentemente... nenhum de nós está vivendo de uma forma suficientemente 'tonificante', como se fosse para estarmos capacitados a enfrentar as tensões às quais seremos agora passíveis de nos expor, sem um colapso... O alcoolismo (como todas as dependências químicas) não é basicamente a busca da sedação total. O alcoolismo é um desejo daquele 'êxtase', daquele 'emergir' das lagunas da conformidade, daquele avanço através dos altos mares não-cartografados onde o único mapa é o céu estrelado". Existe por aí, em alguma parte, algum alcoólico sóbrio para o qual essa passagem não seja profundamente significativa? Alguns anos atrás, sentei-me em um bar de Nova York conversando com um jornalista que havia acabado de perder outro emprego, por causa da bebida. Estava interessado na minha história sobre A.A., mas estava também aceso como uma árvore de Natal, zangado e totalmente desinteressado em qualquer conversa sobre sua regeneração - naquele dia. Veio-me um pensamento à cabeça. "Você sabe, H...", disse: "Acho que um dos maiores prazeres de se refugiar na bebida é exatamente essa sensação de estar a quilômetros de distância dos palermas. Você está numa outra. Rota diferente. Música diferente. Uma jogada realmente existencialista sob o estímulo do álcool. No fio da navalha entre o prazer e a dor, entre o sucesso e o desastre". E um monte de conversa mole, nesse estilo. Percebi que finalmente tinha um ouvinte atento. Ele disse que era exatamente aquilo. Era o viver sem regras que o atraía, com desastres ou não. Viver com os palermas era uma amolação. Um atraso de vida, uma maldita impossibilidade. Penso hoje que essa tentativa completamente malograda de Décimo Segundo Passo (rezo para que H... esteja hoje em A.A., em algum lugar) ajudou a mim. Nunca mais desde então deixei de estar ciente do fato de que, sendo um alcoólico, o melhor que tenho a fazer é não tentar ser exatamente como os demais, exatamente o normal. Para falar a verdade, não sei realmente nada como ser normal - ou seja, não alcoólico - e assim não posso enfiar nenhuma idéia idiota na minha cabeça que diga respeito a uma vida normal. Não. Deixem-me ficar com a opinião do Sr. Heard, durante algum tempo. A ênfase dele é aquela que me serve. Se tenho que, sendo um alcoólico, "emergir das lagunas da conformidade" e permanecer sóbrio, como é que devo fazê-lo? Juntando-me a um bando de revolucionários? Virando "hippie"? Praticando yoga? Ah, mas tenho uma resposta. Vejamos os Doze Passos. Enfadonhos? Tentei praticá-los? Certamente não tentei ir muito além dos três primeiros, nos dois primeiros anos em A.A. Minha reação aos últimos nove Passos foi que eles estavam lá para encher o quadro; eram mais piedosos do que práticos. Não era necessário ir tão longe... e assim por diante. Porém, tive ao longo do caminho um pouco de má sorte. Enfrentei alguns períodos ruins: trabalho, saúde, família, tudo parecia ficar emaranhado de uma só vez. Fui induzido (vejo isso agora como um empurrão espiritual) a tentar o Quarto e o Quinto Passos, o inventário e a admissão. Não fiz um serviço lá  muito bom. Escrevi uma parte do inventário, mas não a totalidade. Contei alguns dos prejuízos causados, aqueles mais prementes - mas não todos. Não obstante, consegui a partir dessa prática um estimulante ano de progresso espiritual. Estava mudado, em algum sentido importante.Então sobreveio uma redução do ritmo, como evidentemente sempre acontece. Comecei a achar que o Sexto e o Sétimo Passos precisavam ser trabalhados. Interessantes. Difíceis. Existencialistas. O fio da navalha entre o desastre e o progresso.  
Estranha concepção nova de Deus e de mim mesmo. Percebi que não podia existir nenhuma "laguna da conformidade" para o homem encarar seu caráter, confessa-o, torna-se disposto a modificá-lo e pede a Deus que o modifique. Dinamite! Teria coragem para explodi-la? Será que não podia deixar a coisa toda para lá e me contentar com uma vida modesta, calma, nada excepcional, não muito espiritual?  Afinal de contas, se X e Y conseguem isso, Z também consegue. Serão eles alcoólicos? Bem, não são.  E saberei realmente alguma coisa acerca das suas vidas espirituais? Bem, não sei. Voltemos a mim. Precisava ser outro. Era por essa razão que bebia. E ainda preciso ser outro. Havendo experimentado o caminho tóxico das drogas e dos excessos, deixem-me experimentar o caminho "tonificante" (no fraseado de Heard) dos Passos, o caminho da saúde e da alegria. Os Passos são o remédio específico para o que há de errado (ou certo - não importa) comigo: alcoolismo. Eles são o caminho para ser o "outro" - e de quebra, sadio. Cheguei até aqui: sei agora que o que está envolvido em aceitar todo o programa de A.A., como os primeiros AAs o legaram a nós, não é a perspectiva de nos convertermos numa espécie de "bonzinhos" repugnantes. É um convite para sermos verdadeiramente vivos, conscientes e talvez mesmo extáticos. Estou começando a acreditar que, se não aceitar tudo aquilo que o programa oferece (exige?), e, ao invés disso, me afastar dele como de certa forma outros além de mim
barganharam, posso acabar bêbado. Em outras palavras, se não praticar seriamente e na totalidade os Doze Passos de A.A., não posso esperar estar "integrado ao programa".

VIEMOS A ACREDITAR 10/7