Artigos - Alcoolismo e o desempenho sexual > RV.084

"A associação entre álcool e sexo deixa marcas profundas no subconsciente do alcoólico."

 Na sociedade em que vivemos, o sexo não é completamente livre. Ele está limitado por uma série de censuras éticas, morais e sociais que fazem com freqüência o desejo não se concretizar como ato sexual, ficando apenas na vontade.

 Ocorre que essas censuras são anestesiadas pelo álcool etílico e é por isso que muita gente associa o exercício de sua sexualidade com a ingestão de bebidas alcoólicas.

 Se isso é válido para quase todo mundo, é muito mais ainda para o alcoólico que tem todo um passado ligado a um freqüente e intensivo consumo de bebida, sem falar no fato de que o álcool desencadeia nele uma fantasia de grandiosidade, na qual ele se julga atraente, quase irresistível e certamente o melhor amante do mundo.

 Freqüentemente, um alcoólico não consegue nem se lembrar de ter tido sexo sem antes ter bebido álcool. Essa associação, válida por muitos anos, acaba profundamente marcada em seu subconsciente.

 Por outro lado, a ingestão crônica de grandes quantidades de álcool por períodos prolongados de tempo, agride diretamente as glândulas sexuais, provocando uma atrofia; o álcool pode até aumentar o desejo, mas termina prejudicando o desempenho.

 Homens alcoólicos, em fase avançada da doença, diminuem progressivamente sua potência, perdem pêlos, às vezes apresentam até crescimento mais ou menos acentuado das mamas.

 Mulheres alcoólicas podem perder suas características sexuais secundárias femininas, atrofiam suas mamas, vêm suas menstruações diminuídas ou ausentes, tornam-se estéreis.

 No fim da doença alcoólica fica freqüentemente difícil distinguir, ao primeiro olhar, quem é homem, quem é mulher.

 Por felicidade, esse comprometimento das glândulas sexuais (testículos e ovários) não costuma ser definitivo, podendo o alcoólico voltar à sua normalidade apenas parando de beber. Só que isso não acontece da noite para o dia, a agressão geralmente foi muito prolongada e durou muitos anos.

 A observação clínica mostra que o prazo de recuperação é variável, mas costuma oscilar entre 3 e 6 meses de abstinência.

 Reconheço que o problema é de difícil aceitação para o doente. Ao parar de beber, o alcoólico, pela primeira vez lúcido depois de muito tempo, descobre estar impotente e se desespera.

 Três a seis meses é muito tempo para quem deseja soluções rápidas. Todo o seu subconsciente associa sexo com álcool, faz parte de toda sua vida sexual. Existe uma vozinha compulsiva dentro dele dizendo que ele vai conseguir se antes tomar uns goles.

 Tudo isso, mais a insegurança, os medos, o orgulho ferido, a revolta existentes neste período inicial de abstinência, levam com freqüência a uma recaída. É claro que voltar a beber não soluciona coisa alguma, só agrava o problema cada vez mais, mas não falta quem venda na rua todo tipo de garrafadas, vinhos e tônicos (sempre contendo álcool), que falsamente prometem uma recuperação da potência. É importante que o alcoólico seja alertado contra esse canto de sereia, senão certamente irá recair.

 A única possibilidade de recuperação física exige um período de abstinência um pouco mais prolongado, e há que se ter a necessária paciência para esperar por ela.

 É claro que pode haver mais algum outro fator influindo, diabetes ou lesão vascular, por exemplo, cujos tratamentos dependem de uma ida ao médico e de tratamento apropriado.

 O alcoólico que está nessa situação não deve deixar de fazer um bom exame geral, para ver se não há outras doenças associadas.

 Sexo, porém, não é só uma atividade física. Há todo um clima amoroso envolvido, uma sedução preliminar que é da maior importância. Existem alcoólicos que nunca tiveram relações em toda sua vida, sem antes de beber, desde sua adolescência. Agora, homens maduros, vêem-se diante da perspectiva de fazê-lo sem álcool, como se fosse a primeira vez, como se tivessem que aprender como é que se faz para namorar. Mesmo quando o alcoólico conseguiu manter uma relação estável, os laços afetivos costumam estar severamente atingidos. Por exemplo: uma mulher não-alcoólica que vê seu companheiro chegar à noite bêbado, sujo, cheirando mal em casa, vomitando e depois desmaiando na cama, tem todos os motivos para não gostar de fazer sexo com ele e sentir até repugnância física. De repente esse alcoólico diz para ela não estar bebendo mais, que está se recuperando, digamos, dentro de uma sala de Alcoólicos Anônimos.

 Provavelmente ela já ouviu muitas vezes juras e promessas não cumpridas, tendo todo o direito de estar descrente de que dessa vez é pra valer, podendo ainda estar adoecida de raiva e ressentimentos, criando-se um clima absolutamente impróprio para qualquer relação amorosa.

 Também aí, só o tempo pode ajudar, à medida que a recuperação se torne mais consistente.

 Em resumo: a sexualidade está prejudicada no alcoolismo por comprometimentos físicos, psíquicos e espirituais, e só uma recuperação nessas três áreas, aliada ao fator tempo, pode levar novamente à normalidade.

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Dr. Alberto Duringer - Médico
Ex-Diretor do Hospital Central da Polícia Militar
Conselheiro no Conselho Estadual de Entorpecentes.


( RV.084 - Julho/Agosto 2003)