DP - A Primeira Tradição em minha vida

A Primeira Tradição em minha vida

O bem estar de um grupo de pessoas está acima do bem estar pessoal de cada um de seus membros. Maravilhosa lição da Primeira Tradição de A.A., vivenciada pelo autor em sua família, em seu ambiente de trabalho

Ainda hoje me lembro da minha chegada em A.A. Era um sábado de inverno, com céu cinzento e ruas molhadas. Cheguei à porta do prédio comercial onde ficava a sala de A.A. na minha cidade. O grupo era no segundo andar e havia uma longa escada onde eu subiria e desceria muitas e muitas vezes nos próximos anos. Encarei e enfrentei a escadaria enfim, como que saindo degrau a degrau do fundo da caverna escura a qual o alcoolismo lentamente me conduziu.
 
Reunião de sábado era especial. Depois eu iria descobrir isso. Havia os chamados “sabadeiros”, a turma que por diversos motivos só aparecia uma vez por semana. Em geral alguém trazia um bolo para o café e a animação dos companheiros era maior que nos demais dias da semana.
 
Logo na porta um companheiro me recebeu com as boas-vindas e todos os outros notaram rapidamente minha presença. De alguma forma e por algum motivo me senti próximo daquelas pessoas que eu jamais vira. Começando a reunião, já na leitura do preâmbulo eu me senti embarcando no mundo novo da recuperação pelos princípios de Alcoólicos Anônimos. 
 
Foi nessa reunião que descobri os três fatos que me facilitariam “colar” em A.A.: “alcoolismo é doença”; “evite só o primeiro gole” e “o programa das 24 horas” foram as frases que ouvi nos depoimentos daquela primeira reunião e que me deram a certeza de ter encontrado o lugar certo, depois de dez anos de sofrimentos contínuos, crescentes e degradantes no final. Tudo foi tão bom que acabei voltando nos dias seguintes.
 
Acho que as descobertas sobre o modo de viver de A.A. são comuns a todos nós e vão desde o Primeiro Passo ao último dos Conceitos, passando pelas Tradições, ou seja, pelos Legados. A cada dúvida eu sempre recorria a um companheiro e a outro, e a outro, até que pudesse formar meu entendimento. Sou daqueles alcoólicos turrões, de tudo ou nada e que carecem de convencimento para aceitar como certa uma resposta.
 
Eu chegava bem cedo às reuniões. Queria fazer alguma coisa. Precisava me sentir parte do Grupo, agarrar com firmeza aquela boia e salvar minha vida. Talvez foi na terceira ou na quarta reunião que, enquanto varria a sala, perguntei ao companheiro Benedito: “O que são estes três quadros na parede?” E ele pacientemente falou-me o que sabia sobre os Passos e sobre as Tradições de A. A. Fiquei perplexo ao saber que mesmo não havendo hierarquia, a Irmandade existia e progredia há tantos anos e o companheiro me disse que era isso que nos mantinha juntos, a Unidade expressa na Primeira Tradição e o propósito primordial e comum de evitar o primeiro gole, a partir do Primeiro Passo.
 
Claro que questionei diversos outros companheiros sobre esses princípios, inclusive em reuniões de unidade e em temáticas. Mas foi com o tempo e com as experiências vividas no grupo e na Irmandade que consegui formar minha opinião sobre eles. Hoje, refletindo sobre minha trajetória, com muita facilidade consigo perceber que foram esses princípios que me mantiveram vivo e sóbrio desde aquela primeira reunião naquele inesquecível inverno.
 
Com o tempo, o modo de vida de A.A. foi me contaminando de tal forma que eu tentava me lembrar dos Doze Passos o máximo que podia na minha rotina diária. Passei a me relacionar melhor comigo mesmo, cobrar menos de mim e entender as severas limitações e imperfeições que me mantiveram durante tanto tempo na ativa alcoólica. Também passei a estabelecer contato diário com Deus, como O entendo. A me comunicar com Ele diversas vezes no dia, a cada situação boa ou ruim que a vida me apresentava. E tudo isso só me fez bem.
 
Então, percebi que o conhecimento e a prática dos princípios podiam tornar minha vida mais leve, mais amena, e proporcionalmente mais intensa espiritualmente. Com isso, passei a tentar encontrar situações onde os princípios podiam ser aplicados, inclusive a Tradição da Unidade.
 
É claro que minha família estava desestruturada. Tal qual aquela família que olha para sua casa depois da passagem do furacão, como menciona a literatura de A.A. Eu morava com meus pais, minha irmã e duas sobrinhas adolescentes. Era quase cada um pro seu lado, com sua vida, com seus problemas e com seus objetivos. Muitos conflitos haviam. Pouca comunicação e muito desgaste nas relações entre todos nós e, como eu havia encontrado a “paz”, me impus o dever de semeá-la, começando pela minha família. Mas como faria isso?
 
Bem, se a Irmandade funcionava há tantos anos, com tantas e tantas pessoas diferentes, alguma coisa poderia ser aprendida e praticada na minha família, na minha vida. Então me veio a ideia de fazer uma reunião com todos. Uma reunião de serviço com a família. Com pauta e tudo mais! Falei individualmente com todos e numa tarde de domingo fizemos a tal reunião. Cada um falou sobre seu sentimento em relação a todos e estabelecemos que nossa prosperidade enquanto família só seria possível se houvesse união, unidade no propósito de crescermos, enquanto indivíduos, coletivamente. Foi um grande passo, o primeiro, ou melhor, a primeira tradição.
 
Mas o tempo passou e logo as diferenças e os atritos surgiram. O que fazer? Novamente busquei entre os princípios que mantinham a Irmandade de A.A. viva e percebi que para haver união, precisaríamos de unidade. Estabeleci então uma reunião semanal com todos. Mas não uma reunião de serviço com pauta e tempo para cada um falar: uma reunião motivada por um propósito único, um almoço em família.
 
Durante a semana alguém sugeria um prato, um cardápio para o almoço do domingo. Alguém se encarregava de comprar os ingredientes na semana, eu cozinhava, o que minha mãe adorava, pois podia tirar um dia de folga e alguém preparava a sobremesa, ou parte do cardápio. No final, o almoço era um sucesso, tanto que ninguém deixava de participar. Com isso, podíamos ouvir as meninas e saber mais sobre suas vidas e podíamos reencontrar as qualidades que cada um de nós tinha. 
 
Crescemos muito naqueles domingos. Todos juntos e unidos. As constantes e pesadas brigas deram lugar a calmos diálogos. Foi isso: passamos a amar o melhor de cada um de nós, sem temer o que de pior tínhamos. E vieram tantas dores de crescimento, tantos infortúnios, tantos percalços. Mas suportamos tudo isso juntos, unidos e o melhor: não precisei beber em momento algum. Perdemos minha mãe há três anos e meio, o esteio da família, mas nos mantivemos juntos. Nos unimos para cuidar de meu pai, acamado há 18 anos, e o perdemos há três semanas. E estamos juntos.
 
Hoje reconhecemos que cada um tem suas limitações, seus espinhos, seu ponto de vista, mas, não obstante, todos precisam de todos. Como naquela velha história que um companheiro uma vez me contou sobre a sobrevivência dos porcos espinhos na era glacial, quando precisavam do calor de todos, mesmo que para isso se ferissem mutuamente. A escolha era simples, entre a Unidade com o calor e os ferimentos, ou perecerem sozinhos no gelo.
 
Creio que este é o espírito da Primeira Tradição e hoje procuro aplicá-la em diversas outras situações da minha vida, inclusive no meu trabalho, onde estou há vinte anos seguindo carreira. Agora estou responsável pelo departamento em que entrei na função mais simples, na época das reuniões no grupo com o saudoso companheiro Benedito. E todos os dias procuro me lembrar de que sou só mais um que precisa de todos para alcançar os objetivos. Certamente seria muito difícil coordenar uma equipe tão grande e com tanta gente de origem e de pensamentos diferentes se não tivesse sempre em mente o bem estar comum, princípio forjado na experiência e no perecimento de tantos e tantos companheiros e companheiras nos primeiros anos de Alcoólicos Anônimos.

Vagner R. São Paulo/SP