Artigos - A volta ao esquecimento

A história de um homem que ficou "famoso" por ser um AA.

Sempre
que ouço falar em quebra de anonimato em nível de público, lembro-me de um homem a quem chamarei de Dack. Tenho profunda convicção de que a morte de Dack foi, em grande parte, resultado da quebra de nossa Décima Primeira Tradição. Não há meio de comprovar isso: que Dack poderia estar vivo hoje tivesse ele observado a Tradição, as acredito nisso.

Nunca
conheci Dack, exceto daquela maneira como todos os alcoólicos em A.A. conhecem uns aos outros, sabendo termos os mesmos temores, desesperos e esperanças. Ele jamais visitou meu grupo nem eu o dele. Mas tomei conhecimento dele, assim como todos os que leram os jornais e assistiram aos programas locais de televisão.

Ele
era um homem na faixa de 30 a 40 anos, oficial de polícia e alcoólico em recuperação. Dack demonstrava infindável compaixão com os sem-teto, os alcoólicos e abandonados da sorte da cidade.

"Este
é meu povo", dizia ele aos jornalistas e repórteres de TV. Logo, quase todas as semanas, começaram a aparecer matérias, com fotografias, sobre o jovem oficial de polícia que estava tentando tão obstinadamente ajudar aqueles desafortunados.

Todos
os artigos mostravam fotos de Dack, em uniforme, estendendo a mão a uma pessoa idosa ou agachado sobre os calcanhares em conversa com um grupo de sem-teto. Todas as vezes era convenientemente destacado ser Dack um alcoólico em recuperação. E sempre, sempre, as histórias mencionavam ser ele membro de A.A.

Tudo
isso era maravilhoso material de interesse humano. Dack tornou-se algo como uma celebridade, era convidado para clubes cívicos e, provavelmente, era o oficial da polícia mais popular da cidade. Logo foi agraciado com o título de policial do ano.

Sendo
eu antigo membro de A.A. profundamente convicto de que a observância das Tradições é de vital importância para A.A. e para cada membro, me preocupava com a situação. Se Dack não compreendia por que ele não deveria quebrar seu anonimato em nível de imprensa e televisão, certamente deveria haver alguém em seu grupo para explicar-lhe.

Apesar
de não conhecer Dack pessoalmente, não era difícil encontrar membros de A.A. que o conheciam. Conversei com um membro de seu grupo com dez anos de sobriedade. "Você não é o único a se preocupar com Dack", ele exclamou. "Já falei com ele sobre a Tradição do Anonimato. Seu padrinho também o fez. Ele está sóbrio há apenas três anos, você sabe, e não dá tanta importância às Tradições como nós. Ele vê seu ingresso em A.A. como parte essencial de uma história que pode ajudar outras pessoas, e portanto, se autoglorifica. Também estou preocupado com os efeitos da súbita celebridade de Dack; Temos tentado conscientizá-lo quanto à Décima Primeira Tradição, mas Dack tem estado muito ocupado ultimamente e sem tempo para assistir às reuniões".

Não
demorou muito para surgirem rumores de Dack estar bebendo novamente. Como sempre acontece, ao surgirem tais boatos, tive esperança doentia de que aquilo não fosse verdade. No caso de Dack, esperava eu, com fervor sem precedentes. Toda aquela publicidade, toda aquela celebridade, reconhecimento, eram inteiramente construídas na pressuposição de Dack ser um alcoólico recuperado e estar sóbrio – um membro de Alcoólicos Anônimos. Se Dack não se mantivesse sóbrio, tudo ruiria. 

E
quão amargo e cruel seria para Dack, depois de tanta publicidade, voltar para o grupo e aceitar ajuda. Especialmente porque sabia ele ter contrariado os princípios de A.A. duplamente: primeiro quebrando a Décima Primeira Tradição e depois bebendo. Na sua mente confusa, poderia perceber o quanto eles gostariam de
ajudá-lo?

Alguns
dias depois, a notícia confirmou-se nos jornais e na televisão. Dack tinha realmente bebido por alguns dias. Poucas pessoas sabiam disso. Na noite anterior, usando seu uniforme, Dack estacionou seu carro de patrulha na garagem da delegacia. Sentou-se ali por alguns instantes. Quanto tempo, ninguém sabe. Então, pegou seu revolver de serviço, apontou para o peito e acionou o gatilho. Morreu imediatamente.

Talvez,
sem quaisquer circunstâncias, ele não tivesse tido condições de administrar o que seria uma completa desgraça: beber de novo. Mas, penso que ele teria todas as chances de fazer seu caminho de volta para uma longa, completa e útil vida se não tivesse se sobrecarregado com o peso de sua quebra de anonimato, o que lhe parecia inofensivo – até desejável – naquela época. 

(Grapevine) – Vivência N° 24 – ABR/MAI 1993