DP - A solidão é a maior pobreza

Há momentos na vida que são como se o tempo tivesse parado e o meu filme passasse na minha memória. Sinto angústia, ansiedade, solidão, às vezes auto-piedade, e em alguns momentos ódio de mim mesmo.
 
Estou sempre querendo achar um culpado quando na realidade o grande culpado sou eu. Podia ter feito tudo diferente, como as pessoas normais, vida planejada, organizada, responsável, enfim, percorrer o caminho certo dado pelo Poder Superior.

 
Não foi nada disso... Na realidade, preferi os varadouros sinuosos que me levaram à vida de frustrações, arrependimentos, vergonha, medo e culpa. Minha vida era só fantasia, nunca tive sobriedade nas minhas atitudes, nem seriedade nos meus compromissos, nunca conseguia concretizar minhas conquistas nem enfrentava minhas dificuldades.

Construía meus castelos em areia movediça. 
  
A vida me deu muitas oportunidades, tudo que um homem poderia imaginar, sempre  fui um cara inteligente, trabalhei em poucas porém grandes empresas, onde sempre galgava cargos importantes, mas nunca obtinha vitórias porque não admitia que o meu beber descontrolado havia tomado conta de mim e não permitia que eu tivesse uma situação econômica equilibrada,uma convivência familiar estabilizada, uma postura de chefe de família, porque minha moral tinha indo para o esgoto e tirou minha vontade de viver.
 
Sofri três acidentes de automóvel, considerados, graves. Em todas as ocasiões desses acidentes eu estava totalmente embriagado e em estado de apagamento. Perdi famílias, fui duas vezes ao hospital com hemorragias no estomago – a última vez estava com o hematócrito muito baixo,à beira de uma transfusão. Vivia constantemente com crises reumáticas (ficava sem andar por semanas), aplicava injeções de forma imprudente em mim mesmo.
 
Quando conseguia dormir, meu sono era ofegante. Minha aparência física era horrível, os ambientes que freqüentava eram podres e perigosos... Meu destino estava traçado! Seria mais um daqueles que perambulam pelas ruas e feiras da cidade em busca apenas de bebidas alcoólicas, uma verdadeira falência humana. Troquei meus filhos, meu lar, minha igreja, meu trabalho, meu futuro pelas mesas de bares e portas de mercadinhos.

Depois de muito sofrimento o Poder Superior, na sua infinita bondade, me encaminhou para os Alcoólicos Anônimos.
 
Entrei, sentei e fiquei ouvindo aqueles homens falarem tudo aquilo que eu gostaria de falar. A sensação é incrível. A cada reunião, eu me conscientizava da dimensão da bomba que explodiu à minha volta e eu não percebi. As pessoas que mais me amavam eram as principais vítimas dessa explosão. A lista é grande, mas o A.A. me ensinou os Passos, as Tradições, o caminho do equilíbrio e as primeiras coisas.
 
O A.A. na minha vida foi um milagre. Continuo tendo problemas, dificuldades, mas tenho também a sobriedade para enfrentar o que vier. Tenhamos sempre em mente que o álcool é um grande inimigo das vitórias e se constitui numa grande barreira na vida  e na execução de um ideal ou de um Plano Superior.
 
(Vivência Ano 27 nº 1 – Jan/Fev. 2012)