DP - Cheguei jovem

Iniciei minha caminhada alcoólica aos 14 anos, mais ou menos, e esse fato só fui descobrir dentro da Irmandade, porque até então eu achava que tinha apenas dois anos de ativa... Negação e auto-engano.

Nunca gostei do gosto da bebida em si, por isso misturava as bebidas com sorvete, doces etc. Até quando me acostumei e aos 15 anos tive meu primeiro coma alcoólico.

A bebida me proporcionava a sensação de fazer parte da turma, da vida, das pessoas. Tirava meu complexo de inferioridade, sentia-me bonita, extrovertida.

Mas isso durou pouco tempo, porque há até algumas vinte e quatro horas atrás eu já bebia diariamente, e tudo aquilo que eu achava que a bebida me proporcionava já havia mostrado a sua face de mentiras e máscaras.

Tornei-me alguém que eu não conhecia, uma Edmea promíscua, desinteressada por tudo, insensível aos problemas dos outros e aos meus próprios, afastando-me de tudo e de todos.

Dentro das minhas fantasias e fuga, meu sonho era largar tudo, sair do país, arranjar um emprego em qualquer lugar e viver pulando de país em país, porque assim poderia beber em paz e ninguém saberia quem eu sou ou o que fiz, e o principal: eu não teria tempo de olhar para mim mesma.

Isso, porém, nunca daria certo, porque todos os meus planos, feitos louca e delirantemente entre um gole e outro, não me permitiriam guardar dinheiro sequer para uma passagem de ônibus até a Bahia, quanto mais para outro país.

E em meio às minhas fantasias e sonhos, deparei-me com a mentira que eu era. Mentira da cabeça aos pés, confusão mental, total falta de perspectiva e gosto pela vida. Nada para mim fazia sentido, nada para mim valia a pena.

Assim cheguei em A.A. Na verdade, conheci a Irmandade através do grupo virtual ao qual serei eternamente grata mas, como todo bom alcoólico, sofri ainda sete meses até ter coragem de ingressar num grupo ao vivo.

Cheguei para parar de sofrer, para encontrar algum sentido na vida, porque a única vontade que eu tinha era a de morrer. A cada bebedeira eu pedia a Deus que me levasse, que aquela fosse a última vez que eu me encontrasse daquela forma.

E Ele me levou, levou-me para a irmandade de Alcoólicos Anônimos.

Desde que ingressei, apesar de não entender muita coisa no início, senti algo que nunca sentira antes: esperança.

E por mais difícil que fosse, através dessa troca entre os companheiros, algo me dizia para eu ficar porque daria certo, valeria a pena.

Por ser a mais nova do meu grupo, muitas vezes o orgulho quis tomar conta da minha doença dizendo a mim mesma que eu não era alcoólica, que eu era muito jovem, que só bebia cerveja, que não bebia de manhã, que não havia perdido emprego, nem nada... E todos aqueles "aindas" que a doença cria como uma armadilha.

Tratei de agarrar-me a quase todas as pequenas literaturas de A.A.: A.A. para a Mulher; Carta a uma Mulher Alcoólica; Os Jovens e A.A. Eu sabia que se não aceitasse a minha impotência perante o álcool, não conseguiria permanecer, e aí vinha na minha cabeça aquela impressão da minha primeira reunião, a de que alguma coisa me dizia que daria certo... Então fui aprender a tentar praticar outra palavrinha: paciência.

Hoje sei que sou uma minoria em A.A.: sou jovem, sou mulher e não tive todos aqueles "aindas" que muitos que chegam afirmam não terem tido. Mas isso não importa, aprendi com vocês que não importa o quanto eu tenha bebido, com que freqüência eu bebia, se bebi pelas manhãs ou não. Importa mesmo a força que a bebida tinha sobre mim a cada gole ingerido, o tempo que eu ficava pensando nela, a importância que ela tinha na minha vida.

Ganhei uma família em A.A.: pais, irmãos, irmãs e até madrinha, a quem carinhosamente chamo de "madrinha", porque é a primeira vez que tenho uma madrinha na minha vida. Ganhei seu amor, sua coragem, sua força, seu aprendizado, sua lição. Procuro entender e colocar em ação aquilo que com tanto carinho aprendo com vocês.

Vagarosamente procuro a verdade, a força, a certeza. Já escutei na sala que crescer é difícil...

Sou mais um bebê nessa caminhada. Estou no caminho certo. Aprendo a viver e com todas as oscilações emocionais que sei fazem parte da minha mente alcoólica, e aprendo outra palavra: perseverança.

Estou caminhando dentro do meu Quarto Passo, desmascarando a Edmea, desarmando minhas defesas, meus medos, e a cada palavra escrita registro-me, torno-me cada vez mais verdadeira. Há muitos defeitos de caráter a serem trabalhados, mas hoje não sou mais um desenho, não sou mais uma mentira. Sou um projeto de mim mesma, sou eu quem me construo a cada novas vinte e quatro horas.

Não sou mais um pensamento, sonho ou fantasia do que queria ser.

Hoje sou. Sou o que vou descobrindo dentro da programação que me é sugerida. E seja lá o que for, não tenho medo. Sou de verdade nesse exato momento.

(VIVÊNCIA - NOV/DEZ 2002)