Artigos - Antídoto contra o medo: A prudência , a confiança e a Fé - BILL W.

Esta Conferência foi aberta reforçando-se os temas de prudência, da confiança e da fé, e estas foram as atitudes que caracterizaram todas as sessões e debates. Nesta reunião, portanto, a confiança abundou entre nós e nos livramos de quase toda a inquietação e medo. Para dizer a verdade todos se desenvolveram com tanta tranquilidade que nos sentimos um pouco aborrecidos e “ os pontos de vistas alarmistas dos que estavam preocupados com o bem da Irmandade.”. Não obstante, conhecemos a emoção; uma emoção saudável de outro gênero ou espécie. Por exemplo, me sentia gratamente emocionado ao ver o esmero, a disciplina e a dedicação com as quais esta assembleia, durante longos dias, realizou vários trabalhos rotineiros, porém muito necessários. Alegro-me muito ao ouvir os senhores, os delegados, render repetidos agradecimentos às pessoas de suas áreas – às centenas de membros do comitê e aos milhares de representantes de serviços gerais, cujos esforços unificados foram, e  sempre deverão serem, a base fundamental sobre a qual com certeza descansa nossa estrutura de serviços mundiais, e todos os nossos trabalhos. A direção dos serviços de A.A. de acordo com os senhores, não é assunto unicamente dos delegados e dos custódios; tem que ser uma responsabilidade de grande totalidade dos membros – e já o é. Além do mais, foram gratas as notícias que nos chegaram de todas as partes de nossa Irmandade, que indicam que a confiança que temos em nossos serviços mundiais, assim como em nossos servidores, vai crescendo; e que o medo de antigamente quase desapareceu. Estes são alguns motivos que temos para sentir-nos emocionados nesta extraordinária Conferência de 1959. Está ainda fresca a minha memória a gargalhada de um dos delegados ao levantar-se em uma das seções e dizer-me: “ Bill , a noite em que cheguei aqui, todos escutamos teu pequeno e convincente sermão a respeito da confiança e da fé. Bem, agora o que me responderias se te dissesse que em nosso canto do pais, tínhamos um companheiro encarregado de servir de tesoureiro de uma  reunião  bem grande e importante; que assim que as entradas foram vendidas e o dinheiro foi depositado em nossa conta bancária, o referido companheiro encontrava-se com uma sede insaciável, retirou do banco e bateu asas numa viajem de mil milhas através do pais”. Todos lembramos como os delegados sorriram enquanto ele falava e como, ao terminar, nós rompemos em risos. Houve uma época, faz anos, em que esse tesoureiro defraudador poderia haver minado nossa confiança. Pois lembro muito bem a primeira vez que isso aconteceu. Lembro também o assombro e consternação que me causou quando um de meus amigos mais íntimos começou a me atacar sem piedade, porque não gostava da minha maneira de atuar na Fundação Alcoólica. Lembro das primeiras rupturas do anonimato ante o público, e todos os temores e violentas controvérsias que se introduziram. Tais eram os alarmes dos primeiros anos der A.A. Tínhamos medo de não conseguir nos manter sóbrios; tínhamos medo de que nosso Grupo não pudesse sobreviver, tínhamos medo de que o A.A. fosse por água abaixo. Mas os tempos mudaram. O que antes nos fazia morrer de medo, agora nos faz morrer de rir – por exemplo, a história do tesoureiro viajante. Creio que neste relato encontramos algumas coisas muito boas. Consideremos: em nosso riso não havia nem uma pitada de desprezo ou ira. Não havia a menor ideia de impor castigos; e duvido que tenha havido entre nós algum que tivesse pensado em chama-lo de ladrão. Neste riso havia uma compreensão compassiva, um reconhecimento de que qualquer um entre nós continua sem do capaz de uma boa loucura parecida. Por tê-lo compreendido tão bem, certamente, nos deu vontade de rir ao pensar o quanto ficariam estupefatos os nossos companheiros, organizadores da convenção. Ao receber a notícia e ver que se encontrava sem um centavo; mas creio que nosso riso tinha significado muito mais profundo. Estou seguro de que, na realidade, riamos de nós mesmos, e de nossos velhos e exagerados temores. Nos alegrávamos de que houvessem desaparecido. Havia-se desvanecido o espanto e o temor do prejuízo que poderiam causar os erros e o comportamento de um só companheiro, assim como velho conceito de que as pressões e os conflitos do mundo ao nosso redor poderiam invadir e destruir o A.A. algum dia. Creio que ríamos porque nos sentíamos liberados de todo o medo, e livres. Havíamos deixado de duvidar de nossa segurança coletiva. Estas reflexões  me leva a outra ideia, e outro motivo de consolação. Parece ser verdade que, enquanto que em quase todas as nações e sociedades o comportamento coletivo com frequência tem sido pior que o comportamento individual de seus membros. Por exemplo, , no mundo de hoje, podem ser contados aqueles que anseiam entrar na guerra. Não obstante, muitos países atribuem as conquistas aos conflitos armados. Os  países homenageados pela honradez individual de seus cidadãos falsificam seus livros de contabilidade, provocam a inflação do seu dinheiro, sobrecarregam a população com dívidas que nunca poderão pagar, e fazem todo o tipo de propaganda fraudulenta. Inclusive as grandes religiões, como organizações, em total desacordo com os seus ensinamentos, comportam-se com e intolerância que a maioria de seus adeptos não pode imaginar, nem sonhar imitar em suas vidas particulares. A massa, faz todo tipo de coisa que o indivíduo que a compõem raramente as fariam sozinhos e por motivos próprios. Embora não nos corresponda fazer um inventário moral do mundo com algum sentimento de orgulho ou de superioridade, creio que é justo e oportuno fazer notar que os AAs, até esta data, têm manifestado um comportamento coletivo que talvez seja superior a nossa conduta individual. Em nosso caso, parece que o todo é algo melhor que a soma das partes. Somos mais uma turma de gente agressiva e sedenta de poder. Não obstante, A.A. como um todo, nunca repreendeu a ninguém. Como indivíduos, gostamos de dinheiro, porém mantemos pobres as tesourarias da nossa Irmandade. Gostamos do prestígio, porém de uma ou outra forma, nos mantemos anônimos. Como indivíduos, somos propensos a ser agressivos; porém nossa Irmandade não é agressiva e  não se envolve em assuntos alheios. Em poucas palavras, formamos um contraste inusitado com o mundo que nos rodeia, e esperamos fervorosamente assim continuar. Nesta época perigosa, teremos uma constante necessidade desse tipo de prudência coletiva. Mais do que tudo, esta prudência garantirá nossa eficácia, nossa segurança e nossa sobrevivência. Nossa prudência coletiva com relação ao dinheiro, a fama e as controvérsias – deriva certamente das nossas Doze Tradições – prosseguir ganhando uma infinidade de amizades para A.A. e, de igual importância, não nos fez nenhum inimigo. Que este processo benigno, dentro e fora de nossa Irmandade, nunca chegue ao fim. Como esta magnífica Conferência nos ensinou, a ausência do medo deu lugar á sabedoria e á prudência; a prudência nos conduziu a fé e á confiança – confiança em nossos semelhantes, confiança em nós mesmos, e confiança no amor de Deus. BILL W. – Novembro de 1959.