DP - Aos empregadores

Quase todo o empregador sente responsabilidade pelo bem-estar do seu pessoal e tenta assumir essa responsabilidade

Uma vez fui assistente de direção num departamento de uma empresa que empregava seis mil e seiscentos homens. Um dia a minha secretária veio dizer-me que o Sr. B. insistia em falar comigo. Disse-lhe para responder que não estava interessado em falar com ele. Tinha-o prevenido várias vezes que só lhe restava mais uma oportunidade. Pouco tempo depois, tinha-me telefonado dois dias seguidos tão bêbado que mal conseguia falar. Eu disse-lhe que era o fim de uma vez por todas.

A minha secretária voltou de novo para me dizer que não era o Sr. B. que estava ao telefone, era o irmão do Sr. B. que me queria dar um recado. Eu ainda estava à espera de um pedido de clemência, mas o que ouvi ao telefone foram estas palavras: “Só lhe queria dizer que Paul se atirou da janela de um hotel no sábado passado. Deixou-nos um bilhete a dizer que o senhor era o melhor chefe que ele jamais teve e que não havia a menor culpa a atribuir-lhe.”

Uma outra vez, ao abrir uma carta que estava em cima da minha secretária, caiu um recorte de jornal. Era a notícia de óbito de um dos melhores vendedores que eu tivera ao meu serviço. Depois de duas semanas a beber, disparou com o dedo do pé o gatilho de uma espingarda carregada, cujo cano tinha posto na boca. Seis semanas antes tinha-o despedido por causa da bebida.

Eu não compreendia o alcoolismo como o compreendo agora. Que ironia - eu próprio me tornei alcoólico! E se não fosse pela intervenção de uma pessoa compreensiva, eu poderia ter seguido o mesmo caminho. 

Praticamente todo o empregador moderno sente responsabilidade moral pelo bem-estar do seu pessoal e tenta assumir essa responsabilidade. Que nem sempre tenha tomado esta atitude em relação ao alcoólico, é facilmente compreensível. Para ele, o alcoólico sempre lhe pareceu um perfeito idiota. Dada a particular competência do empregado ou a sua forte ligação de amizade pessoal com ele, o empregador tem por vezes mantido esse homem no seu lugar de trabalho mais tempo do que é razoável. Alguns empregadores tentaram todas as soluções possíveis. Só em poucos casos houve falta de paciência e de tolerância. E nós, que abusamos dos melhores empregadores, mal podemos criticá-los por terem sido impacientes conosco.

Se você quiser ajudar, será preferível não utilizar como critério o seu próprio consumo de bebida ou a sua abstinência. Quer você seja um bebedor excessivo, um bebedor moderado ou não toque em álcool, terá provavelmente opiniões já formadas e mesmo preconceitos a este respeito. Os que bebem moderadamente ficarão talvez mais incomodados perante um alcoólico do que ficará uma pessoa totalmente abstêmia. Quem bebe ocasionalmente e compreende as suas próprias reações, é natural que adquira segurança em relação a certas coisas, o que não é o caso do alcoólico. Como bebedor moderado, pode beber ou não beber. Basta querer, e é-lhe possível controlar a sua maneira de beber. Numa noitada, pode exceder o seu consumo habitual e apanhar uma ligeira bebedeira, mas levanta-se na manhã seguinte, abana a cabeça e vai trabalhar. Para essa pessoa, o álcool não é realmente um problema e não consegue perceber que o possa ser para os outros, a não ser que sejam fracos e estúpidos.

 Quando se lida com um alcoólico, é natural que se sinta irritação perante uma pessoa que parece ser tão fraca, imbecil e irresponsável. Mesmo quando se compreende melhor a doença, é provável que surja este sentimento.

Observar o alcoólico na sua empresa é frequentemente muito elucidativo. Não é ele em regra geral brilhante, de espírito vivo, imaginativo e agradável? Quando está sóbrio, não trabalha afincadamente e não possui uma aptidão para cumprir com eficiência as suas obrigações? Se tivesse estas qualidades e não bebesse, não valeria a pena conservá-lo? Não terá ele direito à mesma consideração que os outros empregados doentes? Será que vale a pena recuperá-lo? 

Você consegue abstrair-se do sentimento de que está simplesmente a lidar com um hábito, uma teimosia ou uma vontade fraca? Se for esta a dificuldade, valerá a pena reler o segundo e terceiro capítulos, que descrevem detalhadamente a doença alcoólica. Como homem de negócios, tem de saber o que é preciso, antes de avaliar os resultados. Se admitir que o seu empregado está doente, pode perdoá-lo pelo que ele fez no passado? Pode esquecer as coisas incríveis que ele fez? Pode levar em consideração que ele foi vítima de um pensamento distorcido, diretamente causado pela ação do álcool no cérebro?

Ao ver o esforço para compreender e ajudar, alguns tentarão aproveitar-se da sua bondade. Se tem a certeza de que o seu empregado não quer deixar de beber, o melhor é despedi-lo e, quanto mais depressa, melhor. Mantendo-o no emprego não lhe está a fazer favor nenhum. Despedi-lo, pode vir a ser uma bênção para ele. Pode ser justamente o empurrão de que ele precisa. Eu sei que no meu próprio caso, nada do que a minha empresa pudesse ter feito por mim me teria levado a deixar de beber porque, na medida em que eu conservasse o meu lugar, não poderia de maneira nenhuma perceber a gravidade da minha situação. Se me tivessem despedido logo de início e dado os passos necessários para que me fosse proposta a solução apontada neste livro, teria possivelmente voltado para o meu trabalho como um homem restabelecido ao fim de seis meses.

Há porém muitos homens que querem parar e, com estes, pode-se ir muito longe. O tratamento adequado destes casos poderá trazer dividendos.

Talvez esteja a pensar num empregado deste genero. Ele quer deixar de beber e você quer ajudá-lo, mesmo que seja apenas por ser um bom negócio para a sua empresa. Agora você já tem um melhor conhecimento sobre alcoolismo. Pode aperceber-se de que ele está mental e fisicamente doente, e você está disposto a passar por cima do seu comportamento passado. Imagine uma abordagem nestes termos:

Diga-lhe que tem conhecimento de que ele bebe e que tem de parar. Pode dizer-lhe que aprecia as suas capacidades, que gostaria de o conservar, mas que isso não é possível se ele continuar a beber. Uma atitude firme nestas circunstâncias tem ajudado muitos de nós.

Se ele procurar ganhar tempo e pensar que ainda pode voltar a beber, nem que seja só cerveja, o melhor é despedi-lo depois da próxima bebedeira, que se seguirá quase com certeza se ele for alcoólico. É preciso fazê-lo compreender isto claramente. Você está ou não a tratar com um homem que pode e quer ficar bem. Se não está, para quê perder tempo com ele? Isto pode parecer muito duro, mas geralmente é o melhor procedimento.

Se o seu empregado aceitar a sua proposta, deverá fazer-lhe ver que o tratamento físico é apenas uma parte do quadro. Embora lhe proporcione os melhores cuidados médicos possíveis, ele precisa de compreender que tem de mudar de atitude. Para superar a bebida é necessário uma transformação de pensamentos e atitudes. Todos nós tivemos de pôr a nossa recuperação acima de tudo, porque sem a recuperação teríamos perdido tanto a casa como o emprego.

Esperamos que o médico diga ao paciente a verdade sobre a sua condição qualquer que ela seja. 

Tudo se resume no seguinte: não se deve despedir um empregado por ser alcoólico. Se ele quiser parar, deve dar-lhe uma verdadeira oportunidade. Se ele não conseguir ou não quiser deixar de beber, deve ser despedido. As exceções são raras.