Artigos - A fundação de Alcoólicos Anônimos

O que restava então aos alcoólatras? Beber até morrer?Como sempre, a humanidade, quando se defronta com um problema de difícil solução, põe sua imaginação criadora para funcionar e faz aparecer, na cabeça de alguém, novas soluções. Foi isto que aconteceu nos Estados Unidos. Um norte-americano alcoólatra de Nova Iorque havia procurado um médico em alcoolismo - um tal Dr. William Silkworth - e, com sua ajuda, já estava havia seis meses sem beber. Era um corretor da Bolsa de Valores e foi fazer um negócio em Ohio. O negócio não saiu, e ele, desgostoso, sentiu ímpetos de beber.no hall de seu hotel e, possuído pela ânsia alcoólica, só enxergava garrafas, copos e garçons. Nesse momento, sentiu vontade de, ao invés de beber, conversar com um outro alcoólatra. Quem sabe se conversasse com alguém que já houvesse vivido todas as agonias que ele vivera, alguém como ele, que soubesse a força sobre-humana daquela compulsão, ele não conseguiria evitar o álcool? Quem sabe se, conversando com outro alcoólatra e encontrando nele um ouvido experiente, ficaria aliviado? Um outro alcoólatra, certamente, não iria passar-lhe um sermão ou dar bons conselhos. Quem já sentiu o alcoolismo na carne não se permite essas banalidades.Como, entretanto, encontrar naquele momento, numa cidade estranha, um outro alcoólatra que se dispusesse a conversar com ele? Nesse instante, o corretor viu no hall do hotel um quadro de avisos sobre acontecimentos religiosos, com o telefone das igrejas e os nomes dos respectivos reverendos. Ocorreu-lhe então telefonar para esses reverendos: eles, em função de seu próprio ofício de pastor, saberiam do nome de vários alcoólatras. Telefonou para o primeiro pastor da lista; este até pensou que fosse trote ou que ele estivesse bêbado. O reverendo seguinte, entretanto, certamente depois de achar tudo aquilo um tanto estranho, deu-lhe o telefone de um médico da cidade, cuja vida havia sido destruída pelo álcool. O médico foi imediatamente contactado, e ambos marcaram de se encontrar na manhã seguinte.
Este telefonema e esse encontro marcado foram fortes o bastante para o corretor não ceder, naquela mesma noite, à vontade enlouquecedora de beber. No dia seguinte, na hora combinada, foi à casa do médico - um tal Dr. Robert Smith - e, lá chegando, contou-lhe a razão de o ter procurado: era um alcoólatra e precisava de ajuda. O médico, com aquelas típicas mãos trêmulas de quem já bebeu muito mais do que devia, disse-lhe que ele havia procurado a pessoa errada: quem não havia sido capaz de ajudar a si próprio não estava qualificado para ajudar ninguém.O corretor de Nova Iorque insistiu, dizendo que só alguém que fosse alcoólatra que soubesse como, sozinho, um alcoólatra não tem forças para ajudar a si próprio, é que poderia entender profundamente um outro alcoólatra e, com esse entendimento profundo, ajudá-lo. Só alguém que conhecesse a impotência do alcoólatra diante do seu alcoolismo poderia ter o entendimento empático com relação a outro alcoólatra e assim estabelecer um vínculo e um relacionamento de empatia mútua, impossível de ser obtido com um não-alcoólatra,. E assim tiveram uma conversa até altas horas da noite, cada qual contando suas aventuras, venturas e desventuras com o álcool. O papo fluía num clima de solidariedade ímpar, e, o que era surpreendente, nenhum dos dois, enquanto conversava sobre o alcoolismo, sentiu vontade de beber!Imaginaram fazer, em larga escala, o que estavam fazendo entre si: um alcoólatra ajudando outro alcoólatra a evitar o álcool. E sendo por ele ajudado. Uma espécie de auxílio mútuo. Havia, por força da semelhança dos problemas, uma afinidade natural, uma identidade. Isso facilitava demais o papo e a comunicação. Despertava confiança, pois cada um, sabendo da força da compulsão, não iria tachar o outro de fraco ou débil de vontade. Surgiria espontaneamente um genuíno respeito mútuo, ninguém se sentindo melhor do que ninguém. E uma afeição sincera, uma ternura, por ver, no outro, suas próprias dores. Tudo isso tornaria o encontro prazeroso e não um sacrifício. 
Despertaria mútua disponibilidade, sem ninguém se sentir alugado por ninguém. Até porque, aquele que houve hoje, poderá ser aquele que será ouvido amanhã, aquele que se salvou hoje da recaída, poderá ser o que, por sua vez, salvará amanhã o salvador da sua própria recaída. Afinal, alcoolismo é compulsão de força sobre-humana, e nenhum alcoólatra está vacinado para sempre contra ela. Esse corretor de Nova Iorque e esse médico de Ohio imaginaram, então, que os alcoólatras do mundo inteiro deveriam via a fazer o que eles estavam fazendo, que se fundariam grupos de alcoólatras, inspirados por essas idéias, em todos os lugares em que houvesse alcoólatras interessados em se salvar. Tiveram mais algumas conversas e o Dr. Bob ainda não havia conseguido parar 
completamente de beber. Até que um dia decidiu parar. O dia era 10 de Junho de 1935. Estava fundado o Alcoólicos Anônimos (Alcoholics Anonymous). 
corretor ficou conhecido como Bill W., o A.A. nº 1; o médico Dr. Bob, o A.A. n.º 2. Depois dessa memorável data, nenhum dos dois jamais voltou a beber.
Claro que nas sociedades humanas nada ocorre por geração espontânea, sempre existe algum fenômeno precedente. Antes da fundação dos A.A., já existiam os 
chamados grupos Oxford, de forte conteúdo religioso. Eles representam uma idéia prévia, uma idéia precursora à dos grupos de Alcoólicos Anônimos. 
Porém, a idéia de grupos de auxílio mútuo foi levada à sua forma atual pelos A.A.

* Dr. Eduardo Mascarenhas ( Psicanalista ) *** In Memorian