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ALCOOLISMO

Aspectos: Clínicos, Terapêuticos, Culturais e Sociais
      Dr. Gustavo Navarro de Oliveira Médico Psiquiatra João Pessoa /PB
            Dr. Pedro Cardoso Filho Médico Alcoologista João Pessoa /PB

Definir o alcoolismo é tarefa difícil, em virtude das inúmeras tentativas e divergências entre os estudiosos.
Melhor seria seguir a conceituação de Jellinek, que assim reza: Alcoolismo é qualquer ingestão de bebida alcoólica que prejudica o indivíduo e ou, a  sociedade; simples palavras que sintetizam toda a gravidade da Doença Alcoolismo que engloba realmente o enfermo e a comunidade que ele vive. Várias formas da doença existem, configurando as diversas máscaras de um monstro, que na atualidade, incide em um percentual altíssimo, na população,  sem discriminações de sexo, cor, e com maior predomínio na idade produtiva. Gostaríamos de formar uma posição com respeito aos "bebedores de fim de  semana". Há um número cada dia maior de pessoas que lotam os bares a partir da sexta-feira à noite, entregues ao hábito da embriaguez, adiando por completo todas as suas atividades de lazer junta a seus filhos e companheiro (a), e inexplicável ânsia de "resolver todos os problemas existenciais", sufocando as "mágoas na mesa de um bar", como diz um samba antigo. Embora possa parecer puritanismo de nossa parte devemos afirmar que esta atividade compulsiva ao álcool deve ser considerada Alcoolismo, e não como se afirma levianamente beber socialmente. Beber socialmente, no nosso entender, não envolve necessidade compulsiva ao  ato de beber, como no exemplo acima citado. Há pessoas, nisso concordamos,  que bebem socialmente, mas não é este o caso. Tentemos esclarecer algumas formas do alcoolismo, sem ser nossa pretensão esgotar os tipos clínicos nem tão pouco generalizar perigosamente, vendo em qualquer pessoa um alcoolista 
alcoólico em potencial.
     É necessário afirmar, baseado em literatura especializada, e em nossa experiência clínica, que há uma forte predisposição individual ao alcoolismo 
em termos outros: alguns bebedores tornam-se Alcoólicos, outros não. É difícil atualmente precisar qual o fator ou a causa desta inclinação de determinados indivíduos ou até algumas famílias. As pesquisas neste campo são obstaculadas pelo desinteresse oficial na erradicação, diminuição da doença, pela extraordinária força de grupos econômicos produtores de  aperitivos e derivados do álcool que em alguns países fazem parte como um dos principais produtos de indústria nacional Vinho: (França, Itália, Portugal etc.); Uísque (Escócia); Vodka (Rússia e países do bloco Socialista); Cerveja (Alemanha) etc.

           "Aparece uma figura nova: a igualdade de posições.
           Ninguém dita ordens. Ninguém obedece. TodosVivenciam.
           Todos crescem. Todos trocam experiências".

Torna-se útil fazer algumas colocações, agora, acerca do comportamento da sociedade, em geral, e da família em particular, com referência ao alcoolista. A primeira e mais comum forma de reação do grupo familiar é a negação da enfermidade, como uma necessidade familiar de esconder o etilista, pois a sociedade, que estimula e aplaude o consumo do álcool condena o consumidor em excesso, taxando-o de "degenerado moral", de depravado, etc. Tendo em vista a conotação pejorativa que o grupo social faz do bebedor contumaz é compreensível a atitude familiar de negação da enfermidade. Todo o trabalho de psicoterapia em alcoolista deve ter como premissa a necessidade primária de conscientizar a família que o alcoolismo é doença e não degeneração moral. A experiência que os grupos de A.A. têm neste trabalho deve ser enfatizada e realçada, pois os frutos do contínuo e bom assessoramento familiar na elucidação e compreensão do alcoolismo é base para a recuperação e aceitação do alcoolista, no seio da pequena e da grande comunidade que ele faz parte (família e sociedade).A Psicoterapia familiar é de extrema importância, sendo em nossa opinião, indispensável ao crescimento e descoberta existencial por parte do enfermo de novas formas de lidar com os velhos e sempre presentes problemas do nosso cotidiano, que nos pede, a cada dia que passa, um repensar de propósitos e ações, para que possamos viver com menos angústias. Gostaríamos de trazer à discussão algumas formas de alcoolismo. Denomina-se alcoolismo agudo a embriaguez eventual - sendo episódica e não repetida constantemente, deve ser compreendida e não censurada asperamente. Dizer compreendida, não significa dizer estimulada. Algumas vezes os pais, mais freqüentemente o pai, estimula, gratifica e parabeniza o filho homem pelo fato do rapaz embriagar-se, na realidade, é quase igualmente 
distribuído nos dois sexos.
     E o fato de embebedar-se nada tem a ver com ser ou não macho. É mais um tabu que, todos nós, que lidamos com alcoolistas, em principal, com familiares de alcoolistas, devemos destruir; tabu perigoso, pois estimula o alcoolismo masculino, oficializando-o como sinônimo de machismo e masculiniza a alcoolista do sexo feminino, estigmatizando-a ainda mais: pelo alcoolismo ser uma degeneração e por ser próprio e bom apenas para homens. Se o alcoolismo agudo é repetitivo, contínuo, deve ser motivo de preocupação e consulta médica. Não escondamos o óbvio. A vergonha e a piedade, no alcoolista, funcionam negativamente, pois perpetuam e adiam o reconhecimento de um problema de saúde pública. Devemos encarar de frente e de fronte erguida; há possibilidades de controle contínuo do alcoolista e há referências de dezenas de anos de sobriedade (não uso de bebida alcoólica) por milhares de alcoólicos que convivem na irmandade de A.A.
     Reflitamos acerca das colocações - Pensemos de olhos abertos o alcoolismo é problema de saúde pública. Nós os autores deste pequeno trabalho, estamos elaborando um projeto para implantação em nível municipal de um serviço ambulatorial dado os índices cada dia mais preocupantes da incidência e prevalência do Alcoolismo. Seria um serviço pioneiro, na Paraíba, para ajudar o alcoolista a não internar-se nestes verdadeiros cemitérios de vivos (asilos), que         apenas cornificam a doença e marginalizam o homem enfermo.

"Os Aas conseguem ressuscitar a homem reintegrando-o à família e à sociedade. Querem saber a razão? São simultaneamente médico e paciente,  terapeuta/cliente".

Alcoolismo crônico pode ser definido como o uso diário, a impossibilidade de passar um dia sem beber - dependência física e a impossibilidade ou dificuldade intensa de parar de beber, uma vez iniciado o ritual (dependência psíquica). Nesta fase, o indivíduo ao acordar, sente a necessidade íntima de sorver o primeiro gole. Preocupa-se de uma forma extraordinária em ter estoques de bebidas. Pode passar dos fermentados  (cervejas, vinhos etc.) para os destilados (Rum, Vodka, Uísque, Aguardente). E começa a derrota pessoal: relaxamento dos hábitos higiênicos, falta à repartição, esquecimento das obrigações familiares, enfim todo um cortejo de acontecimentos que eclode com a total desmoralização do indivíduo perante  sua própria família e à sociedade. Nesta fase recomenda-se um tratamento desintoxicante (medicamentoso) com internamento em Hospitais Gerais ou serviços próprios para alcoólicos, infelizmente em número reduzido no nosso país e inexistentes no nosso estado. É necessário que a desintoxicação seja feita no menor espaço de tempo e que haja desde o início da mesma Psicoterapia, para que possamos usar desta arma no erguimento de um novo homem, existencialmente forte e apto, a enfrentar a vida sem o refúgio no 
alcoolismo. O médico, nesta hora, deve ser humilde e reconhecer que muito pouco tem feito a Psiquiatria, a Psicologia e a Psicanálise na ajuda efetiva, real do enfermo portador de alcoolismo, na aceitação de seu  problema e na resolução do mesmo, em nível profundo e prático. O reconhecimento por parte dos Técnicos Psi da necessidade de ajuda de outras  pessoas/entidades, que colaborem na efetiva melhoria/conscientização do alcoolista de sua condição clínica, esbarra numa dificuldade inicial: a onipotência médica. Se fizermos uma análise fria e desapaixonada temos que nos render a evidência: os grupos A.A. tem feito um trabalho magnífico nos enfermos etilistas - conseguem resultados maravilhosos com sua psicoterapia leiga, mas não menos importante que a nossa psicoterapia dita científica, que melhor seria dizer oficial. Os Aas conseguem ressuscitar o homem reintegrando-o à família e à sociedade. Querem saber a razão? São simultaneamente médico e paciente, terapeuta/cliente. A Psicoterapia feita pela comunidade A.A. é grupal e ao mesmo tempo individual. Todos são na mesma ocasião, os que estão sendo tratados e os que estão medicando, aconselhando. Há uma total integração dos indivíduos, que apresentam problemática comum, de um agente único. Aparece uma figura nova: a igualdade de posições.

"Os membros de A.A. permanecem sóbrios e existencialmente bem, o que prova a validade da psicoterapia feita pela comunidade".

Ninguém dita ordens. Ninguém obedece. Todos vivenciam. Todos crescem. Todos trocam experiências.
     Na psicoterapia médica há uma desigualdade de posições - nós, de uma forma geral e infelizmente, damos as coordenadas e orientamos o doente, como 
se pudesse ser nossa vida, nossa realidade aceita na sua integra para o doente, esquecendo-nos do principal: o enfermo deve ser respeitado, tem seus próprios valores, suas convicções, suas aspirações e suas vivências pessoais. Todo processo psicoterápico deve acatar/escolher seu próprio caminho, que, verdadeiramente, deve/pode ser diametralmente oposto ao nosso. Em palavras simples: Psicoterapia deve permitir o crescimento pessoal, deve mostrar perspectivas existenciais, apontar caminhos, jamais dar soluções ou projetos prontos. O homem, plenamente consciente deve escolher seu destino 
existencial. Por isso, os Alcoólicos Anônimos conseguem o que nós médicos geralmente não conseguimos: a adesão do paciente ao processo psicoterápico. 
É impossível fazer-se Psicoterapia sem a participação voluntária do cliente.
     Voltemos ao alcoolismo crônico. Após a desintoxicação deve o enfermo ser acompanhado, se possível pelos Aas., graças a Deus, para não se 
afastarem da assistência psicológica e moral que a comunidade dos Aas oferece, gratuitamente, fraternalmente.
     Não acreditamos, nos perdoem os colegas PSI, na psicoterapia científica com os alcoolistas. As estatísticas nos mostram que é enorme a reincidência 
do alcoolismo, as recaídas, quando os enfermos, são apenas assistidos pelos agentes oficiais de Psicoterapia. Pelo contrário, os membros de A.A. permanecem sóbrios e existencialmente bem, o que prova validade da Psicoterapia feita pela comunidade.
     Denomina-se Delirium Tremens ao episódio de confusão mental. Tremores finos de extremidades, febre, sudorese, alucinoses, e, eventualmente 
convulsões, que pode acometer o alcoolista crônico, após período de abstinência, após intoxicação etílica aguda conseqüente a qualquer 
enfermidade física grave (infecção aguda, traumatismo craniano, T.P etc.). É episódio temido e pode acarretar óbito. Recomenda-se internamento, com uso de hidratação endovenosa, relaxantes musculares, repouso e, caso haja  necessidade a taráxicos (tranqüilizantes maiores), sendo de boa política a 
vitamino terapia (B1, B6, B12 e C). Após a ocorrência deve-se alertar o enfermo para a possibilidade da crise convulsiva, que incide, em percentuais ainda não totalmente definidos em alcoolistas crônicos. Embriaguez Patológica é uma forma de alcoolismo incomum, que acomete 
determinadas pessoas, principalmente após T.C.E. e doenças orgânicas graves, e que consiste em uma reação de furor inexplicável e inesperada, com doses 
de álcool relativamente pequenas, alguns autores acreditam ser esta enfermidade um equivalente epiléptico.

"Cada dia que passa temos a certeza maior que a comunidade dos Aas precisa ser mais conhecida, mais divulgada e melhor compreendida por todos os 
membros da sociedade."

Dipsomania é a irresistível compulsão ao álcool, que acomete um indivíduo em períodos cíclicos - nesta fase a pessoa pode beber vários dias seguidos até 
chegar à exaustão física e adormecer. Ao acordar volta a viver normalmente, após certo período de tempo, volta a beber até o presente momento, apenas 
sintomática. Autores há que relacionam à P.M.D. ou à Epilepsia. O alcoolismo crônico evolui, (se não houver tratamento adequado, sendo necessário mais uma vez enaltecer o trabalho dos A.A. na manutenção do alcoolista sóbrio), para os déficits orgânicos e mentais, que são os seguintes:
     a) Korsakoff Alcoólico - desorientação amnésia, polineurite, amnésia de fixação e fabulação. De difícil e sombrio prognóstico é praticamente irreversível e de terapêutica apenas paliativa.
     b) Paranóia Alcoólica - Ciúme mórbido e injustificação, sem motivação aparente. Perigosa e imprevisível síndrome que pode causar morte da (o) companheiro (a).
     Feitas as descrições sumárias dos quadros mais comuns do alcoolismo devemos nos deter em algumas considerações que acreditamos de real valor 
para os que trabalham ou convivem com alcoolistas. Em primeiro lugar devemos pautar nossa conduta pelo respeito ao paciente, reconhecimento do problema, 
conscientização das melhores saídas para combatê-lo, e finalmente pela urgente e cada dia mais necessária elucidação da comunidade do que seja 
alcoolismo e como pode/deve se comportar a sociedade com seus membros alcoolistas. Cada dia que passa temos a certeza maior que a comunidade dos Aas precisa ser mais conhecida, mais divulgada e melhor compreendida por todos os membros da sociedade, e principalmente por nós da área da saúde mental. Inexplicavelmente os técnicos PSI têm dado pouco valor ao trabalho dos Aas. Nossa colocação frente ao problema é que toda qualquer terapêutica usada no alcoolista apenas terá efeito real se atingir o enfermo. Ao persistirmos na certeza "científica" que nossa psicoterapia é a única, teremos logo cedo o dissabor de uma derrota, que nos faz ver da necessidade atual de usarmos, no alcoolismo e outras patologias, de todos os comunitários como suporte no tratamento dos mesmos.
     A atividade nossa não pode mais se abstrair das outras atividades do grupo social. Precisamos, e nisso incluímos todos nós, rever, repensar, analisar o nosso modelo formas da Psicoterapia, em especial as Psicoterapias leigas, informais, que tanto valor atual possui.

"Parabenizamos os membros de A.A. pela psicoterapia da mão no ombro, do olho no olho, da camaradagem, do companheirismo: a psicoterapia fraterna".

Parabenizamos os membros de A.A. fortes, coesos, irmãos, pelo trabalho diuturno e incansável, no questionar de seus problemas, no resolver de suas questões, na análise conjunta de suas vidas, que nos acordam para uma velha/nova fórmula de fazer psicoterapia, pelo afeto, pelos laços fraternos; 
a psicoterapia da mão no ombro, do olho no olho, da camaradagem, do companheirismo - A Psicoterapia fraterna. Alcoolismo, entidade clínica, para 
os Aas converte-se em alcoólicos, personalizando, individualizando e compreendendo o homem. Talvez resida ai o sucesso da comunidade - a união, 
tratando pessoas com o mesmo problema. Problema que poderá ser discutido abertamente numa sociedade mais humana. Ajudemos o alcoolista a viver. 
Tomemos como base o aforismo de A.A. "Eu sou responsável. Quando qualquer um, seja onde for, estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão de A.A. 
esteja sempre ali. E para isso - Eu sou responsável". Que esta responsabilidade com alcoólicos seja de todos os comunitários, é nossa mensagem.

Vivência nº 105 - Jan./Fev./2007. 
Aspectos: Clínicos, Terapêuticos, Culturais e Sociais       Dr. Gustavo Navarro de Oliveira Médico Psiquiatra João Pessoa /PB
            Dr. Pedro Cardoso Filho Médico Alcoologista João Pessoa /PB

Definir o alcoolismo é tarefa difícil, em virtude das inúmeras tentativas e divergências entre os estudiosos. Melhor seria seguir a conceituação de Jellinek, que assim reza: Alcoolismo é qualquer ingestão de bebida alcoólica que prejudica o indivíduo e ou, a sociedade; simples palavras que sintetizam toda a gravidade da Doença Alcoolismo que engloba realmente o enfermo e a comunidade que ele vive.Várias formas da doença existem, configurando as diversas máscaras de um monstro, que na atualidade, incide em um percentual altíssimo, na população, sem discriminações de sexo, cor, e com maior predomínio na idade produtiva.
Gostaríamos de formar uma posição com respeito aos "bebedores de fim de semana". Há um número cada dia maior de pessoas que lotam os bares a partir da sexta-feira à noite, entregues ao hábito da embriaguez, adiando por completo todas as suas atividades de lazer junta a seus filhos e companheiro (a), e inexplicável ânsia de "resolver todos os problemas existenciais", sufocando as "mágoas na mesa de um bar", como diz um samba antigo. Embora possa parecer puritanismo de nossa parte devemos afirmar que esta atividade compulsiva ao álcool deve ser considerada Alcoolismo, e não como se afirma levianamente beber socialmente. Beber socialmente, no nosso entender, não envolve necessidade compulsiva ao ato de beber, como no exemplo acima citado. Há pessoas, nisso concordamos, que bebem socialmente, mas não é este o caso. Tentemos esclarecer algumas formas do alcoolismo, sem ser nossa pretensão esgotar os tipos clínicos nem tão pouco generalizar perigosamente, vendo em qualquer pessoa um alcoolista alcoólico em potencial.
     É necessário afirmar, baseado em literatura especializada, e em nossa experiência clínica, que há uma forte predisposição individual ao alcoolismo em termos outros: alguns bebedores tornam-se Alcoólicos, outros não. É difícil atualmente precisar qual o fator ou a causa desta inclinação de determinados indivíduos ou até algumas famílias. As pesquisas neste campo são obstaculadas pelo desinteresse oficial na erradicação, diminuição da doença, pela extraordinária força de grupos econômicos produtores de aperitivos e derivados do álcool que em alguns países fazem parte como um dos principais produtos de indústria nacional Vinho: (França, Itália, Portugal etc.); Uísque (Escócia); Vodka (Rússia e países do bloco 
Socialista); Cerveja (Alemanha) etc.

           "Aparece uma figura nova: a igualdade de posições.
           Ninguém dita ordens. Ninguém obedece. TodosVivenciam.
           Todos crescem. Todos trocam experiências".

Torna-se útil fazer algumas colocações, agora, acerca do comportamento da sociedade, em geral, e da família em particular, com referência ao alcoolista. A primeira e mais comum forma de reação do grupo familiar é a negação da enfermidade, como uma necessidade familiar de esconder o etilista, pois a sociedade, que estimula e aplaude o consumo do álcool condena o consumidor em excesso, taxando-o de "degenerado moral", de depravado, etc. Tendo em vista a conotação pejorativa que o grupo social faz do bebedor contumaz é compreensível a atitude familiar de negação da enfermidade. Todo o trabalho de psicoterapia em alcoolista deve ter como premissa a necessidade primária de conscientizar a família que o alcoolismo é doença e não degeneração moral. A experiência que os grupos de A.A. têm neste trabalho deve ser enfatizada e realçada, pois os frutos do contínuo e bom assessoramento familiar na elucidação e compreensão do alcoolismo é base para a recuperação e aceitação do alcoolista, no seio da pequena e da grande comunidade que ele faz parte (família e sociedade).
A Psicoterapia familiar é de extrema importância, sendo em nossa opinião, indispensável ao crescimento e descoberta existencial por parte do enfermo de novas formas de lidar com os velhos e sempre presentes problemas do nosso cotidiano, que nos pede, a cada dia que passa, um repensar de propósitos e ações, para que possamos viver com menos angústias. Gostaríamos de trazer à discussão algumas formas de alcoolismo. Denomina-se alcoolismo agudo a embriaguez eventual - sendo episódica e não repetida constantemente, deve ser compreendida e não censurada asperamente. 
Dizer compreendida, não significa dizer estimulada. Algumas vezes os pais, mais freqüentemente o pai, estimula, gratifica e parabeniza o filho homem pelo fato do rapaz embriagar-se, na realidade, é quase igualmente distribuído nos dois sexos.
     E o fato de embebedar-se nada tem a ver com ser ou não macho. É mais um tabu que, todos nós, que lidamos com alcoolistas, em principal, com familiares de alcoolistas, devemos destruir; tabu perigoso, pois estimula o alcoolismo masculino, oficializando-o como sinônimo de machismo e masculiniza a alcoolista do sexo feminino, estigmatizando-a ainda mais: pelo alcoolismo ser uma degeneração e por ser próprio e bom apenas para homens. Se o alcoolismo agudo é repetitivo, contínuo, deve ser motivo de preocupação e consulta médica. Não escondamos o óbvio. A vergonha e a piedade, no alcoolista, funcionam negativamente, pois perpetuam e adiam o reconhecimento de um problema de saúde pública. Devemos encarar de frente e de fronte erguida; há possibilidades de controle contínuo do alcoolista e há referências de dezenas de anos de sobriedade (não uso de bebida alcoólica) por milhares de alcoólicos que convivem na irmandade de A.A.
     Reflitamos acerca das colocações - Pensemos de olhos abertos o alcoolismo é problema de saúde pública. Nós os autores deste pequeno trabalho, estamos elaborando um projeto para implantação em nível municipal de um serviço ambulatorial dado os índices cada dia mais preocupantes da incidência e prevalência do Alcoolismo. Seria um serviço pioneiro, na Paraíba, para ajudar o alcoolista a não internar-se nestes verdadeiros cemitérios de vivos (asilos), que apenas cronificam a doença e marginalizam o homem enfermo.

"Os Aas conseguem ressuscitar a homem reintegrando-o à família e à sociedade. Querem saber a razão? São simultaneamente médico e paciente, terapeuta/cliente".

Alcoolismo crônico pode ser definido como o uso diário, a impossibilidade de passar um dia sem beber - dependência física e a impossibilidade ou dificuldade intensa de parar de beber, uma vez iniciado o ritual 
(dependência psíquica). Nesta fase, o indivíduo ao acordar, sente a necessidade íntima de sorver o primeiro gole. Preocupa-se de uma forma extraordinária em ter estoques de bebidas. Pode passar dos fermentados (cervejas, vinhos etc.) para os destilados (Rum, Vodka, Uísque, Aguardente). 
E começa a derrota pessoal: relaxamento dos hábitos higiênicos, falta à repartição, esquecimento das obrigações familiares, enfim todo um cortejo de acontecimentos que eclode com a total desmoralização do indivíduo perante sua própria família e à sociedade. Nesta fase recomenda-se um tratamento desintoxicante (medicamentoso) com internamento em Hospitais Gerais ou serviços próprios para alcoólicos, infelizmente em número reduzido no nosso país e inexistentes no nosso estado. É necessário que a desintoxicação seja feita no menor espaço de tempo e que haja desde o início da mesma Psicoterapia, para que possamos usar desta arma no erguimento de um novo homem, existencialmente forte e apto, a enfrentar a vida sem o refúgio no alcoolismo. O médico, nesta hora, deve ser humilde e reconhecer que muito pouco tem feito a Psiquiatria, a Psicologia e a Psicanálise na ajuda efetiva, real do enfermo portador de alcoolismo, na aceitação de seu problema e na resolução do mesmo, em nível profundo e prático. O reconhecimento por parte dos Técnicos Psi da necessidade de ajuda de outras pessoas/entidades, que colaborem na efetiva melhoria/conscientização do alcoolista de sua condição clínica, esbarra numa dificuldade inicial: a onipotência médica. Se fizermos uma análise fria e desapaixonada temos que nos render a evidência: os grupos A.A. tem feito um trabalho magnífico nos enfermos etilistas - conseguem resultados maravilhosos com sua psicoterapia leiga, mas não menos importante que a nossa psicoterapia dita científica, que melhor seria dizer oficial.Os Aas conseguem ressuscitar o homem reintegrando-o à família e à sociedade. Querem saber a razão? São simultaneamente médico e paciente, terapeuta/cliente. A Psicoterapia feita pela comunidade A.A. é grupal e ao mesmo tempo individual. Todos são na mesma ocasião, os que estão sendo tratados e os que estão medicando, aconselhando. Há uma total integração dos indivíduos, que apresentam problemática comum, de um agente único. Aparece uma figura nova: a igualdade de posições.

"Os membros de A.A. permanecem sóbrios e existencialmente bem, o que prova a validade da psicoterapia feita pela comunidade".

Ninguém dita ordens. Ninguém obedece. Todos vivenciam. Todos crescem. Todos trocam experiências.
     Na psicoterapia médica há uma desigualdade de posições - nós, de uma forma geral e infelizmente, damos as coordenadas e orientamos o doente, como 
se pudesse ser nossa vida, nossa realidade aceita na sua integra para o doente, esquecendo-nos do principal: o enfermo deve ser respeitado, tem seus próprios valores, suas convicções, suas aspirações e suas vivências pessoais. Todo processo psicoterápico deve acatar/escolher seu próprio caminho, que, verdadeiramente, deve/pode ser diametralmente oposto ao nosso. Em palavras simples: Psicoterapia deve permitir o crescimento pessoal, deve mostrar perspectivas existenciais, apontar caminhos, jamais dar soluções ou projetos prontos. O homem, plenamente consciente deve escolher seu destino existencial. Por isso, os Alcoólicos Anônimos conseguem o que nós médicos geralmente não conseguimos: a adesão do paciente ao processo psicoterápico. 
É impossível fazer-se Psicoterapia sem a participação voluntária do cliente.
     Voltemos ao alcoolismo crônico. Após a desintoxicação deve o enfermo ser acompanhado, se possível pelos Aas., graças a Deus, para não se afastarem da assistência psicológica e moral que a comunidade dos Aas oferece, gratuitamente, fraternalmente.
     Não acreditamos, nos perdoem os colegas PSI, na psicoterapia científica com os alcoolistas. As estatísticas nos mostram que é enorme a reincidência do alcoolismo, as recaídas, quando os enfermos, são apenas assistidos pelos agentes oficiais de Psicoterapia. Pelo contrário, os membros de A.A. 
permanecem sóbrios e existencialmente bem, o que prova validade da Psicoterapia feita pela comunidade.
     Denomina-se Delirium Tremens ao episódio de confusão mental. Tremores finos de extremidades, febre, sudorese, alucinoses, e, eventualmente convulsões, que pode acometer o alcoolista crônico, após período de abstinência, após intoxicação etílica aguda conseqüente a qualquer enfermidade física grave (infecção aguda, traumatismo craniano, T.P etc.). É episódio temido e pode acarretar óbito. Recomenda-se internamento, com uso de hidratação endovenosa, relaxantes musculares, repouso e, caso haja necessidade a taráxicos (tranqüilizantes maiores), sendo de boa política a vitamino terapia (B1, B6, B12 e C). Após a ocorrência deve-se alertar o enfermo para a possibilidade da crise convulsiva, que incide, em percentuais ainda não totalmente definidos em alcoolistas crônicos.
Embriaguez Patológica é uma forma de alcoolismo incomum, que acomete determinadas pessoas, principalmente após T.C.E. e doenças orgânicas graves, e que consiste em uma reação de furor inexplicável e inesperada, com doses de álcool relativamente pequenas, alguns autores acreditam ser esta enfermidade um equivalente epiléptico.

"Cada dia que passa temos a certeza maior que a comunidade dos Aas precisa ser mais conhecida, mais divulgada e melhor compreendida por todos os membros da sociedade."

Dipsomania é a irresistível compulsão ao álcool, que acomete um indivíduo em períodos cíclicos - nesta fase a pessoa pode beber vários dias seguidos até chegar à exaustão física e adormecer. Ao acordar volta a viver normalmente, 
após certo período de tempo, volta a beber até o presente momento, apenas sintomática. Autores há que relacionam à P.M.D. ou à Epilepsia.
O alcoolismo crônico evolui, (se não houver tratamento adequado, sendo necessário mais uma vez enaltecer o trabalho dos A.A. na manutenção do alcoolista sóbrio), para os déficits orgânicos e mentais, que são os seguintes:
     a) Korsakoff Alcoólico - desorientação amnésia, polineurite, amnésia de Ffixação e fabulação. De difícil e sombrio prognóstico é praticamente   irreversível e de terapêutica apenas paliativa.
     b) Paranóia Alcoólica - Ciúme mórbido e injustificação, sem motivação aparente. Perigosa e imprevisível síndrome que pode causar morte da (o) companheiro (a).

     Feitas as descrições sumárias dos quadros mais comuns do alcoolismo devemos nos deter em algumas considerações que acreditamos de real valor para os que trabalham ou convivem com alcoolistas. Em primeiro lugar devemos pautar nossa conduta pelo respeito ao paciente, reconhecimento do problema, conscientização das melhores saídas para combatê-lo, e finalmente pela urgente e cada dia mais necessária elucidação da comunidade do que seja 
alcoolismo e como pode/deve se comportar a sociedade com seus membros alcoolistas. Cada dia que passa temos a certeza maior que a comunidade dos Aas precisa ser mais conhecida, mais divulgada e melhor compreendida por todos os membros da sociedade, e principalmente por nós da área da saúde mental. Inexplicavelmente os técnicos PSI têm dado pouco valor ao trabalho dos Aas. Nossa colocação frente ao problema é que toda qualquer terapêutica 
usada no alcoolista apenas terá efeito real se atingir o enfermo. Ao persistirmos na certeza "científica" que nossa psicoterapia é a única, teremos logo cedo o dissabor de uma derrota, que nos faz ver da necessidade atual de usarmos, no alcoolismo e outras patologias, de todos os comunitários como suporte no tratamento dos mesmos.
     A atividade nossa não pode mais se abstrair das outras atividades do grupo social. Precisamos, e nisso incluímos todos nós, rever, repensar, analisar o nosso modelo formas da Psicoterapia, em especial as Psicoterapias leigas, informais, que tanto valor atual possui.

"Parabenizamos os membros de A.A. pela psicoterapia da mão no ombro, do olho no olho, da camaradagem, do companheirismo: a psicoterapia fraterna".

Parabenizamos os membros de A.A. fortes, coesos, irmãos, pelo trabalho diuturno e incansável, no questionar de seus problemas, no resolver de suas questões, na análise conjunta de suas vidas, que nos acordam para uma velha/nova fórmula de fazer psicoterapia, pelo afeto, pelos laços fraternos; 
a psicoterapia da mão no ombro, do olho no olho, da camaradagem, do companheirismo - A Psicoterapia fraterna. Alcoolismo, entidade clínica, para 
os Aas converte-se em alcoólicos, personalizando, individualizando e compreendendo o homem. Talvez resida ai o sucesso da comunidade - a união, 
tratando pessoas com o mesmo problema. Problema que poderá ser discutido abertamente numa sociedade mais humana. Ajudemos o alcoolista a viver. 
Tomemos como base o aforismo de A.A. "Eu sou responsável. Quando qualquer um, seja onde for, estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão de A.A.  esteja sempre ali. E para isso - Eu sou responsável". Que esta responsabilidade com alcoólicos seja de todos os comunitários, é nossa mensagem.

Vivência nº 105 - Jan./Fev./2007. 

 
A.A. em duas palavras:Humildade e Responsabilidade.
(Na Opinião de Bill pag. 271)