DP - A maior de todas as dádivas

 A maior dádiva que pode ser concebida a qualquer pessoa é um despertar espiritual. Este seria, sem dúvida, o veredicto de todo alcoólico bem recuperado, membro da Irmandade de A.A.

 Pois bem, o que é este "despertar espiritual", esta "experiência transformadora"?

 Como se manifesta em nós, o que faz ela?

 Para começar, um despertar espiritual é o canal pelo qual alcançamos a sobriedade. Para nós, os AAs, a sobriedade significa a própria vida. Sabemos que o despertar espiritual é a chave que nos abre a possibilidade de sobreviver ao alcoolismo e, para a maioria de nós, a única chave. Temos que despertar; se não morremos.

 Desta forma despertamos, e nos encontramos sóbrios. Muito bem, e daí?

 É... a sobriedade não é senão a primeira dádiva do primeiro despertar. Se havemos de receber outras, é necessário perseverar nesse despertar. Se perseveramos, nos damos conta de que, pouco a pouco, podemos nos descartar da velha vida - a que não funcionou - e recomeçar por uma nova vida que pode funcionar, e que funciona, sejam quais forem as circunstâncias. Sem nos preocupar com a sorte que nos cabe - os êxitos e fracassos mundanos, os sofrimentos e os prazeres, a enfermidade ou a saúde, e, inclusive, a morte - podemos levar uma vida de possibiliddes ilimitadas, se estivermos dispostos a perseverar no nosso despertar.

 Pouco tempo depois de ingressar em A.A., um recém chegado dirigiu-se a mim dizendo: "Estou sóbrio, e é quase um milagre que o esteja. Admiti minha derrota, assisti a inúmeras reuniões, comecei a ser sincero comigo mesmo e com meu padrinho. E então, me vi livre dessa terrível compulsão de tomar um trago. Já não é preciso lutar contra a bebida; o desejo de fazer uso do álcool simplesmente desapareceu, e ainda não sei explicar, precisamente, como, e nem por quê.

 Meus companheiros de A.A. são maravilhosos. Preocupam-se comigo e me compreendem. Esta é, para mim, uma realidade completamente nova.

 "Mas", aduziu o sr. Principiante, "ainda me sinto um tanto desorientado. Não consigo compreender como esse negócio de Deus se encaixa na vida prática. Quando ouço meus companheiros falando de se trocar a 'vida velha por uma nova', tenho dificuldade de assimilar. Claro está que me encontro sóbrio, e isso é algo novo. Porém, agora que consegui me converter em um ex-bêbado, o que haveria de mal em querer viver a minha própria vida? Ela me servia até que a bebida me passou uma rasteira. Eu estava fazendo grandes progressos, no sentido de fazer a minha fortuna. Em casa, as coisas estavam indo muito bem, até o momento que minha mulher me disse, aos berros, que não me aguentava mais, e foi embora. A única coisa que necessito é a minha sobriedade, o que A.A pode continuar me dando. Posso voltar agora a me ocupar com os meus negócios. Estou certo que, desta vez o farei melhor".

 Passados quatro anos, esbarrei com esse mesmo "principiante". "Olá, Pepe", disse-lhe, "já fez a sua fortuna? E sua esposa, voltou a viver com você?"

 Com um sorriso amarelo, Pepe fitou-me fixamente e respondeu: "Não, Bill, nem nada parecido com isso. Passei um ano dos infernos. O que me manteve sóbrio, foi um milagre ainda maior do que aquele que me fez conseguir sobriedade. Eu insistia em fazer a minha fortuna, e conseguir que minha mulher voltasse. Senão, iria viver como um pobre coitado. Sinceramente, me sentia assim. Porém, pouco a pouco fui me conscientizando diante da possibilidade de que Deus não havia me colocado na Terra para acumular todo o dinheiro, todo o prestígio e todo amor que eu pudesse acumular. Por fim, tive que encarar a realidade de que seria necessário contentar-me com menos, e muito menos. Se não pudesse enfrentá-la, seria provável que voltasse a me embriagar.

 De modo que deixei de rezar a Oração da Serenidade de A.A. apenas de boca, e comecei a fazê-lo com toda a sinceridade. Dizia várias vezes: 'Concedei-me Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, Coragem para modificar aquelas que posso, e Sabedoria para distinguir umas das outras'.

 À medida que ia adquirindo a capacidaee de aceitar, meu sofrimento ia diminuindo. Comecei a despertar e olhar ao meu redor. Comecei a dar-me conta de que o meu humilde trabalho era um meio para eu ganhar a vida e servir a sociedade. Conseguir um trabalho mais importante e de prestígio não podia mais ser o meu objetivo principal.

 Então, refleti sobre o A.A. O que havia feito eu, para a Irmandade que me salvara a vida? Tive que admitir que era muito pouco. Assim, comecei a participar das reuniões de A.A. com uma atitude diferente. Deixei de ter inveja dos AAs mais integrados e comecei a ouvir atentamente o que eles diziam. Pude entender que o dinheiro não era símbolo de prestígio; que nos era creditado para fazermos dele o uso melhor e mais adequado possível. Além disso, ensinavam-me que as tentações da riqueza muitas vezes poderiam ser uma aflição pior do que os padecimentos da pobreza. Cheguei também a compreender que não existe tal coisa como um AA infeliz, se este é um membro de verdade. Se encontra-se doente, pelo dignificante exemplo que dá, pode servir como inspiração, tanto para os outros doentes, como para aqueles que gozam de perfeita saúde. Se anda parco de recursos, pode esbanjar riquezas espirituais e tornar-se um trabalhador, um dedicado servidor
de nossa Irmandade.
 Agora, dou-me conta de que o 'despertar-nos' e o 'desenvolver-nos', nunca têm fim, e que jamais devo temer as dores do crescimento, desde que esteja disposto a reconhecer, através destas experiências, a verdade acerca de mim mesmo.

 Há alguns dias, um veterano AA, deu-me um exemplo do qual jamais me esquecerei. Paco é um autêntico pioneiro. De fato, fundou o A.A. em minha terra. Eu tinha inveja dele, porque era um milionário.

 Disseram-me que estava no Hospital, gravemente enfermo, à beira da morte. Em certo sentido, aborrecia-me a idéia de ir visitá-lo, achava que ia ser muito triste. Ao cruzar a soleira da porta do Hospital, deparei-me com a sala cheia de companheiros de A.A., que estavam de muito bom humor. Estavam alegres, porque Paco estava alegre.

 Ele estava contando-lhes histórias engraçadas dos seus dias de bebedor, a intervalos secando o queixo, enxugando o sangue que saía de sua boca cancerosa. Endireitou-se e sentou com as pernas e os pés descalços, pendurados na beira da cama. Uma enfermeira entrou, admoestou-o e suplicou que se deitasse. Paco fez um gesto para que se calasse, e disse a ela: 'Se deitar na cama, pode acontecer que eu morra agora mesmo. E isso seria uma lástima, pois quero assistir à nossa Convenção Estadual de A.A., na semana que vem'.

 Sabíamos todos que isso não era uma brincadeira; dissera-o com toda sinceridade.

 Passado mais algum tempo, Paco voltou a falar da morte. Disse-nos que havia levado uma vida maravilhosa. A bebida havia lhe causado grandes sofrimentos, mas também, por conseqüência, o A.A. havia lhe proporcionado grandes alegrias. Com seu 'despertar' em A.A., veio-lhe a convicção absoluta - de fato, a certeza, de que 'Na casa do meu Pai há muitas moradas'. Todos nós, ali reunidos, percebemos que, para Paco, a morte nada mais era do que um novo despertar.

 Não conseguiu assistir à Convenção. Porém, Paco sabia, e nós sabemos, que isso não era realmente importante, porque Paco já tinha em suas mãos a maior de todas as dádivas."

Vivência - novembro/dezembro 96