DP - A ambição pessoal não tem lugar em A.A.

A ambição pessoal não tem lugar em A.A.

“Amigos se afastaram, perdi um casamento que tinha chances de ser saudável, perdi o melhor emprego que tive; Perdi totalmente o domínio da minha vida”!
Desde que me dediquei profundamente a assistir reuniões diárias em A.A. e a realmente reconhecer a natureza exata das minhas falhas deparei-me com a confirmação da perversa ambição que alimentara meus vinte anos de alcoolismo.
As idéias nas quais acreditava me ditavam que a felicidade deveria estar nas coisas fora de mim, tais como posição profissional, carro, casa de campo e claro, nas garrafas de bebidas importadas que habitavam meus sonhos grandiosos.
Assim percorri a trilha do sucesso, atropelando valores de boa conduta, manipulando colegas de trabalho, sendo desonesta, roubando e destruindo códigos morais e espirituais.
Minha personalidade começou a se deformar aos 13 anos, quando iniciei a bebedeira e então, além dos porres alcoólicos, eu tinha os porres do sucesso. Minha ambição sempre me levou ao topo e quando lá chegava, tornava-me uma pessoa insuportável, tamanha a arrogância e a grandiosidade. Fazia dos meus colegas de trabalho os meus súditos. Mostrava-me empenhada e dedicada aos meus chefes e, ao garantir a confiança deles, praticava atrocidades perversas. Eu trazia comigo uma visão tão deturpada de mim mesma que considerava serem as minhas necessidades as mais importantes de toda a humanidade.
Depois de conquistar o poder, tornava-me ainda mais insaciável e terrivelmente ambiciosa. Era tão escrava da minha ambição que esquecia até mesmo de investir o dinheiro que ganhava em projetos duradouros, gastando-o em superficialidades, alegando que a felicidade citada anteriormente já estaria reservada para mim, sem qualquer sacrifício. Ela cairia do céu, assim que eu ordenasse. Eu realmente acreditava nisso.
O final da minha ativa me trouxe o resultado da minha ambição pessoal: nada foi construído material ou afetivamente. Tornei-me uma alcoólica totalmente isolada no meu egocentrismo. Amigos se afastaram, perdi um casamento que tinha chances de ser saudável, perdi o melhor emprego da minha vida, além de ter a faculdade interrompida. Resumindo: Perdi totalmente o domínio da minha vida.
Quando me rendi ao Programa de A.A., vi o quanto precisava para me modificar internamente e não apenas tampar a garrafa. No início, contentava-me com o fato de estar conseguindo evitar o primeiro gole, mas sabia da necessidade da transformação profunda.
Cheguei querendo os mesmos reconhecimentos que obtive na ativa, contudo não os obtive em A.A., graças à sobriedade de companheiros antigos que me alertaram para o cuidado que deveria ter sobre minha prepotência, pois ela me faria voltar a beber, caso eu a alimentasse.
Os mais antigos me ensinaram que para haver de fato uma reformulação de vida, eu deveria encontrar o sucesso na minha derrota, ou seja, na admissão da minha impotência perante o álcool e não esperar louros e aplausos pelos títulos lá de fora, tão bem guardados pela minha vaidade.
Assim venho caminhando a recuperação, onde me coloco em estado de alerta todas as vezes que meu ego se inflama ao ser elogiada por algumas atitudes positivas dentro do grupo ou quando meu depoimento é citado como referência durante uma reunião. Só eu sei onde os elogios me levaram um dia e para esse lugar insano que eu não quero mais voltar. Renuncio as glórias e as ambições desgovernadas, só por hoje.
Aprendi a ter coragem para modificar as coisas que posso, por mais agradáveis que pareçam. Meu alcoolismo foi alimentado por coisas agradáveis e fáceis e por isso tornei-me uma pessoa mimada e imatura. Sei que se eu continuar colocando à frente os meus instintos desvirtuados, acabarei indo ao primeiro gole e farei da minha vida uma maratona até a morte.
É vital para minha recuperação que além de evitar o primeiro gole, eu também evite a ambição pessoal que me fez escrava dos meus caprichos.
A.A. é o único caminho onde percebo claramente que não há espaço para a ambição pessoal, haja vista a reunião de serviços, sempre pautada em atender a decisão da consciência coletiva; visando o bem estar comum, fortalecendo o propósito comum de uma irmandade que existe desde 1935, lapidando personalidades destruídas pelo álcool e contribuindo assim, não só para o crescimento individual de seus membros, como também para que nos tornemos pessoas construtivas na sociedade em que vivemos.”

Quando me rendi ao Programa de A.A., vi o quanto precisava para me modificar internamente e não apenas tampar a garrafa.

Vivência nº 106 – Mar./Abr. – 2007