DP - Como a flor na primavera

Como a flor na primavera

Sou uma alcoólica em recuperação, como tantos outros companheiros que fazem parte desta obra que é Alcoólicos Anônimos.

Antes do meu ingresso, costumava colocar o dedo no nariz das pessoas, ditar ordens, ser dona absoluta da verdade. Costumava, também, rezar. Acreditava em um Deus fotogênico, triste e muito distante de mim. Um Deus sentado numa nuvem confortável, com muitos subordinados trabalhando para Ele. Achava que para ser atendida em minhas preces, teria que me impor. Ser prepotente, não pedir mas quase ordenar as minhas vontades, para que fossem realizadas.

Quando encontrei A.A., ouvi os depoimentos dos companheiros e senti a humildade com que contavam até que ponto o álcool afetou suas vidas, percebendo todas as perdas que tiveram, espirituais, morais, financeiras e físicas. No entanto estavam ali, agradecendo por tudo que passaram e comentando o que de positivo este lado negativo lhes trouxe. Despojados de orgulho, abriam suas vidas com tanta dignidade, quanto uma flor se abre aos poucos na primavera. Fui me sentindo envergonhada, pequena e inútil.

Perguntei-me o que estava fazendo naquela sala? A luz que emanava dessas pessoas ofuscava a minha presença. Comprei algumas literaturas. Fui para casa quieta, tentando me encontrar em algum ponto desta luz. Li algumas páginas de Alcoólicos Anônimos, algumas frases dos Doze Passos, e me deparei com a Oração da Serenidade. Rezei, sem muita fé, mais analisando a oração do que me entregando à ela.

Os dias foram passando e eu sempre estava contando as horas para chegar o momento da reunião. Queria ouvir mais depoimentos, entender melhor a mensagem de A.A.

Eu já estava mudando, mas não sabia... Estava mergulhando nessa reformulação, tão iluminada, mas não sabia... Só me dei por conta um dia, antes de dormir, quando fui fazer minhas preces. Não pedi nada... somente agradeci...

Agradeci os momentos ruins da minha vida passada, porque estava conseguindo ver o lado positivo que havia dentro deles.
Agradeci por ter consciência de estar viva, por saber quem eu fui e quem eu sou.
Agradeci por entender o que posso ou não posso mudar, nas minhas vinte e quatro horas.

Neste dia eu não busquei Deus em nuvem alguma. Não havia distância entre nós, porque estávamos juntos. Ele morava o tempo todo dentro de mim e eu não sabia...

Hoje, cada vez que entro em uma sala de A.A., sinto um facho de luz que percorre, de coração a coração, cada membro dessa obra.

Obrigada ao Bill e ao Bob por salvarem tantas vidas, por serem responsáveis pelas sementes fecundadas, geradas e nascidas dentro de A.A. São todos seres humanos muito especiais. Externar a minha imensa gratidão somente com palavras seria muito pouco. O que tento, como posso, é dar um pedacinho de mim. Trabalhando um pouco para a Irmandade e regando as sementes plantadas, com tanto amor, por esses dois seres iluminados, responsáveis pelo que somos.

Agradeço, todos os dias, ao meu Poder Superior que, como já havia dito, para mim é Deus, pela sua generosidade, sua luz, seu perdão e seu infinito amor. Agradeço por ter sido conduzida a esse segundo lar e ter reconstituído, num inteiro, os fragmentos da minha vida.

"Todos nós somos, simultaneamente, estudantes e professores. Atingimos nosso máximo quando ensinamos a nós mesmos aquilo que precisamos aprender".

(Vivência - Nov/Dez 95)