Artigos - A sala

É um lugar simples e despojado, chega até a ser franciscano.
 É apenas uma sala simples, paredes toscas pintadas de cal, chão rústico e vermelho, no teto podemos ver telhas de amianto, e as velhas cadeiras chegam a ser desconfortáveis, mas as pessoas que procuram e frequentam não estão em busca de luxo ou conforto material, mas sim de outro tipo de conforto.
 Nesta sala vemos várias raças, credos, sexos e classes sociais, homem e mulher, do gari ao juiz, do pastor ao padre, tem João, tem Maria, tem José e Joana.
 Toda essa gente vem a esta sala para entregar aquilo que elas possuem de mais grandioso e bonito dentro de si, o seu amor e solidariedade.
 As que chegam na sala pela primeira vez, de tão amarguradas não conseguem dar o seu amor. Mas, bastam umas poucas horas para que elas se desarmem e sintam os seus corações aquecidos.
 Como se processa esta mágica troca de amor numa época em que amor e solidariedade são mercadorias tão raras?
 Talvez seja porque se sinta uma presença muito marcante de Deus na sala, ou talvez seja pelo fato de que as pessoas, ao passarem pela sua porta, deixem de lado a prepotência, o egoísmo e a individualidade para formar um só grupo, onde todos se ajudam mutuamente, onde o mais importante é dar e só então receber.
 São palavras amigas em que pessoas comuns jogam para fora suas emoções mais contidas. São gestos de aceitação daquilo que temos de mais fraco enquanto seres humanos.
 E é nesta sala que chegam todos (donas de casa, advogados, médicos, motoristas). Passam por esta porta mágica para, através do amor, crescerem e tornarem-se seres humanos dignos.
 A sala existe e está bem mais perto do que você imagina, pois tal qual coração de mãe, está sempre aberta para afagar e proteger mais um. É só procurar que você encontra.

VIVÊNCIA N°. 28  -  MAR./ABR. 1994.