DP - Afastando o perigo

AFASTANDO O PERIGO

“Durante muitos anos, guardei profundos ressentimentos, não apenas da diretora, mas também de todos os professores que participaram do conselho que ilegalmente votou pela minha expulsão."

 

     Há cerca de trinta anos fui expulso de uma escola pública, acusado de liderar um movimento estudantil grevista. Estávamos em período de repressão política. Na verdade, não idealizei nem liderei o movimento que, por seu turno, não poderia ser classificado como greve. Tudo não passou da oportunidade oferecida à direção do colégio de livrar-se de dois alunos (eu e um outro) que incomodavam, por dirigirem um jornal de circulação interna. Para resumir o caso, tudo foi corrigido pelo Tribunal de Justiça, que restaurou os meus direitos, reintegrando-me à unidade escolar. Durante muitos anos, guardei profundos ressentimentos, não apenas da diretora, mas também de todos os professores que participaram do conselho que ilegalmente votou pela minha expulsão.

     Quinze anos mais tarde, ingressei em Alcoólicos Anônimos, e desde então venho praticando o programa de recuperação, tentando aprender a lidar com os meus sentimentos. Aqui e ali sou advertido de que alguns deles são verdadeiramente venenosos para o alcoólico. Perdoar a si mesmo e a outrem é condição básica para fazer as pazes com o passado, dizem os Doze Passos, especialmente o Quarto e o Quinto, que a meu ver representam o cerne do programa. Desse modo, cultivar mágoas é plantar ervas daninhas.

     Por força de laços familiares, tive que manter certa proximidade com uma pessoa. Além de fazer parte da equipe administrativa do colégio de onde fui expulso, ela participou do conselho responsável pela minha expulsão e foi a professora encarregada de ministrar uma das provas especiais a que me submeti, após ganhar a questão na justiça. A intenção era a de me reprovar, o que felizmente não aconteceu.

    Em dado momento, já meio andado nos caminhos de A.A., dela me aproximei e declarei não manter ressentimentos com o que ocorrera no passado. Senti-me bem, pois erradiquei definitivamente qualquer mágoa que ainda pudesse lhe devotar. Passados alguns anos desse episódio, advoguei para ela como se nada houvesse acontecido, comportando-me profissionalmente.

     Há alguns meses, fui procurado pelo irmão da citada senhora para defendê-lo em uma questão judicial. A outra parte no litígio é exatamente a mesma pessoa que ocupava a direção do colégio, quando de lá fui afastado. Continuava com a mesma prepotência e exagerados caprichos de superioridade, ainda que, na atualidade, nenhuma posição de destaque exerça na pequena cidade, palco dos antigos e recentes fatos. É apenas uma professora aposentada.

     Quando recebi o convite, vislumbrei de imediato a possibilidade de ir à forra. Advogar contra aquela ex-diretora, que me houvera perseguido no passado, era realmente um prato cheio. Esse foi o meu primeiro sentimento. Passada a emoção dos primeiros dias, lembrei-me dos ensinamentos de Alcoólicos Anônimos e refleti muito, sempre me questionando se seria saudável dar razão ao ressentimento que eu nem sabia ainda estar adormecido em meu inconsciente.

     Cheguei à conclusão de que reativar a fogueira seria correr o risco de provocar desastroso incêndio.

     É claro que aceitei a causa que, aliás, vem-se desdobrando em várias outras, pois realmente aquela pessoa é uma adversária terrível. No entanto, nada de ressentimentos pessoais. Venho fazendo o melhor que posso na defesa dos direitos do meu cliente. Não posso negar que a vitória final me dará um prazer redobrado, mas sem gosto de vingança, traduzindo a oportunidade de impedir que a prepotência desmedida vença mais uma vez.

     Tenho conseguido lidar com a situação sem envolvimento emocional, até mesmo porque, agindo assim, terei melhores condições de trabalho. Tornou-se claro para mim que reativar ressentimentos significaria o risco de perda da sobriedade conquistada, sem falar na má atuação profissional, que por certo viria. Agradeço ao Poder Superior por haver proporcionado as duas situações expostas, como também agradeço a Alcoólicos Anônimos, porque me recebeu quando procurei ajuda e muito mais porque vem me ensinando, através dos Doze Passos, a viver ao largo dos ressentimentos, que nada contribuem para a minha caminhada em busca de uma vida íntegra, útil e feliz.


REVISTA VIVÊNCIA Nª 77 - MAIO/JUNHO 2002