Artigos - Às esposas

Atualmente tentamos aplicar princípios espirituais em todos os aspectos das nossas vidas.

Salvo raras exceções, até este capítulo o nosso livro só tem tratado de homens. Mas o que foi dito aplica-se de igual modo às mulheres. A nossa atividade em benefício das mulheres que bebem vem aumentando. Tudo indica que as mulheres recuperam a saúde tão depressa como os homens, se puserem em prática as nossas sugestões.

Mas, por cada homem que bebe, há outras pessoas envolvidas: a mulher que treme de medo com a próxima bebedeira, a mãe e o pai que vêem o filho consumir-se.

Como esposas de Alcoólicos Anônimos, gostaríamos que sentissem que nós as compreendemos como talvez poucos são capazes. Queremos deixá-las com o sentimento de que nenhuma situação é difícil demais  e nenhuma infelicidade é tão grande que não possa ser superada.

O desejo de que os nossos maridos levantassem a cabeça e fossem como os outros homens têm dado origem a uma série de situações desagradáveis.

Muitas noites, as nossas casas transformavam-se em campos de batalha. Na manhã seguinte lá vinham os beijos e fazíamos as pazes. Os nossos amigos aconselhavam-nos a abandonar os nossos maridos, o que fazíamos com determinação, só para voltarmos daí a pouco tempo com esperança, sempre com esperança. Os nossos maridos faziam juras solenes que deixariam definitivamente de beber. Acreditávamos neles quando ninguém mais podia ou queria acreditar. Depois, em dias, semanas ou meses, acontecia um novo desastre.

Quase não podíamos ter compromissos sociais e chegamos a viver praticamente sós. Quando éramos convidadas, os nossos maridos tomavam tantas bebidas às escondidas que estragavam tudo. Por outro lado, se não bebessem nada, a sua autopiedade tornava-os desmancha prazeres.

Nunca havia estabilidade financeira. Os empregos estavam sempre em perigo ou perdidos.

Às vezes havia outras mulheres. Como era dolorosa esta descoberta; que cruel que era ter de ouvir que elas compreendiam os nossos maridos como nós não éramos capazes!

Tentamos manter vivo o amor dos nossos filhos para com o pai. Dissemos aos filhos pequenos que o pai estava doente, o que se aproximava muito mais da verdade do que supúnhamos. Em desespero, acabávamos nós próprias por nos embebedar: a bebedeira que poria fim a todas as bebedeiras. O resultado inesperado era que isto parecia agradar aos nossos maridos.

É natural que nestas circunstâncias cometemos erros, alguns deles devido à ignorância sobre alcoolismo. Talvez tivéssemos tido um comportamento diferente, se tivéssemos compreendido inteiramente a natureza da doença do alcoolismo.

 Tente não condenar o seu marido alcoólico por mais que ele diga ou faça. Ele é simplesmente uma pessoa muito doente e muito pouco razoável. Se puder, trate-o como se ele tivesse uma pneumonia. Quando a fizer ficar zangada, lembre-se de que ele está muito doente.

É preciso fazer uma exceção importante ao que aqui foi dito. Temos consciência de que alguns homens são profundamente mal intencionados, que por mais paciência que se tenha, nada se altera. Um alcoólico deste gênero pode servir-se rapidamente deste capítulo como uma arma contra si. Não deixe que isso aconteça. Se tem a certeza de que ele é desse tipo, o melhor é ir-se embora.

Se o seu marido bebe, é natural que você se sinta preocupada com o que as outras pessoas pensam e detesta se encontrar com os seus amigos. Isola-se cada vez mais e pensa que todos falam sobre o que se passa em sua casa.

Achamos que grande parte desta vergonha é desnecessária. Embora não precise falar em detalhes sobre o seu marido, pode descrever discretamente aos seus amigos a natureza da doença que ele tem. Mas deve ter cuidado para não magoar ou constranger seu marido. As barreiras criadas entre você e os seus amigos irão desaparecer à medida que aumentar uma compreensão solidária. Deixará de se sentir envergonhada ou forçada a desculpar-se como se o seu marido fosse um fraco.

O mesmo princípio aplica-se à sua atitude para com os filhos. É preferível não tomar partido nas discussões que eles têm quando ele está a beber, a não ser que seja realmente necessário protegê-los do pai. Empregue a sua energia para melhorar o entendimento entre todos. Verá então abrandar a terrível tensão que se apodera de todos os lares de um bebedor-problema.

Você tem-se sentido muitas vezes obrigada a dizer ao patrão e aos amigos do seu marido que ele estava doente, quando na realidade estava era bêbado. Evite ao máximo responder a estas perguntas. Sempre que possível, deixe que seja o seu marido a dar as explicações.

É natural que receie que o seu marido perca o emprego e pense na desgraça e dificuldades que isso acarreta para si e para os seus filhos. Isto pode acontecer ou talvez já tenha ocorrido várias vezes. Se isso voltar a acontecer, encare por uma perspectiva diferente. Talvez seja uma bênção! Isso pode convencer o seu marido a querer realmente deixar de beber. Agora já sabe que ele pode parar se ele quiser! Vezes sem conta, esta calamidade aparente tornou-se para nós num benefício porque abriu um caminho que levou à descoberta de Deus.

Ao princípio, algumas de nós não acreditávamos na necessidade desta ajuda. Pensávamos, em geral, que éramos boas pessoas capazes de ser melhores se os nossos maridos parassem de beber. Mas era uma ideia tonta pensar que éramos boas demais para não precisarmos de Deus. Atualmente tentamos aplicar princípios espirituais em todos os aspectos das nossas vidas.
Se encontrar uma solução em conjunto com o seu marido para o problema urgente da bebida, ficará naturalmente muito contente. Mas nem todos os problemas se resolverão de imediato. A semente começou a germinar num novo solo, mas o crescimento apenas se iniciou. Muitos dos antigos problemas ainda a irão acompanhar, e é natural que assim seja.

A fé e a sinceridade de ambos serão postas à prova. Estes testes devem ser considerados como parte da sua educação porque estará assim aprendendo a viver. Cometerá erros mas, se a sua atitude for sincera, não deixará que eles a abatam. Em vez disso, irá capitalizá-los. Quando estes erros forem superados você verá surgir um modo de vida melhor.

O seu marido sabe que lhe deve mais do que a sobriedade. Ele quer redimir-se. Contudo não deve esperar demasiado. A sua maneira de pensar e atuar são hábitos de anos. Paciência, tolerância, compreensão e amor são os lemas. Manifeste estas qualidades em si mesma e elas serão devolvidas por ele. Viva e deixe viver é a regra.

Provavelmente a verdade é que você e o seu marido têm estado a viver demasiado sós, porque a bebida muitas vezes isola a mulher de um alcoólico. Por isso, é possível que você, tal como ele, precisem de novos interesses e de uma grande razão para viver. Se colaborar em vez de se queixar, verá que o excesso de entusiasmo dele acabará por abrandar. Ambos despertarão para um novo sentido de responsabilidade para com os outros. Deste modo terão uma vida mais preenchida. Perderão a vida antiga para encontrar uma muito melhor.

Talvez o seu marido tenha tido um bom começo nesta nova base mas, precisamente quando tudo corria às mil maravilhas, ele desilude-a, chegando a casa bêbado. Se acredita que ele quer realmente deixar de beber, não precisa ficar alarmada. Embora fosse infinitamente preferível que ele nunca tivesse uma recaída, como acontece com muitos dos nossos membros, em alguns casos, não é de modo nenhum uma má experiência. O seu marido verá logo que tem de redobrar a sua atividade espiritual se espera sobreviver. Anime-o e pergunte-lhe como pode ajudá-lo ainda mais.

O menor sinal de medo ou de intolerância pode diminuir a probabilidade de recuperação do seu marido.

Nós não tentamos jamais organizar a vida de um homem de modo a protegê-lo da tentação. Faça-o sentir-se completamente livre para ir e vir como lhe apetece. Isto é importante. Se ele se embebedar não se culpe. Se quiser prevenir uma repetição, coloque o problema, assim como tudo mais, nas mãos de Deus.

Reconhecemos que demos orientação e conselhos em excesso. Pode parecer que fizemos um sermão. Se assim for, pedimos desculpa porque nós próprias não gostamos de pessoas que nos façam sermões. Mas o que descrevemos baseia-se na nossa experiência, por vezes dolorosa. Tivemos de aprender isto à nossa própria custa e de uma maneira muito dura. É por isso que queremos muito ajudá-la a compreender e evitar estas dificuldades desnecessárias.

Assim, para todas aquelas que ainda estão de fora e que em breve poderão juntar-se a nós, dizemos “Boa sorte e que Deus vos abençoe!”