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COMO SE LIBERTAR DO ALCOOLISMO ?
                     Eduardo Mascarenhas
  
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     Nos meados de 1984, o psicanalista Eduardo Mascarenhas publicava no jornal "Última Hora", uma série de artigos sobre Alcoólicos Anônimos. Primeiro sobre a irmandade como instituição, depois sobre o programa oferecido por ela para aqueles que, reconhecendo ter o problema, poderiam aproveitar para resolvê-los. É o primeiro desses artigos sobre o programa de A.A. sugerido nos 12 Passos que transcrevemos agora, pois, decorridos mais de 5 anos, os nossos leitores, alguns pela primeira vez, terão oportunidade de ler como um profissional da saúde vê esta parte  do programa de recuperação sugerido por  
A.A. 
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   A experiência em todo o mundo, acumulada nos seus 49 anos de existência, durante os quais recuperou milhões de alcoólatras, trouxe ao A.A. a convicção de que só se liberta real e solidamente do álcool aquele que fizer uma profunda reformulação de sua personalidade. Pra alcançar esta reformulação cumpre percorrer aquilo que na tradição dos AAs ficou conhecido como os Doze Passos. 
   Claro, os 12 Passos são um guia, uma meta. Nenhum AA conseguiu atravessá-los completamente. Não se trata, pois, de virar santo ou se tornar perfeito. Trata-se, isso sim, de esforçar-se permanentemente para um aperfeiçoamento pessoal. OS 12 PASSOS SÃO UMA MANEIRA DIDÁTICA DE SE ALCANÇAR ESSE APERFEIÇOAMENTO.  NÃO SÃO SAGRADAS ESCRITURAS, NEM PRETENDEM SER A PALAVRA DE DEUS. 
   Com todo respeito pelas tradições do A.A., vou me permitir descrevê-los com as MINHAS palavras, tal como eu os entendi. Tentarei descobrir neles uma coerência semelhante à coerência psicanalítica. Na realidade, bem que se poderia descrever Os 12 Passos do processo psicanalítico. Não seriam muito diferentes dos do A.A. 
   1º Passo - Superar o orgulho, a vaidade, o narcisismo e reconhecer que já não bebe só quando quer e o quanto quer.. Ao invés de dominar o álcool, é o álcool que já está dominando. Ano após ano, o equilíbrio de forças está pendendo mais para o copo do que para a mão. Não é mais a mão que procura o copo. É o copo que atrai a mão. 
   Outra coisa: chega de empulhação. Chega de desculpas do tipo, páro quando quero. Realmente até que se pára quando se quer. Por um dia, uma semana, um mês, até por um ano. Só que depois se volta, e com força redobrada. Parodiando a frase de Oscar Wilde sobre o parar de fumar: "Parar de fumar é tão fácil, que já parei 10 vezes". 
  Reconhecer que já está perdendo o domínio sobre o álcool (ou que já o perdeu há muito tempo) é, evidentemente, o primeiro passo  para deixar de ser um biriteiro. 
   Por incrível que pareça, esse passo é dificílimo e o ego luta com todas as suas forças contra ele. Primeiro porque é angustiante, mesmo, se sentir perdendo o controle numa área de tão sérias consequências  sobre a vida como um todo. Segundo, porque as pessoas insistem em considerar o alcoolismo não uma doença como outra qualquer, mas sim, uma fraqueza de caráter, uma falta de força de vontade, de autodomínio. Se muita gente já se humilha de ter uma doença indiscutivelmente física como o diabetes, por exemplo, imagina admitir uma doença que nem doença é considerada pela maioria, mas sim, falta de vergonha na cara. Realmente é difícil se admitir perdendo domínio sobre o álcool, pois o alcoolismo, infelizmente, ainda é um pesado estigma. Pau-d'água, degenerado, cachaceiro, desenfreado, bêbado, pessoa que vive no pileque, porrista, viciado, alcoólatra, pé-de-cana, vocês hão de convir, são expressões que adquiriram
cores claramente insultuosas. 
  
   2º Passo - Acreditar que exista um tratamento para o alcoolismo. 
    Não um tratamento, apenas químico, técnico, impessoal. ´mais fácil tomar uma B12 na veia, entregar o coração para uma cirurgia de ponte safena, a cabeça para um Vallium da vida, do que confiar numa pessoa, ou  grupo de pessoas, para realizar um tratamento em que participe algum grau de ENTREGA PESSOAL. 
    É que a mentalidade contemporânea ou é crédula e cheia de crendices, a ponto de se entregar ao primeiro santo  milagreiro que passar na sua frente e dele esperar milagres, ou é profundamente cientificista. No primeiro caso, a confiança é depositada num gurú com forças extraterrestres, um ET da alma. No segundo, a confiança é depositada, na "Ciência", com seus sacerdotes vestidos de branco, dando entrevistas ao Hélio Costa para o Fantástico. Por isso, os médicos, os cirurgiões, os neurologistas, inspiram alguma confiança. Não eles, enquanto pessoas, mas sim enquanto SACERDOTES DA TÉCNICA. Em ambos os casos - quer na fé infantil a um Deus todo poderoso e milagreiro, quer  na fé, igualmente infantil nas parafernálias e engenhocas dos laboratórios americanos, cheios de tubos de ensaio, fios, ratos e computadores. Os seres humanos, com seus poderes pessoais, estão excluídos. Conclui-se daí que o difícil, mesmo, é gente
confiar em gente. Não em gurus divinizados, mas em gente mesmo. 
    As resistências ao A.A. passam por aí. Só que, imagino, devem ser maiores ainda. É que, aos trancos e barrancos, a psicanálise infiltrou-se na cultura e o psicanalista acabou sendo reconhecido como um "semi-sacerdote da Ciência". Hoje é até chique fazer psicanálise. Os AAs porque são gratuitos e porque suas sessões não são dirigidas por "doutores", têm mais cheiro de povo e menos perfume de elites iluminadas. Não exalam, assim o discreto charme da pequena burguesia artística e intelectual. 
    Além disso, o anonimato de seus líderes não possibilita que se tornem celebridades a serem adoradas, entrevistadas pela televisão e pela imprensa. O fato de sua origem norte-americana - e não européia - colabora, ainda, para uma certa perda de prestígio, do tipo aristocrático. Enquanto a psicanálise possui Freud, de Viena; Jung, de Zurich; Lacan, de Paris; os AAs possuem como fundadores, Bill e Bob, de Ohio... 
    Como nossa sociedade é profundamente elitista, tudo isso conta. Também o fato de, nas sessões de A.A. se reunirem  pessoas de diversas camadas sociais. O elitismo não gosta disso. As pessoas de classe social mais alta, dominadas pelo elitismo, tendem a desprezar esse tipo de reunião. O pior é que sem nem saber do que se trata. Imaginam, logo, mendigos cachaceiros, de pés inchados, entoando músicas evangélicas. As pessoas de classe social mais baixa, também dominadas pelo elitismo, tendem a se intimidar com esse tipo de encontro por motivos simetricamente opostos.  Imaginam que estarão na Academia de Letras, tendo de fazer discursos. "Eu, abrir meu coração pra cachaceiro?", diz o doutor, dominado pelo "Scotch"; "Eu, ter que falar diante de doutor?", diz o cidadão proveniente das camadas populares, dominado pela cachaça. E tome resistência. E tome mais pileques ainda... 
     Em suma, o segundo passo para se livrar do alcoolismo é recuperar a crença e a esperança de que existe algo que possa ser feito. Uma força superior à vontade, capaz de enfrentar a essa outra força superior à vontade, que é o alcoolismo. 
  
                                                        Vivência nº 11, de JUL/ SET de 1989, 

                                            copiado   do jornal "Última Hora" de 30/05/84.