Artigos - Como mantê-lo simples?

Como mantê-lo simples?

A.A. seguiu a advertência do Dr. Bob: "mantenham-no simples"? Como poderíamos encaixar os Doze Passos, as Doze Tradições, as Conferências de Serviços Gerais e Convenções Internacionais de hoje no nosso A.A. original de café-e-bolo?

A mim, não me é difícil responder. A simplicidade autêntica de hoje se encontra, creio eu, em qualquer princípio, prática e serviço que sirva para assegurar, para sempre, nossa harmonia e eficácia. Por isso, tem sido melhor enunciar claramente nossos princípios do que deixá-los em termos vagos; é melhor esclarecer suas aplicações do que deixá-las indefinidas; é melhor organizar nossos serviços do que deixá-los ao azar ou não dispor de qualquer método para realizá-los.

Um regresso à época da mesa de cozinha não nos daria a desejada simplicidade. Apenas poderia significar a irresponsabilidade, a discórdia e a ineficácia em grande escala. Imagine-se: não haveríam princípios orientadores bem definidos, nem literatura, nem salas de reunião, nem apadrinhamento planificado, nem direção estável, nem relações bem estabelecidas com os hospitais, nem saudáveis relações públicas, nem serviços locais ou mundiais. Voltar a essa espécie de simplicidade daqueles dias seria tão absurdo quanto vender o volante, o tanque de gasolina e os pneus do carro da família. O carro ficaria, sem dúvida, mais simples. Não haveria necessidade de comprar gasolina ou gastar dinheiro com consertos. Só que não andaria. A vida familiar, no princípio considerada mais simples, tornar-se-ia, em seguida, confusa e complicada.

Uma anarquia animada unicamente pelo espírito de "reunamo-nos", simplesmente não basta aos A.As de hoje. Aquilo que em 1938 produzia bons resultados para uns quarenta membros, não irá funcionar para os 200.000 AAs de 1960 (menos ainda para os dois milhões de 2000 - Nota do Editor). Nosso maior tamanho e, por conseguinte, nossas maiores responsabilidades, constituem a diferença entre a infância de A.A. e a sua maioridade. Seria tolice tentar recuperar a simplicidade que vivíamos em nossa infância para, assim, evitar a responsabilidade que sempre teremos que enfrentar para "mantê-lo simples" em nossos dias atuais. Não podemos atrasar o relógio e nem devemos tentar (...)

Como havíamos nos acostumado a dizer que A.A. havia "separado completamente o espiritual do material", houve uma grande comoção quando o Dr. Bob e eu propusemos os serviços mundiais. Quando insistímos que esses serviços tinham que estar encabeçados por uma junta permanente; e quando dissemos, além de tudo o mais, que havia chegado a hora em que - pelo menos nessa esfera - teríamos que aprender a pôr o material a serviço do espiritual. Alguém que tivesse experiência teria que tomar o volante, e teria que haver gasolina no tanque de A.A. (...)

Uma pergunta para terminar: desapareceu do mundo de A.A. a época do café-e-bolo e das íntimas amizades porque estamo-nos tornando modernos? Dificilmente. Conheço um A.A. de minha cidade que está há vários anos sóbrio. Assiste às reuniões de um grupo pequeno onde os depoimentos que escuta são exatamente iguais àqueles que o Dr. Bob e eu costumávamos escutar - e, às vezes, dar - em nossas salas de estar. Meu amigo tem como vizinhos uma dezena de companheiros de A.A. Reúne-se com eles, regularmente, ao redor das mesas de cozinha e xicáras de café. Sai com frequência para fazer visitas do Décimo Segundo Passo. Para ele, nada mudou.A.A. é como sempre foi. É possível que, nas reuniões meu amigo veja alguns livros, folhetos e exemplares da Grapevine, colocados sobre a mesa. Ouve a secretária anunciar timidamente que todos encontram-se à venda. Parece-lhe que a Intergrupal de Nova Iorque funciona bem já que, por intermédio dela, alguns de seus amigos encontraram seus padrinhos. Com respeito aos serviços mundiais, não lhe são tão claros. Ouve algumas coisas contra e outras a favor. Chega à conclusão de que provavelmente são necessários. Sabe que seu grupo envia algum dinheiro para essas atividades, e não lhe parece mal. Ademais, há que ser pago o aluguel do local em que seu grupo se reúne. Em sendo assim, quando a sacola é passada, coloca prazerosamente um dólar.

No que concerne ao meu amigo, essas "modernizações" de A.A. não provocam nenhum impacto devastador em sua serenidade e nem em seu bolso. Simplesmente representam sua responsabilidade para com o seu grupo, sua Área e A.A. como um todo. Para ele, essas sempre foram as obrigações mais simples e naturais.

Se você dissesse ao meu amigo que A.A. está se pondo a perder por culpa do dinheiro, da política e da excessiva organização, ele riria.Provavelmente, responderia: "Por que você não vem à minha casa, após a reunião, para tomarmos outro cafezinho juntos?" (Grapevine, julho de 1960)

(Vivência - Janeiro/Fevereiro 2001)