Artigos - Abordar e motivar para a recuperação

 Dr. Luiz Alberto Chaves de Oliveira - médico especializado em Dependência Química. 


Quando alguém não identificado com a questão da dependência de álcool e outras drogas começa a conversar comigo, a primeira questão começa a ser a dificuldade de abordar o dependente e a garantia da eficácia do tratamento; é exatamente isto que mais preocupa os especialista na matéria. Infelizmente, sabemos que a grande maioria dos dependentes irá morrer, nos próximos anos, sem saber que é portador de uma doença passível de tratamento e que permite recuperação de todas as conseqüências da mesma. Hoje, parece ser quase unânime entre os profissionais que trabalham junto a estes pacientes que o tratamento só é efetivo , a médio e longo prazo, se houver uma MUDANÇA DE VIDA - profunda e consciente; da mesma forma, através dos exemplos de recuperação, torna-se mais fácil (ou menos difícil) atrair novos pacientes para o início do tratamento.

 Os Alcoólicos Anônimos (A.A.) se constituem num precioso instrumento neste processo: os propósitos deste grupos, além de não se esgotarem na abstinência, mostram a necessidade de empreender mudanças no cotidiano e nas crenças, para que exista recuperação; tanto que a palavra álcool só é mencionada no Primeiro Passo. Os outros passos remetem a uma profunda mudança de valores de vida.

 Existem muitos "pré-conceitos" na sociedade leiga e profissional contra os AAs: 
 "Colocam em um Poder Superior a resolução das dificuldades; constituem-se em um grupo de religiosos fanáticos; não tem base científica na sua atuação; fazem lavagem cerebral; trocam a dependência ao álcool pela da associação..."
 É preciso reconhecer e corrigir esses enganos através de uma ampla utilização da mídia (rádio, televisão e jornais), no sentido de divulgar o A.A., procurando esclarecer que se trata de um programa espiritual (não religioso); não tem a pretensão de substituir outras formas de tratamento, pelo contrário, quer colaborar com as outras modalidades; por contribuir com o crescimento espiritual e emocional das pessoas, faz com que elas se modifiquem.
 O A.A. nos Estados Unidos da América (EUA) e no Canadá, realiza, continuamente, uma série de estudos estatísticos, para melhor entender e divulgar a atuação dos grupos, possibilitando uma real atração - abordagem e motivação para o tratamento.
 Seguem alguns dados para conhecimento, reflexão e eventual comparação com a realidade brasileira:

 1 - A desistência daqueles que procuram os grupos é alta nos primeiros três meses; após seis meses, ocorre uma estabilização em torno de 6% (os que ficam).

 2 - Cerca de 41% dos que apresentavam menos de um ano de sobriedade continuavam na Irmandade no ano seguinte; com menos de cinco anos de sobriedade, 83% e acima de cinco anos, 91% permaneciam no ano seguinte.

 3 - Há uma grande variabilidade de profissões, mas 35,7% dos membros eram gerentes, administradores ou técnicos de nível médio ou superior; 5,5% eram padres ou pastores (ou similares) e somente 6,7% estavam desempregados.

 4 - Em 1968, as mulheres constituíam 22% do total de membros; em 1989, cresceram para 35%.

 Isto corresponde a uma razão de 1,9 homens para cada mulher. No mesmo período, estudos epidemiológicos indicaram uma relação de 5,2 homens para uma mulher alcoólica na população americana em geral. Fica claro que A.A. americano e Canadense atrai mais as mulheres que os homens!

 5 - Também para os jovens, a atração tem aumentado. Em 1968, os menores de trinta e um anos eram 7,1%; em 1989 passaram a constituir 22% dos membros. Convèm lembrar que cerca de 40% dos alcoólicos apresentam seus primeiros sintomas entre os quinze e dezenove anos.

 6 - Os dependentes de outras drogas além do álcool (excluindo o tabaco), passaram de 18% em 1977 para 46% em 1989. Parece que o monodependente (só de uma droga) acabará sendo uma raridade absoluta!

 7 - A maioria das pessoas entra no programa através do contato com outros membros (Comitê do Décimo Segundo Passo); porém, houve queda de 44% em 1977 para 34% em 1989 para esta forma de abordagem. Os Centros de Tratamento e Conselheiros respondem por 40% dos encaminhamentos, enquanto em 1977 só conseguiam 19%. Ocorre diminuição do potencial de motivação para o A.A.: a família (22% para 19%), os médicos (10% para 7%) e os que vão por conta própria (33% para 27%).

 8 - Um médico e um corretor da Bolsa de Valores fizeram a primeira reunião na história de Alcoólicos Anônimos e parece que esta amizade continua!

 Em 1980, cerca de 40% dos membros utilizavam ajuda profissional complementar ao programa de A.A. Em 1989, este número subiu para 60%. Parece que o único conflito ocorre quando medicações que possam produzir dependência, como os benzodiazepínicos e opiáceos, são prescritas.
 Esperamos ter ajudado a desfazer mitos e superar preconceitos, para que mais pessoas possam ser beneficiadas, ampliando a motivação para o tratamento e permitindo uma mais completa recuperação.
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Fontes: 1 - The Psychiatric Clinics of North America - Recent Advances in addictive Desorders" - March 1993.

2 - "Alcoholics Anonymous: Comments on AA's Trienal Surveys, 1989 - New York, A.A. World Services, Inc, 1989.

(Vivência - Julho/Agosto 95)