Artigos - Basta o Desejo e nada mais - 3ª tradição



“Alcoólicos Anônimos não fecha a porta a ninguém que se apresente a nós com o problema alcoólico.”
O fato de Alcoólicos Anônimos não fazer qualquer exigência para que um alcoólico se torne membro representa para muitos a diferença entre a vida e a morteA cultura do A.A. brasileiro, no entanto impõe uma série de exigências que ao longo de décadas, acabaram por se transformar em costumes muito enraizados, difíceis de serem banidos do dia-a-dia de nossos grupos, sem atentar para esse detalhe tão significativo.
Paralelamente a essa grave dificuldade de nos adaptar ao comportamento mundial da Irmandade assistimos o desenrolar de um movimento que teve ainda na década de 80 e chegado ao início dos anos 90 com o nome de “O Grupo: - Mudança na Matriz”, tema da Conferência de Serviços Gerais de 1992 – Brasília/DF. Tamanha era a consciência da necessidade de uma radical mudança no nosso proceder para com os recém-chegados, que aquela Conferência aprovou, por unanimidade, uma recomendação sugerindo a 
“NÂO FORMALIZAÇÃO DE INGRESSO NAS REUNIÕES DE A.A.”.
Tal sugestão foi recebida com muita alegria pelos que sempre lutaram a favor da aplicação dos nossos princípios tradicionais, 
mas o mesmo não ocorreu com aqueles que insistiam e ainda hoje insistem na defesa do antigo costume nacional, de fazer a solene entrega de fichas de ingresso ou por tempo de abstinênciaApós tantos anos de luta para conscientizar os servidores responsáveis por tal violação direta da TRADIÇÃO TRÊS de A.A. seria o caso até mesmo de se desistir de tocar neste assunto inusitadamente tido como delicado e polêmico.
Não deveria ser assim, uma vez que nossas vidas dependem exclusivamente da nossa disposição em aderir aos princípios básicos de nossa recuperação. Se nos afastamos demais diz a experiência “o castigo é certo e rápido; nós adoecemos e morremos”.
Não é necessária uma pesquisa muito acurada em nossos textos para se concluir que Alcoólicos Anônimos não fecha a porta a ninguém que se apresente a nós com o problema alcoólico. 
Tem ela total liberdade, ou pelo menos deveria ter, para permanecer em nosso meio o tempo que quiser, mesmo sem admitir prontamente o seu problema e muito menos que deseja fazer parte do Grupo a partir desta ou daquela data.
Por experiência própria sabemos que a negação é um dos principais sintomas da nossa enfermidade. Como então poderíamos exigir que alguém admitisse para nós que é um alcoólico e que por essa razão aceitar nossa ajuda para parar de beber? O que nos leva a exigir isso das pessoas, sabendo que elas poderão estar ainda muito doentes, despreparadas para admitir algo tão doloroso e estigmatizante quanto o alcoolismo?
Ainda em 1946, antes mesmo das palestras de Bill W. sobre as Normas de Procedimento mais adequadas à nossa irmandade que se transformaram em nossos Doze Princípios Tradicionais, já se publicara a informação que o número de regras para ser membro era ZERO.
Estranho é constatar que ainda hoje mais de 60 anos depois, ainda se vê praticamente a totalidade de um país com mais de 5.000 grupos insistirem na violação desse princípio tão fundamental como se nada valesse a tão dolorosa experiência do nosso passado.
Diante de fato tão grave, não há como desperdiçar uma oportunidade como esta oferecida pela nossa Revista Brasileira de Alcoólicos Anônimos – VIVÊNCIA, para dizer aos nossos irmãos do Brasil que acordem! Não temos mais o direito de ser juiz, júri e carrasco dos nossos irmãos sofredores.
Deixemo-los chegar e ficarem calados nos assistindo, nos observando, até que concluam que o nosso “Modo de Vida” é bom e pode servir para eles também. Deixemo-los perceber que ao conquistar a sobriedade conquistamos também o atributo da tolerância, algo raro de se encontrar na personalidade doentia de um alcoólico na ativa. Percebendo nossas exigências descabidas e sem propósitos podem sim se afastar definitivamente de nós. Ao fazê-lo, poderão estar assinando suas próprias sentenças de morte, mas no fundo, de quem terá sido a culpa?
Portanto, se não queremos carregar conosco este remorso, melhor seria agir como é correto agir, dizendo ao recém-chegado: - você será um membro de A.A. no momento em que assim o quiser. Por isso, basta mesmo:

O DESEJO!
NADA MAIS!!!

Vivência nº107 – Mai./Jun./2007.