Artigos - Alcoolismo e Depressão

Dr. Gilberto da Silva Nunes  -  Médico Psiquiatra – Amigo de A.A
 
É relativamente comum ouvirmos membros de A.A. em cabeceiras de mesa relatar a ocorrência de “recaídas secas” e outros comentários correlatos dos quais podemos deduzir a presença de alterações do estado de humor ou no mínimo períodos de mau humor, apesar do longo tempo de sobriedade.
 
Atribui-se geralmente ao alcoolismo a causa desses e de outros transtornos e sintomas, mesmo na ausência das compulsões  alcoólicas. Nesses casos a doença “Depressão” pode estar associada ao alcoolismo.

As formas como Alcoolismo e Depressão interagem são formas de expressão e disposição temporal.
 
Podemos imaginar num primeiro modelo o uso crônico e abusivo de bebidas alcoólicas causando perdas materiais, afetivas, sociais, intoxicações, síndromes de abstinência e conseqüente desencadeamento de um quadro depressivo. Nesse caso o alcoolismo seria a doença primária e a depressão a secundária. Numa hipótese oposta teríamos uma pessoa deprimida que iria buscar na bebida um alivia para seus sintomas como ansiedade, tristeza, insônia ou timidez e com o tempo terminaria desenvolvendo a dependência do álcool.
 
Por outro lado, considerando-se que a hereditariedade exerce importante papel no desencadeamento das doenças Alcoolismo e Depressão e que a manifestação inicial de uma delas não impede o aparecimento simultâneo ou posterior da outra, temos que admitir a possibilidade da manifestação paralela de ambas.     
 
Imaginando agora que eventualmente uma “recaída seca” não signifique necessariamente o reaparecimento de compulsões e sim de alterações do humor (provavelmente depressão), outra forma de interação entre Alcoolismo e Depressão fica caracterizada que seria o curso independente de ambas, ou seja, poderíamos ter um indivíduo portador de ambas às doenças ora recaído na bebida sem apresentar sintomas da depressão e ora deprimido sem apresentar recaída na bebida.
 
Assim justifico a opção por este tema para atentar aos companheiros de A.A. que apesar de a detenção da “Doença Alcoolismo” ser o maior passo no autocontrole da vida e aí está o verdadeiro milagre de Alcoólicos Anônimos, que comprovadamente recupera mais do que qualquer outra forma de tratamento; a crença de que o alcoolismo é sozinho responsável por todos os males passados, presentes e futuros em alguns casos não é bem verdadeira. Nesses casos o tratamento medicamentoso é indispensável
 
Vale lembrar que a morbidade entre alcoolismo e depressão aumenta muito a incidência de suicídio, justificando a importância da atenção diagnóstica e terapêutica.

(Vivência nº105 – Janeiro/Fevereiro/2007)