DP - A importância da Nossa Literatura (RV)

A Importância da Literatura na nossa Recuperação. 
A Literatura de Alcoólicos Anônimos foi escrita a partir da vasta experiência do membro alcoólico em recuperação e da experiência de formação de nossos primeiros grupos.
Há dois pontos distintos: um que trata da recuperação do doente alcoólico, essencialmente ligado ao autoconhecimento pessoal de cada alcoólico, e a psicologia moral ou atitude pragmática de decorrência espiritual.
O outro ponto é o que trata da estrutura da Irmandade como um todo; a transmissão do aprendizado através de experiências para o funcionamento satisfatório de cada grupo.
Como salva-guarda de vidas humanas envolvidas no nosso Movimento há uma grande responsabilidade por parte da Irmandade em divulgar procedimentos de formação e funcionamento do grupo.
Nesse sentido temos perpetuado, através de nossa Literatura, as Doze Tradições, que tratam da nossa Unidade e de como agirmos em irmandade.
Os Doze Conceitos para Serviços Mundiais e o que tratam dos procedimentos de Serviço da Irmandade.
Assim, Alcoólicos Anônimos tem atingido mais de 150 países em seus 69 anos de existência, graças a observância de nossas diretrizes e respeito às nossas tradições.
A nossa Literatura é resultado da experiência dos primeiros membros da nossa Irmandade. Experiência significa experimentar, observar os resultados e extrair sabedoria desses resultados. A experiência nos faz mais prudentes, e nos oferece condições de não incorrermos mais nos erros.
Quando se abre um novo grupo, em qualquer lugar, este grupo não precisa arriscar sua vida tentando experimentar coisas como quebra de anonimato ou filiação a outros segmentos.
Na sua gênese, Alcoólicos Anônimos já vivenciou todas essas coisas. Hoje em dia, qualquer grupo pode ser aberto e obter sucesso e longevidade salvando vidas se tiver acesso à Literatura.
Na formação de um grupo, podemos afirmar que a Literatura não é somente importante, é fundamenta1. A. A. não precisa ser reinventado. É abrir a sala e, com a Literatura à mão, servir em Recuperação e Unidade. Falamos da Literatura ligada à Unidade e ao Serviço.
Agora, queremos refletir sobre o assunto da pauta desta exposição: "A Importância da Literatura na Recuperação". Aqui, a tônica são os Doze Passos.
Todos aqueles que ingressam em A.A. estão ingressando num programa de vida, desenvolvido por alcoólicos e especialmente para alcoólicos.
No primeiro momento, entregamos os pontos. Contamos a história de nossa tragédia como bêbados, confessamos nossos truques e peripécias para beber. Mas esse é apenas o primeiro movimento. É como quem, admitindo que vai se banhar na lagoa, coloca o dedo na água para sentir a temperatura.
A maioria de nós leva muito tempo para mergulhar nessa lagoa, que é o programa de A.A., e permanecemos lá fora, apenas molhando a ponta do dedo.
Molhar a ponta do dedo é o primeiro passo; cair de todo na água é o segundo; mergulhar e nadar à frente é vivenciar e agir plenamente dentro do nosso maravilhoso programa de recuperação.
O resultado disso é que passamos a nos transformar, nos tomamos novos homens, cada vez mais distantes do bêbado que éramos, até experimentarmos a libertação da nossa obsessão, ou seja, libertar-nos da vontade de beber.
Nesse momento, estaremos crescendo como seres íntegros, e o álcool sai de cena.
Enquanto estivermos apegados apenas ao toque do dedo sobre a superfície da lagoa, e não passamos do primeiro movimento, do primeiro passo, não poderemos experimentar a libertação e passaremos a vida brigando com a garrafa, achando que nossa felicidade depende apenas de evitar levar a mão ao copo.
Para A.A. isso é apenas o primeiro movimento. O que nossa Irmandade nos oferece é um modo de vida, não apenas para evitarmos a bebida, mas para sermos felizes sem a presença dela. Daí é que precisamos trabalhar a pessoa que somos, nossa personalidade, nosso caráter, para nos tomarmos plenamente úteis e alegres com a vida e com as pessoas.
O mapa da mina são os princípios de A.A. em ação, e a Literatura está aí para nos "aconselhar", sugerir, ajudar como o melhor dos padrinhos.
Quem não se envolve efetivamente com o programa, dificilmente vai procurar a Literatura.
Não é uma questão de gostar de ler ou não gostar.
O envolvimento com o Programa é uma questão de necessidade. Para conhecê-lo é preciso ter boa vontade e a mente aberta; para vivenciá-lo, requer-se honestidade.
Se não temos paciência para ler, provavelmente, também não teremos paciência para ouvir os depoimentos dos nossos companheiros.
Há um bêbado em nós independente de bebermos ou não. Ou não somos doentes? E muitas vezes nossas atitudes seguem os padrões do bêbado alojado em nós, mesmo que não bebamos. O bêbado seco em nós não quer o Programa, muito menos saber de nossa Literatura, que é a nossa sabedoria anotada no papel.
A Literatura é o grande e sábio padrinho comum a todos nós. Se você não gosta de ler, ou não sabe ler, abra bem os ouvidos quando outros falam do Programa ou fazem leitura em nossas reuniões.
O importante mesmo não é saber ou gostar de ler. a grande inimigo que precisamos vencer para alcançar toda a graça de ser um alcoólico em recuperação é a barreira que erguemos em nossas mentes.
Quando abrimos nossas mentes, a Literatura passa a ser uma voz doce e suave, uma voz cheia de sabedoria e alegria, uma voz que está sempre ao nosso alcance e que poderá encontrar eco em nossos corações, desde que queiramos fazer parte da Irmandade e acreditemos que Alcoólicos Anônimos pode fazer por nós o que não conseguimos fazer sozinhos: viver sem beber.

Vivência n° 93 – Jan./Fev. 2005