DP - As duas fases da sobriedade

As duas fases da sobriedade >RV 023
 
Meu padrinho morreu depois de uma recaída, aos 44 anos de idade e quatro de sobriedade, quando eu estava há dois anos no A. A. Alguns meses depois, um parente próximo também perdeu a sobriedade de aproximadamente sete anos em A. A., embora não tenham sido de sucesso total. Estas duas experiências negativas, de pessoas muito próximas de mim, levaram-me a questionar minhas oportunidades de permanecer no programa.
Quando estava com um ano e meio de sobriedade, tive sérias dúvidas sobre minhas possibilidades de continuar nesta caminhada.
Nos vários anos que se seguiram à minha experiência em A. A., devotei-me muito a pensar nos recaídos e naqueles que tinham dificuldade para manter a sobriedade. Procurei descobrir as motivações de seus problemas não somente para ajudá-los mas, sobretudo, para que o mesmo não acontecesse comigo.
Pouco depois, relacionei-me com alguns membros de A. A. que, com cinco, dez ou quinze anos de sobriedade, tinham recaído desastradamente. Alguns se recuperaram mas outros se perderam completamente. Isto me levou a um estudo mais aprofundado desse maravilhoso programa de Alcoólicos Anônimos.
Comecei a notar a existência de duas fases distintas em nossa jornada para a sobriedade.
É indiscutível: as duas fases têm inúmeras subfases. Na minha humilde opinião, os alcoólicos que continuam a ter ou meter-se em dificuldades após vários anos de programa – diga-se, muitos anos livres do álcool – são, geralmente, aqueles que não conseguiram passar da primeira para a segunda fase.
A primeira fase começa com a admissão de sermos impotentes perante o álcool e de que perdemos o domínio sobre nossa vida.
Esta admissão, sendo verdadeira, torna o restante do programa "obrigatório" . A esta altura, todavia, os demais Passos parecem não ter qualquer relação com o nosso problema de bebida e muitos saltam do Primeiro para o Décimo Segundo Passo, onde começamos a pôr em ação certos sentimentos adquiridos quando tivemos a coragem de admitir nosso problema.
Cedo começamos a nos libertar da compulsão pela bebida, provavelmente porque o Décimo Segundo Passo nos põe frente a frente com alcoólicos sofredores que nos relembram o passado. Isto nos manterá sóbrios por enquanto. É o estágio chamado lua-de-mel, empolgação ou das nuvens cor-de-rosa. Se começamos a olhar para os outros Passos, fazemo-lo rapidamente, não nos conscientizando da importância de cada um. É muito provável que o orgulho em geral e o orgulho de estar sóbrio em particular crie barreiras à penetração no programa com mais profundidade. Se não entrarmos na segunda fase neste ponto, começamos a perder o interesse pelas reuniões e a nos envolver excessivamente com nossos próprios negócios.
A segunda fase é necessária para uma sobriedade alegre e duradoura. Nesta fase, devemos trabalhar com mais seriedade aqueles Passos trabalhados levemente. Ainda estamos aflitos com ressentimentos não revolvidos e, muitas vezes, cheios de autopiedade.
"Pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e a porta vos será aberta".
Quando começamos a fazer isto e a rever os Doze Passos em profundidade, percebemos haver muito mais nestes Passos do que jamais sonháramos. Mesmo sendo agnóstico, quando cheguei ao A. A., agora penso ser o Terceiro Passo o centro do meu programa e os Passos restantes raios partindo do núcleo para a periferia. Entregando minha vontade e minha vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebo, é fácil de dizer mas difícil de fazer. É muito fácil para a personalidade alcoólica assumir o comando de sua própria vida e, então, naufragar.. Somente através da tentativa confirmada de praticar inteiramente este programa estou apto para fazer progressos no Terceiro Passo, o qual me leva à segunda fase.
         Possivelmente não há limite do aprofundamento de cada um nesta fase. Como seres humanos, somos todos imperfeitos. Necessitamos trabalhar constantemente a fim de obter a paz e a serenidade, nossas companheiras no caminho da sobriedade. Medos, frustrações, raivas, ressentimentos: permitir que estes sentimentos nos façam apreensivos ou inquietos são indicadores da falta de progresso. Com a ajuda de Deus e de meus companheiros de A. A., espero ter o privilégio de permanecer neste programa pelo resto de meus dias. Algum dia, num futuro distante, talvez esteja em condições de me aproximar da realização completa do Terceiro Passo.
 
(fonte: Grapevine. Reimpresso com permissão)

Revista Vivência n° 23 JAN/FEV/MAR 1993


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