Artigos - A.A. nasceu da necessidade do diálogo

Alcoólicos Anônimos, desde seu surgimento em 1935, tem sido um baluarte na busca da recuperação da dependência química alcoólica. 

Pode-se dizer que A. A. surgiu a partir da necessidade de se dialogar. Foi através do diálogo que Bill Wilson, corretor da bolsa de valores de Nova Iorque e Bob Smith, médico cirurgião de Ohio, ambos pertencentes ao estrato social da classe média alta, mas com uma vida fracassada pelo álcool, perceberam que ao 
conversar sobre as dificuldades em se abster do álcool, bem como a conseqüência nefasta resultante do uso do álcool, lhes deixava mais aptos a manterem-se 
abstêmios. 

Este hábito de conversar foi o trampolim para eles fundarem Alcoólicos Anônimos, grupos de auto-ajuda que têm como objetivo auxiliar as pessoas que sofrem de alcoolismo. Talvez a premissa básica de A. A. seja a renovação do compromisso diário de evitar o "primeiro gole". Cada um busca se tornar líder, especialmente de si mesmo, mas também dos outros, para, assim, se tornarem exemplos a serem seguidos. 

Em A. A. existe coesão social, pois afeto, acolhimento, solidariedade, compartilhamento do que cada um possui do ponto de vista humano, há o senso do 
pertencimento e, com isso são criados laços emocionais fortes especialmente entre os pares. 

É através do diálogo que os membros de A. A. compartilham sentimentos, desejos, frustrações, experiências e são essas trocas que direcionam a caminhada para a manutenção da abstinência desses membros. 

Os diálogos, as leituras e as trocas permitem ao dependente alcoólico ter consciência de sua dependência e, ao mesmo tempo, se colocar perante o grupos 
como alguém que necessita de ajuda. 

A.A. busca um despertar no sentido de que os seus membros reflitam da seguinte forma: "Só eu posso me ajudar, mas preciso de ajuda". Esta descoberta é bárbara, pois há uma perfeita inter-relação entre o individual e o coletivo. 

E nesta busca de ajuda vale especialmente a ajuda de um Poder Superior. Neste contexto é que se oportuniza ou se possibilita mais o exercício da fé, pois os 
princípios de A. A. não se correlacionam por acaso. Eles têm uma seqüência lógica em cada "Passo". E os primeiros "Passos" explicitam a ação de um Poder 
Superior, O qual deve ser buscado na sua intensidade para a superação deste "modus vivendi" desequilibrado. 

Pesquisas recentes também têm revelado a importância da fé e da espiritualidade como componentes básicos, necessários a qualquer ser humano, para se viver uma vida mais plena de significados. 

Um dos grandes estudiosos da mente humana a apreender o significado da importância da religiosidade para a saúde psicológica foi Carl Jung. 

Para Jung, Deus e ser humano estão inter-relacionados, uma vez que todo ser humano tem algo de divino. 

Segundo Jung toda pessoa tem dentro de si forças curativas, bastando para isso perceber os "insight" que lhe são oportunizados. 

Para Jung, a perspectiva religiosa religa o homem a Deus, possibilitando assim, a cura e o equilíbrio da vida. Daí a importância do ser humano, inclusive, 
limpar seu "arquivo mental" das mágoas, medos, ressentimentos, culpas. 

De acordo com os preceitos de A. A., o Poder Superior liberta da escravidão dos aspectos materiais, mentais e emocionais, tornando o ser humano senhor de si 
mesmo, capaz de realizar-se como pessoa humana. 

A ênfase espiritual de Jung é contundente em sua carta a Bill W., co-fundador de A.A, como sendo a prática da espiritualidade, no seu sentido mais intenso e 
profundo possível a última e única solução para que Holand H., que fora seu paciente, solucionasse seu problema: se abster do alcoolismo. 

Jung não só influenciou na conversão e cura de Holand H., como também do próprio 
Bill W. e outros, mas também na co-fundação de A. A. em 1935. 

Bill W. na busca da libertação do álcool estava na mais profunda depressão, sem o mínimo de fé, quando, no seu limite, clamou rogando: - `Se existe um Deus, que se manifeste!'. No mesmo instante Bill W. foi libertado da obsessão alcoólica. 

Este fato mostra que também na "situação-limite" há possibilidades de superação a partir de uma profunda experiência espiritual, o que fora preconizado por Carl 
Jung. 

Carl Jung teve um papel decisivo na criação da Irmandade de Alcoólicos Anônimos, especialmente sob a perspectiva espiritual. Na verdade foi uma inovação a 
intervenção de Jung unindo ciência e espiritualidade para a resolução dos dramas existenciais humanos, pois para Jung, o ser humano é um ser físico, mas também metafísico transcendental e espiritual. 

O dependente químico alcoólico é um ser humano que, apesar da perda da autonomia e da liberdade pessoal, em maior ou menor grau, para conduzir sua vida agindo de forma construtiva, tem o livre-arbítrio como uma possibilidade de transformar o seu drama humano em um projeto concreto de vida pleno de significados e valores. 

Quando este "insight" é percebido e vivenciado há uma despertar para a vida no sentido global de sua saúde mental e da existência humana.

(Nota do Editor: "insight" palavra de origem inglesa traduzida para o português como compreensão interna, compreensão súbita, apreensão súbita, visão súbita, 
discernimento, perspicácia.)

Dra. Maria Stella Ferreira Cordovil Casotti 
Psicóloga e Coordenadora do Serviço de Desintoxicação
Do Hospital de Urgência e Emergência
Rio Branco – Estado do Acre