Artigos - A.A. Grupo Terapêutico?

Dr. Arnaldo Zorzetto Filho, Psiquiatra Diretor do Ambulatório Cristal para Dependência Química.
Indagado certa vez sobre a sua opinião acerca de A.A., um especialista em dependência química afirmou não considerar a Irmandade como uma forma convencional de tratamento do alcoolismo, pois, embora o seu trabalho seja satisfatório, não é realizado por profissionais.
Se pudermos definir Grupo Terapêutico (GT) como "um conjunto de pessoas centrado na evolução pessoal de cada indivíduo que o compõe, geralmente com um objetivo em conformidade com uma técnica que é praticada, devendo haver coerência do material conceitual", então perguntemos:

1.  A.A. é um conjunto de pessoas?
R. Sim, caracteriza-se por seções terapêuticas diárias, sendo que o membro de um grupo faz parte de uma comunidade universal que, exceto pela barreira linguística, pode se expressar, ser entendido e se tratar, estando reunido com outros AAs.

2.  A.A. está centrada na evolução pessoal de cada indivíduo que a compõe? 
R. Observe-se o alcoólico que entra pela primeira vez num grupo, às vezes embriagado, intoxicado, com a doença em atividade e progressão, compulsivo, convulsivo, em síndrome de abstinência, quase louco, maltratado, muitas vezes já longe da família e com a dignidade perdida. Quando consegue aderir ao tratamento, notamos uma sensível melhora em certos parâmetros.

3.   Quais são esses parâmetros?
R. Biológico: evitando o primeiro gole, o alcoólico dá início ao processo de desintoxicação, diminuindo sintomas físicos como gastrite, tremores, dores, insônia, impotência sexual e "inchaço", com melhora do estado geral, da alimentação, dos hábitos fisiológicos e do desempenho dos órgãos vitais. Com exames de laboratório, verifica-se que sobram algumas doenças e sequelas, mas que são controláveis pela medicina.
Psicológico: embora nos primeiros meses ainda esteja fora de sintonia, vai aos poucos se tornando centrado, ainda com medo, ansioso, irritado, magoado, raivoso, orgulhoso, com os sentimentos à flor da pele, emocionalmente instável, com atitudes infantis  megalomaníaco, desafiador, longe da serenidade. Porém, sóbrio e com esperanças, podendo usufruir terapeuticamente da experiência grupal em todos os sentidos.
Social: está, no mínimo, apresentável, mantendo, arrumando ou mudando de emprego; o ambiente familiar, se houver, não estará nem melhor, nem pior, mas pelo menos suportável, ou decifrável e em transição; ainda terá dificuldades no lazer, pois é difícil evitar os velhos hábitos e criar novos, pelo menos no início da recuperação.
Espiritual: está com certeza se modificando, mesmo que não perceba, pois começou a ver seu devido valor. São promessas de acontecimentos no mínimo diferentes, ficando para trás a rotina dos porres, vômitos e ressacas. A recuperação em geral é progressiva, podendo, em alguns casos, ser intermitente, instável, mas raramente degenerativa.

4.   Existe em A.A. um objetivo terapêutico segundo uma técnica coerente?
R. Sim: deixar de beber, controlando sua doença com qualidade de vida, através das transformações proporcionadas pela admissão, aceitação e rendição frente à sua condição, com despertar espiritual centrado nos Doze Passos.
Finalizando, gostaria de enfatizar que o alcoólico em A.A. sabe que está definitivamente comprometido com relação ao álcool e que tem livre arbítrio para usá-lo - e o resultado já lhe é conhecido - ou para não usá-lo, tratando-se um dia de cada vez.
Poderá, inclusive, usar linhas auxiliares de tratamento, como consultas médicas, psiquiátricas ou psicológicas, visando tratar outras doenças eventualmente coexistentes, mas nunca se afastando da terapia mestra que é A.A.
No atendimento profissional, é gritante a diferença de qualidade de vida e a facilidade de trabalhar, quando tentamos auxiliar alcoólicos que frequentam A.A., comparando-se com outros pacientes alcoólicos.

Fonte: Revista Vivência nº 68 - Novembro/Dezembro 2000