DP - Aconteceu com eles, pode acontecer comigo

Existem fatores comuns a todas as recaídas e com elas podemos no proteger e ajudar os outros. Fiquei perturbado e abalado na primeira vez que alguém do meu relacionamento pessoal recaiu. Como poderia ter acontecido isso? Que crise tão dramática teria causado essa trágica situação? Meu amigo, que felizmente voltou para A.A., parecia confuso quando tentava explicar sua recaída. Nenhuma crise, real ou imaginária, tinha ocorrido. Ele disse ter simplesmente decidido tomar "uma". Com o passar do tempo, meu horror e preocupação iniciais dissiparam-se. Admiti ser, o meu amigo, uma pessoa incomum e, tendo ele retornado a salvo ao programa, tudo estava bem. Mas logo, outro amigo
recaiu. E mais outros. Nem todos voltaram e alguns jamais voltarão, pois já passaram desta para outra vida. Comecei a temer que o mesmo pudesse acontecer comigo. Qual a causa dessas recaídas? Que acontece com uma pessoa que aparentemente parece entender e viver o programa de A.A. e, ainda assim, decide voltar a beber? Sem perceber, senti-me atraído pelos recaídos. Comecei a estudá-los. Aproximei-me deles e procurei, tanto quanto possível, entender o que aconteceu em cada caso. Percebi ser perfeitamente possível, para mim, recair também. Eu me identificava com esses membros de A.A. antes de suas recaídas, quando eles contavam pedaços de minha história e expressavam meus próprios sentimentos, e então, voltavam a beber. O que aconteceu com eles poderia suceder comigo, tinha plena certeza. Existe alguma coerência entre os recaídos? Aplica-se a eles algum denominador comum? Identifiquei
alguns. Não se aplicam a 100% dos casos. Mas são muito freqüentes para assustar. Em quase todos os casos, os recaídos, no retorno, dizem:

"Deixei de freqüentar as reuniões";

"Enchi-me com as mesmas histórias e as mesmas caras";

"Meus compromissos lá fora me levaram a faltar às reuniões"

"Senti  já  ter   recebido  tudo o que as  reuniões podiam me dar e    Procurei ajuda, em atividades mais significativas.”
Em resumo: eles deixam de comparecer às reuniões. Há um membro de A.A. que diz: "Aqueles que não vêm às reuniões não estão presentes às reuniões para saber o que acontece com quem não freqüenta as reuniões". Isso é verdade. Outro fator comum é o pouco uso dos Doze Passos. Os comentários mais comuns são:

"Nunca fiz os Passos";

"Nunca passei do Primeiro Passo";

"Trabalhei os  Passos lentamente ou "muito depressa" ou "muito  cedo.” Na  essência, esses  recaídos  consideram  os  Passos,  mas  não nos aplicam conscienciosa  e sinceramente às suas vidas.
 
Finalmente, suponho que a maioria deles não se sentia satisfeita com o dia de hoje.

"Esqueci de viver um dia de cada vez";

"Comecei a antecipar o futuro";

"Comecei a projetar";

"Comecei a  planejar os resultados e não a  realização de  minhas tarefas.”

Eles parecem esquecer que tudo o que temos é o agora. A vida continua e melhora para eles, como aconteceu com muitos de nós, mas começam a esquecer como ela foi ruim. Então ficam pensando como o dia de hoje poderia ter sido melhor. Na minha opinião, tendemos a esquecer os benefícios que estamos recebendo e a comparar o dia de hoje com o que poderá ser o dia de amanhã. Isso leva ao descontentamento quando os favores do amanhã não correspondem às expectativas. Devemos comparar o hoje com o ontem. Somente assim podemos ter consciência, pelo contraste, das grandes bênçãos e benesses de hoje. O mais importante das lições que eu queria aprender: como tratar um recaído que retorna ou que pede ajuda?

Sinto-me perfeitamente à vontade para levar a mensagem aos que estão chegando pela primeira vez. Se eles quiserem me ouvir, posso falar-lhes por horas. Mas que diremos a um recaído com anos de programação, que leu o Livro Azul, que conhece os Passos e assistiu a centenas ou milhares de reuniões? Por longos anos, senti-me impotente nessa área. 
 
Finalmente, um recaído me mostrou o que dizer a ele e, mais importante, o que fazer. Ele me disse o que mais gostaria de ouvir e sentir quando retornou. Posteriormente, outros recaídos confirmaram seus conselhos. Ele disse que, quando um recaído volta ou quer voltar, deveríamos dizer a ele que o amamos e estamos felizes com o seu regresso e estamos dispostos a ajudá-lo da melhor maneira possível.
 
Desde então, tenho dito justamente isso. Para mim, tem sido fácil fazê-lo porque sempre estou disposto a aprender com eles. 
 
(Vivência N° 23 – jan/fev/mar 1993)