DP - Anonimato em A.A. > RV.160

O tema dessa edição da RV levou-me a uma viagem de volta aos primeiros dias, semanas, meses e anos da minha lenta, mas firme, recuperação do alcoolismo, que vem acontecendo em paralelo a um lento, mas firme, resgate da minha pessoa para uma vida útil e feliz em sociedade, mesmo nesse mundo talvez um pouco mais conturbado do que na época do surgimento e consolidação de Alcoólicos Anônimos.

Leio em nossa Décima Segunda Tradição que, hoje, em nossa Irmandade, uma vez superados os “nossos primeiros temores” relacionados ao estigma em torno do alcoolismo, “o anonimato é a verdadeira humildade em ação. Trata-se de uma qualidade espiritual na vida de A.A. envolvendo tudo, em todo lugar, hoje em dia. Movidos pelo espírito do anonimato, tentamos deixar de lado os nossos desejos naturais de ganhar distinções pessoais como membros de A.A., tanto entre os nossos companheiros como entre o público em geral” (pág. 170 do livro Os Doze Passos e as Doze Tradições).

Nos meus primeiros tempos em A.A., passei pelos mesmos temores: de que alguém “descobrisse” que eu era alcoólica e estava em A.A., e de que, “então”, eu fosse estigmatizada, discriminada, rejeitada ou prejudicada. E em algum momento posterior, cheguei aos questionamentos fundamentais da recuperação, que para mim relacionam-se mais diretamente aos três primeiros Passos. Esses questionamentos, que hoje me parecem óbvios, puderam, contudo, surgir em meu espírito no meu próprio tempo porque meu Grupo base foi respeitoso e terno para com o meu anonimato pessoal, permitindo que eu mesma chegasse às perguntas essenciais: quem, do meu círculo de relações, àquela altura da minha vida adulta, já não sabia que eu bebia demasiado, a ponto de me tornar multiplamente inadequada (para dizer o mínimo)? Que mal poderia decorrer de que meus familiares, amigos e demais conhecidos soubessem que eu estava frequentando uma Irmandade de mútua ajuda entre iguais, portadores da doença alcoolismo?

Assim, foi nesse estágio inicial da minha recuperação que o “manto protetor” do anonimato em A.A. deixou germinar, no calor de uma intimidade compartilhada sob respeitosa confidencialidade, o meu processo pessoal de rendição, fé e entrega, e depois autoconhecimento (inventariado e compartilhado), automodificações, reparações, espiritualidade, retribuição e utilidade.

Tenho de mencionar também, que nada disso pôde acontecer para mim antes de eu poder olhar honestamente (e de algum modo enfrentar e modificar) o meu egocentrismo, a baixa autoestima camuflada com muita arrogância, a inveja ancorada em quilos de autopiedade, a luxúria e a gula cercadas de autojustificação, as sofridas consequências emocionais e práticas decorrentes desse colar de espinhos atravessando o meu caráter e o meu (mau) funcionamento diário. E todas essas indigestas condições pessoais também puderam ser vistas e trabalhadas sob o manto protetor, acolhedor e não julgador do anonimato em A.A..

Mas, à medida que fui progredindo no meu novo modo de vida necessariamente coletivo no Grupo-base, nas lides dificultosas e trabalhosas do serviço ativo, então o “espírito do anonimato” foi muito além da função de “manto protetor” e chegou a se tornar “alicerce espiritual”, de onde vou tirando a sustentação necessária para a manutenção diária desse modo de vida.

Desde então, pude expandir esse alicerce do anonimato – enquanto um espírito de discrição pessoal e de respeito à intimidade do outro – para todas as áreas da minha vida: enquanto continuo resgatando os laços com pais, cônjuge e demais familiares; enquanto vim e venho reinventando a minha vida profissional, cultural e social com estudos, com novas atividades e novos vínculos, mais e mais ricos, saudáveis, significativos e prazerosos. 

Já faz bastante tempo, então, que minhas maiores preocupações relacionadas ao anonimato em A.A. não estão mais relacionadas à minha pessoa. Só por hoje, estou em paz profunda com minha condição de mulher alcoólica em recuperação e não temo que qualquer pessoa nesse mundo, minha conhecida ou não, venha a saber de qualquer aspecto da minha condição pessoal, passada ou presente, relacionada ao meu alcoolismo ou ao meu pertencimento a Alcoólicos Anônimos. 

Meus maiores cuidados, hoje, estão relacionados, em primeiro lugar, a respeitar o anonimato pessoal de meus companheiros e companheiras, com especial atenção aos recém-chegados, que, muitas vezes, estão passando pelos mesmos velhos temores que tantos de nós já passamos. Mas também busco cooperar ativamente para a manutenção dos 100% de anonimato pessoal da totalidade de nossos membros junto ao público em geral, tendo em vista um crescimento harmonioso de Alcoólicos Anônimos.

Entendo que a frase antes citada, quando afirma ser o anonimato “hoje em dia”, em A.A., uma qualidade espiritual “envolvendo tudo, em todo lugar”, pressupõe e pede que estejamos muito atentos às nossas relações com o público em geral. Atentos a como conduzimos as nossas atividades externas (no bairro, nas mídias, junto às instituições e autoridades com quem cooperamos, etc.), mas também a como conduzimos as atividades que deveriam ser apenas internas (reuniões de serviços em todos os níveis da estrutura de A.A., circulação de documentos, comunicações entre servidores, etc.).

Afinal, estamos hoje definitivamente cercados por redes sociais, aplicativos e por uma circulação estonteante de dados que, em segundos, mudam de formato: um texto se torna imagem, uma imagem se torna mensagem, uma mensagem se torna informação, uma informação circula sem qualquer possibilidade de controle sobre suas trajetórias posteriores em meios privados e públicos. 

É por isso que gostaria de finalizar, compartilhando a última frase da “forma integral” da nossa Décima Segunda Tradição, ao comentar a necessidade de colocarmos “os princípios acima das personalidades” e de “conduzir-nos com genuína humildade”: “Isto para que as nossas grandes bênçãos jamais nos corrompam...”.

G.J. São Paulo/ SP


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