DP - Comportamento tem cura

Sou um alcoólico em recuperação. Meu fundo de poço culminou em anos de tentativas frustradas, depressões e mentiras. Na minha ultima recaída, lá estava eu, chegando em casa daquele jeito. Já era madrugada. Olhei minhas filhas pequenas dormindo como anjos. Não consegui entrar no quarto de casal, onde dormia a esposa. Uma dor horrível apertava meu peito. Fracassei de novo.
Não sabia se chorava ou estourava os miolos. O desejo de morrer surgiu.
 
Parei na sala, cai de joelhos e roguei novamente a um Poder Superior: "Ajude-me, não agüento mais!" Pequei uma caneta e escrevi que estava cansado da vida e que a bebida, esse poder superior a mim, tomara conta do meu viver.

Eu achava que podia controlar o primeiro gole (grande mentira) e, o que é pior, tinha começado a cruzar dependências, numa poderosa e suicida mistura... Profissionalmente ainda mantinha o controle, normalmente ate o fim do dia, quando uma irresistível e incontrolável forca me guiava ao bar. O pior é que, mesmo acompanhado, estava só. Tinha saudades das boas lembranças de um beber moderado, das risadas e do não comprometimento. A companhia da minha família e o crescer das crianças eram trocados pela companhia de pessoas doentes como eu, que era uma laranja podre entre as boas, como diz um bom companheiro.

Naquela noite, decidi que iria procurar ajuda. Precisava preencher esse vazio interior que estava acabando comigo.

 
 Já conhecia o programa dos Doze Passos através de uma irmandade paralela que freqüentei e que não consegui levar a serio. Sabia da existência de um grupo de A.A. (ha anos passava em frente, mas nunca havia entrado para conhecer). Decidi ir lá e, no dia e horário previsto, lá estava eu, parado em frente a porta.
 
 
 Confesso que tentei manipular a mim mesmo para não entrar: o que estava fazendo ali, o que iriam pensar de mim?? - todas aquelas coisas que o orgulho e a prepotência trazem a tona. Lembrei-me da impotência perante o álcool, mas não queria admitir que tinha perdido o controle. Lembrei-me do remorso das noites anteriores e isso bastou. Entrei, sentei-me na ultima fila e vi pessoas conversando normalmente.
 
 
Ofereceram-me chimarrão, apresentaram-se e disseram que, se o problema era a bebida, eu estava no lugar certo. Senti no olhar de alguns companheiros mais antigos a preocupação de um pai para com seu filho. Isso me bastou. Ali era o meu lugar, senti-me importante.
 
 
Participei de mais quatro reuniões antes de ingressar como membro. Escolhi um ex-colega de colégio para padrinho. Aceitei as sugestões de ir com calma (primeiro as primeiras coisas), evitar o primeiro gole custe o que custar, bem como evitar os lugares da ativa. Foi difícil no começo.  Procurei me enturmar com o pessoal e me envolver com o grupo, na medida do possível.


Coisas boas tem acontecido desde então. Supri minha necessidade de ir ao bar chegando ao grupo antes das reuniões, fato que tem me proporcionado boas amizades, uma conversa amiga e um abraço sincero, alem de tomar aquele bom chimarrão e partilhar forças e esperanças com quem ja passou pelo que estou
passando. Hoje sinto que estou conseguindo preencher aquele vazio interior, com prece, meditação e ação positiva.

 
 Aprendi a me render as sugestões do programa e, o que e melhor, aprendi a me conhecer através da abertura da caixa preta (quarto passo), que culminou em um fundo de poço de magoas, vergonhas e total descontrole. Partilhei um honesto Quinto Passo e me senti aliviado. Procuro entregar minha vontade e minha vida aos cuidados de um Deus de amor, através desse programa de vida.
 
Os Passos são maravilhosos e merecem ser feitos com calma e coragem. Todo dia merecem observação. Mesmo inventariando-me constantemente, sei que o melhor que faço ainda é pouco e que não da para virar santo de um dia para o outro. Apenas posso me vigiar e rogar a compreensão da vontade de um Poder Superior em relação a mim, deixando que ele controle o resto. Com honestidade, mente aberta e boa vontade, busco um novo viver.

Recuperar a ação é um processo lento e sutil, exige coragem. Não basta tampar a garrafa, ha a necessidade de saber o porque desse comportamento doentio, porque cheguei a esse ponto, o que espero da vida e o que posso fazer para mudar. Aos poucos, as respostas vem a tona. Alcoolismo é uma doença de comportamento. Alcoolismo não tem cura, mas comportamento tem.
 
Sou grato a essa obra e só posso paga-la com serviço: limpando cinzeiros, estendendo a mão ao irmão que sofre. Nosso grupo completara 25 anos e sinto-me honrado por participar. Atualmente coordeno o grupo. E um trabalho serio, tenho medo e me vejo seguidamente rogando a um Poder Superior, para que Ele aja através de mim. Busco na consciência coletiva do grupo as sugestões  do melhor agir. Assim consigo controlar a prepotência de querer ser mais do que um servidor de confiança.
 
Resta desejar a todos a esperança de um amanha melhor, fruto da realidade do hoje e do passado, que, bom ou ruim, deve servir de exemplo para que não cometamos mais os mesmos erros.


(Revista Vivência 065 -  Mai/Jun. 2000)