DP - Alguns dias parecem ter bem mais que vinte e quatro horas

Alguns dias parecem ter bem mais que vinte e quatro horas

Tranqüilidade. Foi o que senti ao despertar. Era domingo, estava tudo bem; não temia pensar no sábado que passara. Que bom, ontem não bebi nada, nenhuma gota sequer – pensei. A lembrança daquela gente do grupo veio à tona. No dia anterior participara, pela primeira vez, de uma reunião de A.A. Recordei também a expressão de alívio de meus pais, quando lhes mostrei os folhetos que recebera no final da reunião.
O dia, mais que os outros, começou novo e diferente. Afinal, havia exatamente uma semana que, pela manhã, não conseguia erguer-me do chão de meu quarto. Estava tão bêbado quanto nos outros finais de semana dos últimos três anos, aliás, havia cerca de nove anos que aquelas ressacas faziam parte de minhas manhãs. Havia uma semana que eu não bebia… Sete dias, quem diria! Levantei-me. Disposto, tomei um banho. O domingo em casa é tradicional. Todos acordam mais tarde, por isso, sozinho, tomei o café. Realmente estava tudo bem, até que uma pequena dúvida foi surgindo lentamente, como aquela dor de dente que vem de mansinho e subitamente rouba a paz junto com todos os outros pensamentos. Dez da manhã. “O que vou fazer hoje?”, perguntei-me. “Caramba, não ‘quero’ (devo) sair de casa”, me dei conta. Que domingão… O tempo passava e estabelecia-se, a cada minuto, a angústia, a ansiedade, a indecisão e o medo.
Todos já estavam de pé. Como era difícil ficar em casa com a família e sem beber… Eu sentia que estava “sozinho”. Apesar de todos, faltava algo. No final de semana anterior eu havia ultrapassado todos os limites. Após aquela minha última bebedeira, tive que dar um tempo e fazer uma avaliação geral das perdas e ganhos. Não foi difícil perceber que muita coisa estava errada. Mas, por ter procurado Alcoólicos Anônimos no dia anterior, por algum motivo achei que isso tivesse livrado a minha cara em casa. Por isso tanta indecisão naquela manhã. Não percebi, mas a velha rotina ia instalando-se novamente: bebia muito, fazia besteiras; em seguida fazia promessas, jurava; depois forçava uma parada e não bebia (ultimamente por um dia ou algumas horas) e, por fim, quase sem perceber, bebia e fazia besteiras… Tudo novamente. Era o que acontecia.
Logo nas minhas primeiras vinte e quatro horas, meu íntimo de bebum racionalizava magistralmente dizendo a mim mesmo: “Todos os seus problemas acabaram, você mostrou à sua famí¬lia que podia ficar uma semana inteira sem beber e que tinha se humilhado bastante procurando ajuda em A.A. Agora você terá carta branca em casa por algum tempo. Que tal uma cervejinha com os amigos?” Sintam isso. Essa era minha dor: saber que apesar de estar abstêmio, o primeiro trago rondava implacável feito justiceiro do sertão, sedento por sua vítima. Tive sorte, não saí¬. Comi um pouco e após o almoço veio um sono bom. Dormi e ao acordar fiquei pensando sobre se voltaria ao grupo de A.A. Algo em mim falava bem alto: “Qual nada! Você não precisa voltar. Você já conheceu uma reunião, já sabe como funciona. Está tudo bem, sua barra já está limpa”. O Grupo teria reunião às quatro da tarde, eram duas horas e senti novamente a angústia, mas agora era diferente. O medo já não era de beber, e sim de voltar ao grupo. Fiquei deitado pensando na reunião. Lembrava-me de alguns rostos, de algumas histórias. Pensar na frase “alcoolismo é doença incurável” era terrível, doía muito. No fundo eu ainda achava que podia beber sem ter problemas.
Era junho, mas o sol estava lá fora. Olhei pela janela, senti medo de perder a vida agitada que levara até ali. Quantas festas, quantas tardes e noites ainda estavam por vir. Como seria todo o seco? Hoje sei que, às vezes, a realidade é dura, mas naquele dia era difícil aceitar isso. Sabe, quase tudo o que senti naquele domingo foi medo e vontade de beber.
Era como ter que optar, naquele momento, entre beber e não beber. Difícil, não é? Voltar ao grupo era difícil. Significaria abaixar as armas e render-me e eu nunca havia me rendido antes. A insegurança era tamanha que decidi sair. Daria uma volta. As três horas da tarde saí¬ sem destino. Andei pensando sobre ter que freqüentar reuniões periodicamente, com a palavra “incurável” ecoando em minha mente.
A tarde já não era tão ensolarada. Nas ruas tudo parecia tristeza cinza e eu andava com o temor que só o medo traz. Decidi ir ao centro. “Vou a uma reunião, ou não”, questionei. Eu todo, dos pés até a cabeça era indecisão em pessoa andando indecisa. Passei por duas vielas, por algumas ruas, andei por uma avenida, atravessei um bairro residencial e, por fim, estava no centro da cidade.
Domingo à tarde poucos bares ficam abertos. Passei por um, por dois e pensei seriamente em acabar com tudo aquilo. Eu tinha algum dinheiro; era só entrar, pedir uma bebida e continuar na roda viva, na ciranda dos “des”prazeres. Mas, sem haver planejado, parei na porta do grupo. Por dois ou três segundos um argumento invadiu-me os espaços vazios. Foi como um relâmpago. Percebi que se não voltasse, depois eu diria que Alcoólicos Anônimos não funcionava, que eu já havia experimentado sem êxito e o medo novamente chegou.
Naquele momento ganhei um grande presente de mim mesmo: uma chance – era tudo o que eu precisava. A indecisão decidiu-se. Entrei. Ao subir as escadas, a falência tomou conta de mim: “É, eu preciso disso, senão morro sozinho na escuridão” murmurou aos meus ouvidos.
Entrei na sala, havia novos rostos. Pude sentir-me dentro de mim. Havia preenchido um lugar vazio que há muito me inundara. Enfim, eu estava de volta, novamente.
Só por hoje, continuo voltando.

Vivência nº 44 Nov/dez 96