DP - A mensagem de A.A. circula de muitas formas > RV. 146

"A mensagem de A.A. circula de muitas formas > RV. 146 "


A seguir, a emocionante narrativa de alguém que, impossibilitado de frequentar Grupos presenciais, recorreu a reuniões online e à Revista Vivência para se manter em recuperação nos momentos mais difíceis.


Hoje é o dia mais feliz da minha vida, não bebi nem usei outras substâncias que alterem meu humor. Cheguei a Alcoólicos Anônimos em 1999, em total fundo do poço, debilitado física e mentalmente, desempregado e com minha empresa de portas fechadas (falida e sem poder dar baixa na Receita Federal devido a multas por irregularidades), sem dignidade, respeito, credibilidade moral e espiritual.


O alcoolismo afetou toda minha vida e também devido ao consumo de outras drogas com poder devastador, eu tinha perdido as esperanças de viver. Nas manhãs as ressacas eram terríveis, dolorosas e cheias de ressentimentos. Eu fazia juramentos por tudo que achava que talvez pudesse me ajudar, que naquele dia não beberia. Afetado pelo efeito das substâncias, sofri convulsões. Nas primeiras crises os médicos investigaram a causa, até então a suspeita era epilepsia, mas foi determinado que era síndrome de abstinência, quando a mente e o corpo sentiam a falta do álcool. No mês de setembro de 2010 sofri um enfarto do miocárdio e após cateterismo fiquei na fila do S.U.S., esperando uma cirurgia que foi feita somente em março de 2012.


Após essa cirurgia conheci as reuniões online de A.A. que funcionam na Internet, pois como eu não podia naquelas condições frequentar um Grupo presencial, passei a usar a tecnologia que a ciência desenvolveu e onde tive um grande aprendizado. Realmente, Alcoólicos Anônimos é presidida por um poder Superior. Perdoem-me os companheiros(as) que tiveram a iniciativa de usar o meio eletrônico para compartilhar experiências, forças e esperanças com inúmeros membros submetidos a limitações físicas, recém-operadas ou que residem em locais distantes onde não há um Grupo presencial. Fui um dos críticos dessa iniciativa porque eu mesmo ainda não conhecia e não tinha noção da espiritualidade que também existe quando nos reunimos em meio virtual.


Após quatro meses da cirurgia cardíaca, apareceu uma afta em minha boca. Procurei um dentista que me pediu um raio-X e me encaminhou a um hospital de referência para um exame mais preciso. Uma biopsia revelou tratar-se de um tumor maligno, ou seja, câncer de boca (cabeça e pescoço). Havia 48 nódulos, sendo que o que estava na língua tinha 3,5cm e outro 0,5; os restantes foram retirados, mas não eram malignos. Eu precisava ser operado o mais rápido possível para evitar o desenvolvimento dessa outra doença, mas corria alto risco de morte devido à cirurgia cardíaca ter sido recente. O cardiologista precisou consultar outros que já tinham passado pelo mesmo problema para poder dar uma carta ao oncologista, autorizando a cirurgia, que afinal aconteceu no dia 25 de Novembro de 2012.

O oncologista explicou a situação para mim e para o meu filho, que acompanhou tudo. Foi bastante claro e objetivo: seria preciso retirar parte da língua, avaliar toda região para ver se não estava atingindo as cordas vocais e demais órgãos da cabeça e pescoço. Alertou que talvez eu perdesse a voz, mas disse também que se corresse tudo bem na cirurgia e não fosse preciso mexer nas cordas vocais, eu voltaria a falar após seis meses. Por fim, disse que o procedimento seria de grande risco, devido às condições do coração. Perguntou-me então o médico: “o senhor deseja fazer esta cirurgia mesmo com esses riscos?” Respondi sem exitar: “faça aquilo que for necessário”. Meu filho assinou os documentos de autorização.

 

Foram embora dois terços da minha língua, mas Deus, como eu O entendo, permitiu que sobrasse uma pontinha para eu transmitir a mensagem de A.A. E uma certeza eu tenho: a Irmandade de A.A. tem uma energia tão preciosa e positiva que, quando eu estava voltando da anestesia, dentro da UTI, entubado, com traqueostomia e a língua cheia de suturas, com várias sondas e demais procedimentos necessários, meu filho, que esteve presente acompanhando tudo, me disse: “pai, o telefone de casa não para de tocar, dia e noite, seus companheiros de A.A. querem notícias suas; alguns dizem estar orando, outros rezando pelo seu restabelecimento”.

 

Embora naquelas circunstâncias a sua voz parecesse muito distante e eu chegasse a pensar que não sobreviveria, pude ouví-lo dizer isto. Naquele momento entrou em mim uma força e esperança que parecia mais um choque. Em meu pensamento, embora confuso, pude formular um propósito para mim e para Deus: vou voltar a entrar lá e agradecer a todos!

 

Após minha volta para casa, com menos de um mês entrei em uma das reuniões online e pude pronunciar algumas palavras, embora um tanto enroladas ou incompreensíveis, muitíssimo emocionado, com lágrimas de alegria por já conseguir expressar meus agradecimentos a essa maravilhosa Irmandade.

 

Neste “mar revolto”, a querida Revista Vivência também foi uma boia de resgate muito significativa para mim.

 

Agradeço muitíssimo ao Poder Superior por ter preparado padrinhos para mim, que me ajudaram a abrir a mente para experimentar e degustar o espírito de serviço presente igualmente nas reuniões on-line. Hoje penso: "se nosso cofundador, Bill W., tivesse na época essa tecnologia?!..."


Nesses 18 meses que estou acompanhando as reuniões on-line, aprendi muito, principalmente sobre a nossa literatura. Percebo ainda que adolescentes e jovens, por curiosidade entram em reuniões de A.A. na Internet e estão se interessando pela Irmandade, ao descobrir que o álcool às vezes funciona como “porta de entrada” para outras drogas.

 

Hoje, mesmo com minha voz um pouco modificada e com a pronúncia também um pouco distorcida, estou voltando ao meu Grupo-base presencial “de alvenaria” e recomeçando no serviço. Pela graça de Deus, como O entendo, também já pude desenvolver alguns temas nas reuniões on-line; um deles é este que escrevi e poderei talvez compartilhar com muitos(as) companheiros(as) se minha “boia”, a Revista Vivência, consentir publicar.                                                                                                                            

 

Vivência nº 146- Novembro/Dezembro/2013 - pg. 27, 28 e 29