Artigos - Coragem para mudar (Palestra proferida na X Convenção Nacional) - RV. 06

Há certos momentos na vida que  nos defrontamos conosco  mesmo.  Olhamos de frente e de perto  o  espelho  d'alma.  Nos  vemos nus, despidos de todo  atavio  e disfarce.  Vemos a nossa verdadeira  face,  sem  o  sorriso  dissimulado  ou  sem  a  carranca  de  pedra que  costumamos ostentar  nas  horas  difíceis.  É  extremamente  doloroso  olharmos  dentro  de  nós  mesmos. É extremamente cruel saber que mentimos através dos anos, para os outros e para nós mesmos.
   Estáticos e espantados, encaramos nossa verdadeira cara, o nosso verdadeiro ego.
   No transcurso desse inventário moral, podem ocorrer duas coisas: podemos recuar, deixando de fazer uma reformulação em nosso ser  e  em  nossa vida; ou enfrentar os fatos, promovendo uma radical transformação  de nós mesmos.
   Nem sempre, porém, o confronto é tão rigoroso, tão severo.
   A necessidade  de transformação  faz parte da vida. Faz parte do cosmos, da própria natureza dos seres.
   Tudo no universo  está  em  permanente  transformação. A matéria sofre  constante entropia, com   crescente  desorganização;  o  espírito  sofre  fenômeno  inverso,   a  negentropia,   com  a crescente organização de si mesmo.
   O   próprio   universo   está   cambiando.   A   mudança   é   sua  lei,  caminhando  sempre,   ora evolutivamente ora involutivamente.
   Nós, almas viventes, somos partículas do universo. A transformação é coisa nossa, faz parte do íntimo de nosso ser.
   Permanecer imóvel, sem transformação, é coisa antinatural e altamente negativa.
   A "metamorfose" pode ser coletiva ou individual.
   Uma transformação coletiva radical denomina-se revolução.
   Nenhuma revolução é permanente se ela não conseguir mudar individualmente as crianças, os seres humanos.
   Logo, a  verdadeira  transformação é aquela que consegue mudar as pessoas, individualmente.
    Toda  mudança  pressupõe  que  devamos  adquirir  novas  maneiras  de  pensar.  De  um modo geral, estamos acostumados a pensar de  acordo  com um  determinado sistema de raciocínios e consoante  os  debilitantes  sentimentos  deles  derivados.   É  preciso  muito  esforço  para   que possamos nos livrar de todos os velhos hábitos de raciocínio que cultivamos até hoje.
   Toda  mudança  pressupõe  um  risco,  um  desafio  e  um  enfrentamento  de  uma coisa  nova, desconhecida. Isto nos dá um sentimento de medo, de tibieza, de incerteza.
   Somente  poderemos  vencer  o  medo  através  da  aquisição  de  um  sentimento  maior, mais poderoso.
   Esse sentimento  denomina-se Fé.
   Da mesma forma que o Medo e o Orgulho fazem parte de uma mesma moeda, Fé e Humildade são faces distintas doutra moeda.
   A alavanca da Fé remove montanhas, rechaça o medo e favorece a evolução do ser humano.
   Alcança-se a Fé por meio da Humildade.
   O evangelista Jimmy Swaggart diz que a Humildade perfeita pressupõe  ausência da inveja.
   É  quando  ficamos  felizes  em  assistir  ao  sucesso  e  triunfo  dos outros mais do que o nosso próprio.
   Bill W.  conceitua  a  humildade  perfeita  como  o  completo  despojamento  do  ego e de seus defeitos  de  caráter.  Seria  a  boa-vontade  permanente  em  fazer  a  vontade  de  DEUS a todo momento e em todo lugar.
   Fora   esses   casos   de   Humildade   dita   perfeita,  podemos  dizer  que  a  Humildade  em  si caracteriza-se por:
   - aceitação das coisas que não podemos modificar;
   - aceitação  clara  do  que  realmente  somos  e sincero esforço para nos convertermos  no que realmente poderíamos ser;
   - aceitação de um Poder Superior e o desejo de fazer Sua vontade.
   Procedida a Aceitação, e com alguma dose de Humildade e de Fé, podemos, então, partir para o próximo passo, com  toda a  persistência e honestidade possível. Devemos explorar, mediante a  auto-análise, a  nós  mesmos.  Isto requer  coragem e  determinação, pois a auto-análise pode revelar dezenas de traços negativos, que não queríamos ver. Como exemplo, a auto-observação revela,  com   frequência,  que  dissemos uma coisa  em público mas, em particular, pensávamos exatamente o oposto. 
   Não  devemos  nos  condenar  pelo  que  vemos, devemos apenas, com serenidade e estado de alerta, deixar que tudo isso desfile em nossa tela mental.
   A auto-análise, seguida da meditação constante, nos conduz à trilha da libertação.
   A mudança de velhos hábitos  é prática  que exige disciplina árdua, pois significa transformar a velha natureza, matar o antigo EGO e fazer brotar o novo EU.
   É  aquilo  que  JESUS CRISTO  nos  ensina:  "ninguém  põe  remendo  de  pano  novo em vestido velho; porque o remendo tira parte do vestido, e fica maior a rotura. Nem se põe vinho novo em odres  velhos;  do  contrário,  rompem-se  os  odres,  derrama-se  o  vinho, e os odres se perdem. Mas, põe-se vinho novo em odres novos, e ambos se conservam" (Mateus, 9, 16/17).
   Depois  desses  passos  fundamentais,  resta-nos  como  ferramenta  de  autotransformação   a prática diuturna da ORAÇÃO.
   O  Programa  de  A.A.  nos  propicia  um  poderoso  instrumento  de  auto-mudança  para   vida melhor e mais plena.
   Seus instrumentos mais eficazes são a "Oração da Serenidade" e os "Doze Passos". Tudo o que ficou dito neste trabalho está contido nestes dois instrumentos de auto-reformulação.
   O programa de A.A. é um processo cibernético.
   Trata-se de uma caixa hermeticamente fechada, com uma entrada e uma saída. Se colocarmos apenas   "inputs"   negativos   no   orifício   de   entrada,   tais   como:   ressentimentos,   mágoas, autocomiseração,  vazios,  temores, culpas, etc., teremos na saída como "outputs", a depressão, a queda na saúde física e mental, o desânimo e o fracasso. Se pusermos pensamentos sadios e o desejo  de  auto-reformulação,  teremos resultados positivos, tais como: felicidade, criatividade, tolerância, amor, boa saúde, equilíbrio mental, serenidade, coragem e sabedoria.
   Bill W. descreve,  com  sabedoria,  a luta pela libertação do alcoolismo, através do crescimento espiritual:
   "O  objetivo  imediato  de  nossa  luta é a sobriedade, a abstenção do álcool e de suas nefastas consequências.  Sem  esta  libertação, não alcançaremos absolutamente nada. Paradoxalmente, no entanto, não poderemos lograr libertação alguma, com exceção daquela referente ao uso do álcool, se não fizermos alguma coisa no sentido de erradicar nossos defeitos de caráter, que um dia   nos   levaram   à   bebida.   Nessa   luta   pela   libertação,   depararemos   sempre  com  três alternativas:  a negativa  rebelde  de  lutar  contra  os  defeitos  de  caráter,  o   que,   em   outras palavras, significa uma passagem direta para o inferno; outra atitude seria a de permanecermos sóbrios     durante     algum     tempo,       de       contentarmo-nos      com      um      mínimo       de  aperfeiçoamento  moral,  estagnados  numa  mediocridade  cômoda, frequentemente perigosa; finalmente,  poderíamos  lutar  com todo empenho por conquistar valiosas qualidades pessoais que nos  elevariam  a  um  estado  de  espírito  e  ação,  resultando, finalmente, numa liberdade verdadeira e duradoura, sob a égide de Deus."

Revista Vivência nº 6 - Jan/Fev/Mar 1988 /Número Especial