Artigos - As fases do alcoolismo

AS FASES DO ALCOOLISMO

(Publicado na Revista "EL MENSAJE" de novembro de 1973)

Faz alguns anos que a Organização Mundial da Saúde publicou uma série de trabalhos científicos dedicados ao alcoolismo.

Um desses trabalhos, de autoria do professor Jellinek, dos Estados Unidos, estudando mais de duas mil histórias clínicas de alcoólicos, estabeleceu as seguintes fases do alcoolismo.

Primeira fase.

Primeiros sinais.

1. O bebedor habitual em perigo tem bebedeiras de quando em vez, das quais só desperta com recordação parcial do que ocorreu nesse tempo.

2. Bebe as escondidas. Sinal de má consciência. Esconde a garrafa no armário do banheiro ou no de roupa. Em uma reunião ou festa, bebe alguns copos sem que os outros vejam, para que não pensem mal dele.

3. Pensa ininterruptamente no álcool.

Sair do trabalho é uma ocasião para beber. Entrar no trabalho, também. Antes de comer, o aperitivo; depois de comer, uma taça. Pela tarde, um barzinho. Pela manhã, tem que beber para ajustar-se ao tom. Há sempre uma razão. Sempre pensa no álcool.

4. Bebe ansiosamente e bebe de uma só vez os primeiros copos.

5. Tem constantemente consciência de culpabilidade. Tem a sensação de estar fazendo algo mal, porém não pode deixar de fazê-lo.

6. Evita falar sobre o álcool. Crê que as pessoas se referem sempre ás suas bebedeiras. Não se lhe pode falar nada. Se mostra suscetível e preocupado com o que pensem a seu respeito.

7. Desperta de seus excessos com lacunas de memória, cada vez mais freqüentes e extensas. Não sabe onde e quanto tempo esteve na pândega na noite anterior.


Segunda fase.

Período crítico.


O costume se converte cada vez mais em tendência irresistível.

8. Perde o controle sobre si mesmo quando bebeu uma certa quantidade. Não pode parar. Basta, às vezes, uma quantidade mínima para desencadear uma bebedeira que dura vários dias.

9. O enfermo começa a inventar dezenas de explicações que objetivam se autojustificar e aos demais porque bebe. "Muito trabalho — desgostos". "Para se dar força" "Tem que beber em seus negócios com os amigos".

10. Recusa conselhos bem intencionados. "Eu mesmo sei melhor do que ninguém quando tenho que parar de beber'.

11. Dá uma de macho, através de muitas e fortes palavras. Para dissimular sua real insegurança. Fanfarreia.

12. Inicia-se o comportamento agressivo e colérico contra aqueles que o rodeiam, começando, em geral, pela família, pela mulher. Assim, pouco a pouco, se afasta e se isola da sociedade. Face sua agressividade, procura calar sua consciência.

13. De vez em quando, mostra um comportamento totalmente oposto. Chora, perde perdão por suas grosserias com grandes e teatrais gestos. A estas cenas, seguem períodos mais ou menos longos de total abstinência, obedecendo à pressão social da família e amigos.

14. Faz sempre desesperados esforços para viver durante semanas ou meses sem botar uma gota de álcool na boca. Ao cabo deste tempo, fracassa. Neste sentido rechaça, todavia, toda ajuda externa.

15. Para tentar controlar a bebida, muda o sistema de beber. Promete a si mesmo beber somente às tardes ou aos sábados. Raramente consegue ater-se às suas próprias regras.

16. Aparta de seus amigos. Não quer que controlem o seu comportamento.

17. Perde seu emprego porque o abandona ou porque o despedem.

18. Planeja toda sua conduta em torno do álcool. Busca, por exemplo, trabalhos breves, que lhe dêem dinheiro suficiente para poder beber.

19. Perde o interesse e cuidado com suas roupas, higiene, etc.

20. O alcoólico interpreta todas as relações interpessoais a seu modo e em proveito próprio. Abusa das amizades, da família, etc. para que o ajudem a conseguir bebida, sem que ele esteja disposto a corresponder com fidelidade ou ajuda.

21. Tem a si mesmo como digno de compaixão. Sua bebida, pensa, é conseqüência de intrigas ou maquinações das pessoas.

22. Viaja ou vaga a pé sem rumo. Embriaga-se e aparece em qualquer lugar. Não sabe onde está e tem que ser levado para casa pela polícia ou amigos.

23. Começa a desintegração familiar. Já não faz caso de sua família.

24. Põe-se de mal humor sem motivo. Quer atribuir aos outros as suas faltas.

25. Toma precauções para dispor sempre de bebida.

26. Come pouco e mal. Sobretudo, abandona as coisas que mais contêm vitaminas, como, por exemplo, verduras e frutas.

27. Como conseqüência desta falta de vitaminas e falsa nutrição enferma facilmente. A causa da enfermidade é atribuída a desgostos, aos "gases" no local de trabalho, etc. Sua verdadeira enfermidade pode, durante muito tempo, não ser reconhecida pelos médicos.

28. Sua potência sexual é reduzida ou desaparece totalmente.

29. Reage à sua impotência com o chamado delírio alcoólico de ciúmes, responsabilizando e atormentando a sua mulher por infidelidade.

30. Bebe regularmente pela manhã. Com freqüência, seu único desjejum são suas bebidas. Não tem apetite.

Terceira fase.

Período crônico.


31. O doente passa dias inteiros bêbado.

32. Seu sentido moral desaparece. Perde o sentido da vergonha e do ridículo. Não distingue o bem do mal. Podem aparecer desvios criminosos ou delitos comuns.

33. A inteligência e o pensamento se tornam mais lentos e com numerosas deficiências.

34. Aparecem os primeiros sintomas, no princípio por certo tempo, de enfermidade mental. Ouve vozes, tem alucinações, pesadelos e medos infundados pela noite.

35. Bebe com qualquer um que dele se aproxime, começando o descenso de categoria social.

36. No caso de não dispor de outra coisa, bebe álcool de queimar, colônia ou loção de barba.

37. Digestões difíceis. Tudo lhe senta mal. Vômitos de bílis pela manhã. O fígado começa a falhar.

38. O alcoólico padece de crise de angústia ao longo de toda à noite.

39. Seus movimentos, sobretudo das mãos, são inseguros e trêmulos.

40. Determinados movimentos não podem ser realizados por aparecer paralisia em determinados nervos.

41. O alcoólico está possuído por sua ânsia de beber. E só uma sombra de sua personalidade anterior.

42. Já não tem, nem intenta, nos explicar seus atos. Já não pode opor-se àqueles que tentam ajudá-lo.


Ultima fase.

A derrota.


Dr. Agustín Jimeno Valdes

Chefe do Serviço de Reabilitação do Hospital Psiquiátrico de Navarra

Tradução: Edson H.