DP - Alquimia misteriosa

" Francamente, Bill, eu não entendo o alcoolismo. Procure o A.A."
Essas foram as palavras do meu psicoterapeuta, irritado com quem me consultava há vários anos em uma tentativa fútil de parar de beber. Estava tão infeliz que era uma luta terrível até conseguir comparecer à consulta semanal. A única coisa que eu sabia sobre A.A. era que se falava muito sobre Deus. Mesmo se um dia tivesse acreditado em um Deus, isso se tornaria irrelevante com minha formação científica. Eu já não acreditava em um Deus pessoal. Mas o que tinha a perder? Eu estava desesperado. Para garantir, meu terapeuta combinou com um membro de A.A. de me levar para a minha primeira e=reunião. Quando entrei na sala de reuniões, meu companheiro explicou que A.A. é um programa espiritual e não um programa religioso. N entanto, olhei o cartaz com os Doze passos, e notei que metade deles continha determinada palavras em letra maiúscula. Quando a reunião terminou com o Pai Nosso , certamente um exercício religioso, pensei, minha ansiedade se transformou em desespero. Sentindo isso, meu companheiro disse que eu poderia substituir o Poder Superior pelo grupo. Aquelas palavras me deram esperanças de que houvesse uma saída para minha angústia. Então fui a reuniões, ouvi as pessoas, e li toda a literatura. Mas achei que no livro Os Doze Passos e as Doze Tradições há a forte implicação de que o grupo como Poder Superior é apenas uma solução temporária, que com o tempo o recém-chegado deve adotar algo acima e além do grupo. Tinha a certeza de que estava cruzando a barreira da religião. Hoje após dez anos de A.A., mantenho minha opinião, e não acredito em Deus pessoal. Nas reuniões encerradas com o Pai Nosso fico em silêncio. Estremeço quando ouço as palavras " ... que provavelmente nenhum poder humano poderia ter aliviado o nosso alcoolismo...". Para mim, hoje, é justamente a força humana que me mantém sóbrio. Esse poder vem em parte de todos os meus amigos em A.A. – certamente um poder maior do que eu. Ás vezes eu digo nas reuniões: " Não bebo porque vocês não querem que eu beba" O grupo é o meu único Poder Superior? Não, tem algo mais, por ter encontrado algo "superior e transcendental". Longe de der uma divindade ilusória, este "algo" vive dentro de mim. É um poder ao qual posso me entregar. Para um descrente como eu, é oferecido um sentido à oração e a meditação. Estranhamente, conheci essa coisa dentro de mim muito antes de vir para A.A. Vem de muitos anos na minha profissão como matemático. Descobri que toda vez que não consigo resolver um problema matemático o deixo para outro dia, finalmente a resposta virá. Surgirá de repente, mesmo quando não esteja pensando sobre o problema. Visões surgem enquanto me movimento, em pé no chuveiro, ou até mesmo quando estou ouvindo um monólogo interminável em alguma reunião de A.A.! Claro , você não precisa ser um cientista para entender o que falando. Todos nós temos revelações repentinas, súbitas. Após chegar a A.A. descobri que poderia "reverter" coisas como ressentimentos, autopiedade, decisões pessoais por meio dessa alquimia misteriosa. Hoje, pratico a meditação diariamente, é um momento de silêncio quando me abstraio de toda a comunicação verbal. Nessas ocasiões, as respostas aos meus problemas muitas vezes aparecem. É isso que meus amigos de A.A. chamariam de a vontade de Deus para mim? Ou estou me esquecendo de algo? Eu tenho pensado muito sobre essas questões. Em 1635, Sir Thomas Brown escreveu: " Trazemos dentro de nós as maravilhas que buscamos fora de nós". Acredito que há em cada um de nós uma força criadora, uma força para o bem, um gênio inato que é exclusivo para a espécie humana. Pessoas como São Francisco, Mozart, e Einstein são exemplos extremos de força criativa. Quando bebia eu era muito egocêntrico para ter consciência de tal poder. Hoje sei que ele está presente se eu estiver disposto a ouvir. Esse poder se encontra nas profundezas da mente humana e essa minha crença é um ato de fé, assim como meus amigos de A.A. possuem uma fé tradicional. Descrevi a minha própria versão da espiritualidade. Não discuto com aqueles que acreditam em Deus. Eu não faço proselitismo. Alguns podem pensar que minhas crenças são incompletas, apenas metade da equação. Outros podem dizer que o que encontrei não é diferente de uma crença em um Deus, que só a minha linguagem é diferente. Realmente não me importo. Estou confortável com isso, funciona para mim, e hoje tenho uma paz interir que nunca pensei que fosse possível. Sou grato a A.A. por forçar-me a encontrar o significado espiritual dos Passos. O ingrediente fundamental para a minha descoberta maravilhosa – o silêncio sem palavras. Pode ser que eu só tenha redescoberto o que o salmista sabia quando escreveu: 
" Aquietai e sabereis que eu sou Deus"

 – BillM. – Creston, Califórnia.