Artigos - Carroça vazia faz barulho

O primeiro requisito é estarmos convencidos de que uma vida, dirigida pela vontade própria,
dificilmente poderá ter êxito. Nessa base, estamos quase constantemente em choque com algo ou alguém, ainda quando nossos motivos forem bons. A maioria tenta viver pela autopropulsão. Cada pessoa é como um ator querendo dirigir o “show” todo; eternamente querendo arranjar as luzes, as danças, o cenário e os outros atores a seu gosto. Se seus arranjos permanecessem, se as pessoas só fizessem o que ele queria, o “show” seria ótimo. Todos, inclusive ele, estariam satisfeitos. Nas suas tentativas de fazer estes arranjos, nosso ator é, às vezes, até virtuoso. Pode ser bondoso, considerado, paciente, generoso; até modesto e sacrificado. Mas também pode ser desprezível, egoísta, interesseiro e desonesto. Porém, como a maioria dos humanos, é mais provável que tenha particularidades variadas.
 
Geralmente, que acontece? O “show” não é muito bem apresentado. Ele começa a pensar que a vida não o trata bem. Decide esforçar-se mais. Na próxima ocasião, torna-se ainda mais exigente ou afável, dependendo do caso. Porém, ainda não está satisfeito com o resultado. Admitindo que a culpa possa ser sua, em parte, está seguro de que os outros são mais culpados. Torna-se zangado, indignado e cheio de autopiedade. Qual é o seu problema básico?
 
Ele não é um egoísta até quando tenta ser amável? Não é uma vítima do engano de que pode, se administrar bem, tirar deste mundo, satisfações e felicidades? Não é evidente para todos os demais atores que estas são as coisas que ele procura? E suas ações, não causam em cada um deles, o desejo de revidar, de em pouco tempo abandonar o espetáculo. Ele não é, até mesmo em seus melhores momentos, um produtor de confusão ao invés de harmonia?
 
Nosso ator é interesseiro – egocêntrico é a palavra mais usada, hoje. Parece-se ao homem de negócios aposentado, que passa o inverno todo tomando sol nas praias da Florida e queixando-se do mau estado do país; ao padre, que suspira tristemente quando pensa nos pecados do vigésimo século; aos políticos e reformadores convencidos de que tudo se tornaria utopia, se o resto do mundo soubesse comportar-se; ao “gangster” rebelde, acreditando que o mundo se virou contra ele; ao alcoólico que já perdeu tudo e encontra-se preso num instituto. Sejam quais forem nossos protestos, não é verdade que a maioria de nós está interessada em nós mesmos, nossos ressentimentos ou nossa autopiedade?
 
Egocentrismo! Aquilo, pensamos, é a fonte de nossos problemas. Impelidos por centenas de formas de medo, auto-ilusão, interesse próprio e autopiedade, pisamos nos pés dos outros, e eles revidam.
 
Assim, achamos que nossos problemas basicamente encontram suas origens em nós mesmos. Criamos nossos próprios problemas, e pode-se dizer que o alcoólico é um exemplo de vontade própria desenfreada, embora não acredite. Sobretudo, nós, alcoólicos, precisamos desfazer-nos deste egoísmo. Precisamos, ou ele nos matará! Deus torna isso possível! E freqüentemente parece não haver meio de livrar-nos inteiramente do ego sem a Sua ajuda. Muitos de nós estávamos cheios de convicções morais e filosóficas, mas não conseguíamos seguí-las ainda que quiséssemos. Nem conseguíamos reduzir nosso auto-interesse por nossa própria força e desejo. Era necessária a ajuda de Deus.
 
Eis o “como” e “porquê” do assunto. Em primeiro lugar, precisávamos deixar de tomar o papel de Deus. Aquilo não funcionava. Depois, decidimos que doravante, neste drama de vida, Deus seria o nosso Diretor. Ele é o Principal; nos somos os Seus agentes. Ele é o Pai e nós somos os Seus filhos. Na maioria, as boas idéias são simples, e este conceito passou a ser a pedra angular do novo arco de triunfo, através do qual passamos à liberdade.

FONTE ; ALCOÓLICOS ANÔNIMOS -  5º capítulo , 3a. Edição