DP - Bendita sacola

"Ela também pode ser espelho."

Errando e acertando, venho descobrindo em A. A. diversas ferramentas para me ajudar em minha recuperação.Uma delas, que acredito ser das mais valiosas, é a nossa sacola que, desde a minha primeira reunião, vem me mostrando como estou me relacionando com o dinheiro, comigo mesmo e com os outros.

Logo no meu inicio no grupo, eu não conseguia entender como é que o resultado das contribuições na sacola podia ser tão pequeno e ficava imaginando por que haveria "tanta ingratidão" com uma Irmandade que, segundo os depoimentos, tanto ajudava. Fui descobrindo que faltava informação sobre o que é e para que serve a nossa Sétima Tradição (se fosse só para o cafezinho, o total arrecadado estava até de bom tamanho). Eu buscava me informar em nossos livros, mas o orgulho e o medo de "me intrometer" deixaram-me fora do processo de conscientização sobre isso. Outra coisa que ainda me incomoda é o modo como a sacola é passada, de mão em mão. Penso que às vezes isso é muito constrangedor para quem está chegando ou não tem nada para colocar na sacola. De qualquer forma, faz parte da autonomia de cada grupo.

O tempo passou, mudei para um grupo base que era desligado da estrutura de A.A. Logo após a Convenção do Rio, concluímos que havia algo errado e passamos a fazer parte do todo, integrando-nos nas reuniões do Distrito e partindo para a auto-suficiência - pelo menos no que se refere ao aluguel da sala.

Aí começaram os problemas, não para o grupo, mas para mim. Para começar, não mudamos só de sala, eliminamos também algumas coisas que julgamos desnecessárias, alguns companheiros não concordaram com isso e formaram um novo grupo. Outros ficaram indecisos e vimos-nos reduzidos à metade dos membros iniciais justamente quando as nossas despesas, que eram quase zero, pularam para R$ 300,00!

Quando dei por mim, a minha contribuição na sacola representava mais da metade do total do grupo. Então vieram as inquietações: e se acontecer algo comigo (doença, mudança, recaída etc)? Na época, sugeria-se que a contribuição individual não ultrapassasse mil dólares por ano e a minha estava ultrapassando. E comecei a "monitorar" mentalmente as contribuições dos outros, me remoendo de revolta e autopiedade: "fulano pode contribuir com mais e não o faz" - e outras racionalizações.

Comecei a entender o mal que estava fazendo ao grupo e a mim mesmo. Minha primeira decisão foi adequar a minha contribuição ao limite sugerido, e me propus a reduzi-la mês a mês. Lentamente, o grupo foi "respondendo" e as nossas despesas continuaram sendo pagas. Enquanto isso, alguns membros antigos voltaram ao grupo e novos chegaram, até que me enquadrei dentro do sugerido.

Nessa época, a consciência coletiva decidiu adquirir um certo material que me desagradou muito. A minha primeira reação foi querer parar de contribuir na sacola "para mostrar a esses caras". Felizmente, vi que estava tentando manipular o grupo, como havia tentado, sem conseguir, manipular as pessoas à minha volta durante toda a minha vida.

A princípio, foi difícil contribuir para algo com o qual eu não concordava, mas hoje agradeço a essa bendita sacola e às Tradições de AA por me mostrarem esse meu terrível defeito de tentar manipular os outros.

De lá para cá, continuei reduzindo lentamente as minhas contribuições, repassando-as diretamente aos órgãos de serviços de AA e hoje, graças a um Poder Superior e à conscientização dos companheiros, o grupo se mantém com as contribuições de todos, sem que a minha seja decisiva.

Ou seja, a sacola ajudou-me a admitir a minha avareza; a minha ganância; a minha mania de superioridade; a minha arrogância; o meu apego ao dinheiro e às coisas materiais; a minha busca de poder sobre os outros e a minha busca de prestígio. Aprendi a ficar vigilante com as minhas reações diante da sacola? pois tenho certeza que ainda me revelará outros defeitos meus.

Diante da sacola sou só eu e a minha consciência, mais ninguém. Iluminado é esse anonimato e iluminadas são as Tradições de AA, que tanto me ajudam em minha recuperação. 

VIVÊNCIA N°. 67 – SET/OUT. DE 2000.