Artigos - A doença permanece

Interessante, como nos fechamos para a realidade quando estamos emocionalmente transtornados... Tudo o que ouvimos nos serve, achamos que é "chapéu", achamos que estamos sendo agredidos e agredimos os outros... Devolvendo respostas agressivas... Nos fechamos de tal forma que não conseguimos perceber nada, só pensamos em agredir. A não aceitação das coisas se torna evidente...
 
E com isso, deixamos de perceber a realidade e persistimos na infelicidade e no erro.  Isso atrapalha nossa recuperação, nosso bem estar, nossa vida toda, perdemos o sono, dormimos mal e no dia seguinte estamos estafados, pois ficamos dia a dia carregando em nossa bagagem a ira, a raiva, o ódio, e fingimos estar tudo bem. Nos fechamos de tal forma, que não conseguimos escutar as coisas e tentar aproveitar uma parte que seja, recebemos tudo como uma agressão, mas não percebemos que  é uma projeção, estamos sentindo que é agressão, mas a verdade é que estamos nós agredindo o outro, precisamos agredir porque no fundo sabemos que o que nos dizem  é pura verdade e não aceitamos, e como não temos argumentos, agredimos... Como no Xadrez, a melhor defesa é o ataque... Isso é comportamento de quando bebíamos, pois chegávamos brigando porque não tínhamos argumentos, não escutávamos absolutamente nada e não aceitávamos que estávamos doentes, a negação imperava. Hoje, é preciso tomar cuidado com nosso emocional, mesmo em recuperação, muitas vezes nossa mente se fecha, podemos não beber, mas nossos comportamentos são idênticos aos de quando bebíamos. Isso ocorre quando não sabemos lidar com nosso estado emocional, quando ele está desequilibrado, tendemos a nos desequilibrar totalmente. Não aceitamos perder, e se isso ocorre, agimos com infantilidade, não aceitando a situação e persistindo em algo sem solução e ficamos batendo na mesma tecla, na  nossa mente podemos até não perceber nossa insistência, negamos, ao invés  de termos o percebimento, que dói, preferimos negar. Fica mais fácil, aparentemente, fingirmos que aceitamos e tentarmos tocar o barco pra frente, mas no fundo, não aceitamos e não trabalhamos a perda, e por isso sofremos e não progredimos. O que fazer então nessa situação... Parar... Deixar a emoção de lado e analisar friamente a situação, sem colocar desculpas, máscaras, ver realmente a situação,  isso dói, é um processo doloroso, mas aprendemos que crescer e amadurecer dói, e então sem emoção ver as situações que são sugeridas e agir.
 
Mudar o comportamento,  se perceber, ver onde está errando e seguir num processo de recuperação, mas de verdade, esquecendo a frustração, a perda, os erros, e aceitar realmente a nova condição de vida. As iras, ódios, invejas, passadas, mal resolvidas, vão seguir na bagagem, enquanto não
as colocarmos pra fora da nossa mala, elas irão caminhar conosco a vida toda, é preciso deixar o orgulho de lado e fazer as reparações que devem ser feitas, é preciso enterrar os defuntos deixados pra trás, senão a recuperação não vai existir, estaremos "fingindo" a recuperação e não adianta trinta anos de AA, pois serão trinta anos só sem beber, pois os defeitos de caráter vão permanecer... Se eu fingir que gosto de uma pessoa, que perdoei algumas pessoas, mas na verdade estou passando o pano, estou fingindo pra mim mesma, esse falso sentimento vai  estar dentro de mim e terei de carregá-lo a vida toda, e a primeira oportunidade que eu tiver, o ódio, a ira vai vir à tona e vou descarregar com toda intensidade ao menor estímulo que exista... Muitas vezes as pessoas não entendem nossa fúria, por tão pouco... Por pouca coisa, descarregamos um caminhão de ressentimentos... Exatamente porque estamos com tudo isso dentro, e na primeira válvula de escape, explodimos...  É assim que funciona esse processo doloroso... Uma pessoa em franca recuperação recebe as agressões e por dentro sorri, pois sabe a ira do outro, e entende perfeitamente que o outro está sofrendo muito e precisa descarregar e então não se abala com isso, ao contrário, pega como exemplo, pensando..."Eu não posso ficar assim"...
Enquanto o outro se descabela, se desestrutura e fica mordendo corrente, porque simplesmente não quer perceber sua doença...

(Fonte: Ver. Vivência)