DP - As chaves da recuperação

Bem apadrinhado, o autor sente-se preparado para apresentar o programa aos recém-chegados
Trago em meu bolso um molho de chaves: chaves grandes, pequenas. Chaves de meu quarto. De meu armário, de meu carro...  Muitas chaves. Tanto para abrir como para fechar. Elas têm duas tarefas: abrem e fecham  portas. E meu molho de chaves aumenta a cada dia: uma hoje, outra amanhã. E elas são insubstituíveis. Cada qual tem seu papel, sua porta, seu lugar.

Fui bem apadrinhado em AA. Meu padrinho apresentou a literatura e eu fiquei fascinado com a riqueza do conteúdo dela. O Terceiro Passo fala de chaves, “a prática do Terceiro Passo é como abrir uma porta que até então parecia estar fechada à chave. Tudo de que precisamos é a chave e a decisão de abrir a porta. Existe apenas uma chave, e se chama boa vontade. Uma vez usada a chave da boa vontade, a porta se abre quase que sozinha.” 

Meu padrinho disse mais: “Companheiro, você pode ser uma chave para o Terceiro Legado. Existe um A.A. riquíssimo fora dessas quatro paredes. O Grupo é onde tudo começa, mas é apenas a ponta do iceberg. Existem portas trancadas. E você pode ser uma das chaves de que a Irmandade de Alcoólicos Anônimos precisa.” Quando cheguei me disseram que eu era a pessoa mais importante, senti-me acolhido e entrei em recuperação dessa doença fatal. Agora me apadrinharam para o Serviço de forma  sutil e gratificante. Sugeriu ainda a mim que bastava um começo, mesmo que fosse tímido. Uma vez que introduzimos a chave da boa vontade na fechadura e entreabrimos a porta, maravilhas acontecem na nossa vida. 

Esse apadrinhamento foi de suma importância para minha programação.  Pude perceber, desde minha chegada em A.A., que existem companheiros que, por falta de apadrinhamento, são ainda portas fechadas pelas decepções e angústias do alcoolismo. Tento ser hoje aquela chave nas mãos do Poder Superior, pronta para abrir os portões de lares desfeitos pelo álcool. Desejo que muita gente encontre portões abertos para os abraços, para encontros de companheiros em Ciclos de Estudos, Debates, Reuniões de Distritos, Reuniões de Área, Grupos de Estudos e, por fim, na XIX Convenção Nacional em 2016 em Maceió (AL).

O 12º Passo diz: “O prazer de viver é o tema deste Passo, e a ação sua palavra-chave”.  Foi como se eu recebesse um molho de chaves. Uma para abrir as portas da paz. Outra para abrir os portões da amizade sincera. Uma chave forte e resistente para fechar as portas do mal. Mais outra chave dourada para abrir as portas da confiança, da unidade.  Uma para trancar as portas da desconfiança e da incerteza. Quero compartilhar muitas chaves com os recém-chegados para que eles abram as portas da sua recuperação tal como venho abrindo as da minha própria. Trata-se do nosso Décimo Segundo Passo: “Livremente receberam e livremente dão”.  

Revista Vivência 150