Artigos - A comunicação de A.A. pode superar todas as barreiras

BILL W.
 
Ninguém pode ter dúvidas que nós, AAs, somos muito afortunados; afortunados por ter sofrido tanto; afortunados por poder conhecer-nos, compreender-nos e amar-nos uns aos outros tão supereminente bem -  mas não podemos atribuir-nos o mérito de ter estas qualidades e virtudes. Para dizer a verdade, a maioria de nós é bem consciente de que são dádivas extraordinárias que têm sua verdadeira raiz em nossa afinidade nascida do sofrimento em comum e da liberação por graça de Deus. Portanto temos o privilégio de comunicar-nos uns com os outros de uma maneira e com uma intensidade que raras vezes vemos evoluir entre nossos amigos não alcoólicos no mundo ao nosso redor. Desde os primórdios de A.A., o êxito que tivemos com cada novo candidato dependeu diretamente de nossa capacidade para identificar-nos com ele ou ela, pela experiência, pela linguagem e especialmente pelos sentimentos – esses sentimentos profundos que temos uns com os outros e que não  se pode expressar com palavras. Isto é o que  verdadeiramente queremos dizer com “um alcoólico que fala com outro”. Faz anos, não obstante, nos demos conta de que a afinidade que temos por haver sofrido do alcoolismo grave, com frequência não era por si suficiente. Para superar todas as barreiras, era necessário ampliar e aprofundar todos os nossos canais de comunicação. Por exemplo, quase todos os membros de A.A. eram o que hoje chamamos de “últimos goles” ( ou seja, do fundo do poço). A maioria dos primeiros membros chegaram a beira do abismo. Quando começaram a apresentar-se os casos menos aflitos (os leves), costumávamos dizer-nos, “Mas nunca nos colocaram na cadeia,. Nunca nos confiram em manicômios. Nunca fizemos essas coisas horríveis de que falam os senhores. Sem dúvida, A.A. não serve para pessoas como nós”. Durante anos, os veteranos simplesmente não podiam se comunicar com essas pessoas. De alguma forma, teríamos que aumentar o número e a capacidade de nossas linhas de comunicação com eles. Se não, nunca poderíamos alcança-los. Após muita experiência, por fim chegamos a elaborar um meio e um método para fazê-lo. A cada novo candidato leve, reforçava-se insistentemente o veredicto de eminentes médicos de que o “alcoolismo é uma doença mortal e PROGRESSIVA” Logo, contávamos sobre as primeiras etapas de nossas carreira de bebedores, nas quais nossos próprios casos tampouco pareciam ser tão graves. Recordávamos o quão convencidos que estávamos de poder controlar na “próxima vez” que tomássemos um gole; ou talvez o admirável que nos parecia a ideia de que, em certas ocasiões, o desenfreado consumo de álcool não era senão o “pecadinho” de um bom homem muito “macho”. Ou, na próxima etapa, a tendência que tínhamos em colocar a culpa de haver nos entregue ao álcool ás nossas circunstâncias desgraçadas ou a conduta desconcertante de outra pessoa. Depois de haver estabelecido este grau de identificação, nos colocamos a presenteá-los com histórias que serviam para demonstrar quão insidiosa e irresistível havia progredido nossa enfermidade, que serviam para ensinar que, anos antes de nos conscientizarmos, já havíamos ultrapassado o ponto do qual podíamos voltar atrás pelo esforço de nossa própria vontade ou contando unicamente com nossos próprios recursos.. Seguíamos insistindo em como estavam certos, os médicos. Lenta, mas segura esta estratégia, começou a dar os resultados esperados.  Graças ao apoio de autoridades da medicina e uma apresentação mais inteligente do problema, os casos graves começaram a comunicar-se com os casos leves. Mas não tínhamos que continuar para sempre com esse processo lento e pesado, e seus escassos resultados. Para nosso grande regozijo, descobrimos que enquanto os AAs de qualquer localidade recebiam em seus Grupos, os bêbados leves, o progresso com estes companheiros, ainda que fossem muito poucos, recuperavam-se mais fácil e rapidamente. Hoje em dia, sabemos por que – um bêbado leve pode falar com o outro leve como nenhuma outra pessoa pode fazê-lo.Assim este setor de nossa Irmandade seguiu crescendo constantemente. É bem provável que quase a metade dos  atuais membros de A.A. tenham se liberado dos últimos cinco, dez, inclusive, quinze anos de puro inferno que nós do fundo do poço conhecemos tão bem. Desde que foram resolvidos estes primeiros problemas elementares de comunicação, A.A logrou entrar e comunicar-se com êxito em todas as áreas da vida onde se encontram os alcoólicos. Por exemplo, a princípio se passaram anos antes que o A.A. levasse á sobriedade permanente apenas a uma mulher alcoólica. Como os leves, as mulheres também diziam que eram diferentes. Não obstante, ao ir se aperfeiçoando a comunicação, devido principalmente ao esforço das próprias mulheres, a situação foi mudando. Hoje em dia, deve haver umas trinta mil irmãs nossas de A.A. por todas as partes do mundo. E assim continuamos desenvolvendo este processo de identificação e transmissão. O bêbado das favelas dizia que era diferente. Ouvia-se dizer o mesmo, embora com mais fervor da elite (pessoas da alta sociedade). O mesmo diziam os artistas, os profissionais, os ricos, os pobres, os religiosos, os agnósticos, os índios, os esquimós, os soldados veteranos e os presos. Mas hoje em dia, todos eles falam muito que nós alcoólicos nos parecemos, quando reconhecemos que chegamos á hora da verdade; quando nos damos conta de que nossa Irmandade de “sofrimento e libertação”, realmente é uma questão de vida ou de morte. Esta é a nossa edição anual da GRAPEVINE de A.A. nela aparecem notícias e comentários de nossos apreciados Grupos de além mar, Grupos que hoje em dia nos devolvem em dobro, a inspiração que nós um dia tentamos dar a eles.Naquele tempo, havia um verdadeiro problema de comunicação. Não seria possível estabelecer identificação com nossos companheiros em países estrangeiros por meio de cartas, ou por meio de nossa literatura, da qual tínhamos poucos títulos traduzidos, e mediante os contatos fortuitos que tivéssemos com os AAs viajantes. Em 1950, não sabíamos a resposta com certeza. Dessa forma Lois e eu, nos dirigimos naquele ano a Europa e a Grã Bretanha para verificar nós mesmo,perguntávamos: “ Poderia o A.A. superar verdadeiramente as formidáveis barreiras de raças, de idiomas, de religião e de culturas; as cicatrizes das guerras recentes e as mais antigas; a soberba e os prejuízos que nós os Norte Americanos já sabíamos que tínhamos? Poderíamos comunicar-nos com noruegueses, os dinamarqueses e os finlandeses? E com os holandeses, os alemães, os franceses, os escoceses  e os israelitas? E com os africanos. Com os bôeres, os australianos, os latinos, os japoneses, os indianos e os muçulmanos. E – não devemos esquecer- os esquimós? Poderia o A.A. superar essas barreiras que , com o maior veemência que nunca, tinham dividido e desgarrado o nosso mundo? Assim que desembarcamos na Noruega, soubemos que o A.A. poderia chegar e chegaria a todas as partes. Não entendíamos nem uma palavra de norueguês e havia poucos tradutores. Para nós, tanto as paisagens como os costumes eram novos e estranhos. No entanto, desde o primeiro instante houve uma comunicação maravilhosa. Havia uma incrível sensação de unidade, de estar completamente em casa. Os noruegueses eram nossos. A Noruega, também era nosso país. Eles tinham os mesmos sentimentos parta conosco. Isso se podia ver em seus rostos, nos chegaram ao coração. A medida que íamos viajando de país em país, ia se repetindo uma e outra vez esta magnífica experiência. Na Grã Bretanha, nos aceitaram como britânicos. Na Irlanda, estávamos em perfeita harmonia com os irlandeses.  Por toda parte, era a mesma coisa. Era algo muito mais  importante que um cordial encontro e acordo entre pessoas. Não era um mero intercâmbio de interessantes experiências e esperanças comuns. Era muito mais: era a comunicação de coração para coração com admiração, com alegria e com eterna gratidão. Lois e eu soubemos então que o A.A. poderia dar a volta ao Globo – e assim o fez. Nunca teremos necessidade de outra evidência. Se há algum membro que ainda duvide, que escute a comovedora história que alguém me contou na semana passada. A história refere-se a um pequeno Grupo que fala inglês no Japão. Para se mais preciso, é a história de dois membros do Grupo – uma dupla de japoneses que não entendem nem uma palavra do inglês. Vale mencionar que os demais membros – os que falam inglês –  não entendem nem uma palavra de japonês. A barreira linguística é total. É bem provável que os japoneses tão somente leram uma tradução dos Doze Passos e nada mais. Já fazem alguns meses que os companheiros japoneses vêm assistindo a reuniões, sem perder nenhuma. Sentam-se ali, no local da reunião, com semblantes muito risonhos. Concentram-se com toda intensidade na colocação de cada orador, como se compreendessem ou soubessem cada palavra.  Estas palavras inglesas, ainda não têm sentido. Não obstante, para os que falam a reunião têm para eles um imenso significado e todos sabemos por que. Os que falam não estão se expressando meramente em inglês, mas na linguagem universal de profunda e duradoura irmandade – a linguagem do coração. Os japoneses uma vez isolados e solitários, já não se sentem sozinhos, podem ver, sentir e compreender. E, graças a Deus, nós também vemos, sentimos e compreendemos. 

–BILL W.  – Outubro de 1959.