DP - A Alquimia de Alcoólicos Anônimos > Rv. 053

  Uma simples frase de nossa literatura tocou um coração doente e o trouxe para A.A.

 
Quando   cheguei   em  Alcoólicos  Anônimos,   com  o  ego inflamado  e  completamente  carregado  pelo ceticismo em relação   a   Deus,  aos   homens   e   a   mim  mesmo,  não conseguia assimilar que um programa  tão singelo pudesse operar  tantas  transformações   na  vida  de   uma   pessoa marcada por profundas crises existenciais, como era o meu caso.
 
Eu  me  recordo com perfeita nitidez o meu primeiro contato com  a  literatura  de  A.A., que se deu antes mesmo que eu frequentasse uma reunião.
 
Naquela   ocasião   eu   me   encontrava  internado  em  um hospital de Belo Horizonte, para  realizar  um tratamento de desintoxicação alcoólica. Quando fui desfazer as malas, eis que deparo  com um  exemplar do  livro  "Os Doze Passos", que minha mãe  havia  colocado  em  meio  à bagagem, por orientação   de   minha  tia  Al-Anon  e,  tenho  certeza,  por inspiração do Poder Superior.
 
Somente  com  o  intuito  de matar o tempo, dispus-me a ler aquele livro, com a  convicção  firme de que tal  leitura nada iria  acrescentar  ao  meu  sublimado  critério  a  respeito do alcoolismo. Porém, a  perplexidade  colheu-me  já na leitura da primeira página. Um pequenino trecho deixou-me atônito roubando-me o sono naquela noite. O texto fazia referência à  derrota  frente  ao  beber destrutivo  e  mencionava que a admissão da impotência pessoal poderia se tornar o leito de rocha firme que serviria  de  alicerce  para  a  edificação  de vidas felizes e significativas. Tal  assertiva me desconcertou pelo fato de se contrapor a tudo aquilo que  eu pensava que sabia a respeito do alcoolismo.
 
Naquela    época,   eu    já    aceitava    minha    relação   de dependência,   mas   jamais  sonhara  até  então  que,  para superar o problema  de alcoolismo, o caminho era sucumbir à minha  obsessão  alcoólica. Muito  ao  contrário,  a  minha persuasão   íntima,   sempre   acalentada   pelo   orgulho   e regada a uísque, era de que a solução  estava  em  colocar-me  sempre  em  posição  de  domínio  e  superioridade  em relação   ao   álcool.  Hoje   sei   que   meus  fracassos  nas tentativas    de   parar   de   beber   tiveram   origem   nessa autonomia pretensiosa e suicida.
 
Aquelas   poucas   palavras  me  incomodaram  a  ponto  de conduzir-me  a  uma   reunião   de   A.A.,   que   um   Grupo realizava    dentro    da     instituição     onde     eu     estava internado. Durante  a  reunião, as palavras do livro tomaram vida  nos  depoimentos  dos  companheiros,  confirmando a proposição  de  que  a  admissão  da  derrota  poderia ser a porta  de  ingresso para  uma   vida   nova,  bem   como   a matéria-prima para se erigir um novo ser humano.  Lembro-me  que   aquela   reunião   me   provocou   uma   sensação estranha, uma  certeza  de  que  eu fazia parte daquilo tudo e que funcionaria para mim, desde  que  eu  quisesse. Acho que experimentei algo  semelhante ao "senso de pertencer" a que  se  refere  a  literatura  da Irmandade. Quando pude encarar  melhor  o  Primeiro  Passo, dei-me  conta  de  que, olhando  com  honestidade  para  minha  vida,  só  consegui divisar  um  amontoado  de  escombros.

Foi  naquele  momento  que  compreendi  o  significado   do "fundo do poço" ,  que mais tarde pude  ler em  algum lugar: "Fundo  de  poço  não   é  cadeia,  nem  internação.  Não  é quarenta  garrafas  de  pinga por dia, nem pedir esmola nas ruas. Fundo de poço  é  uma  falência  moral  íntima, é uma derrota que acontece dentro da gente."
 
Assim, a  partir  dos  destroços  de  minha vida,  comecei  a trabalhar  minha  recuperação, tendo os Doze Passos como instrumental  e  os   Grupos   de   A.A.   como   laboratórios. Descobri  que  a  prática  dos  princípios  tem  o  verdadeiro poder   de   transmutação    sobre    o    ser    humano    que sinceramente deseja  recuperar-se. Tal como um alquimista em  busca  da  Grande Obra, tento  aperfeiçoar-me  a  cada dia,   procurando,   por   meio   da   filosofia   de   Alcoólicos Anônimos,  transformar  o  vil  metal  da ruína existencial no mais refinado e reluzente Ouro da Serenidade, da Coragem e  da  Sabedoria.
 
(Kennedy L.)
 
Vivência nº 53 - Maio/Junho 1998