DP - Dando nome aos sentimentos negativos.

O Quarto Passo me atraiu assim que cheguei às portas de Alcoólicos Anônimos. Eu vim para A.A. cheia de culpa e remorso por todas as coisas ruins que fiz - por exemplo, sendo uma esposa infiel, não fazendo meu trabalho da melhor maneira possível e ainda esperando elogios, e sendo indiferente às necessidades dos outros. 

Eu era totalmente egocêntrica, mas ao mesmo tempo era considerada pelos outros uma boa esposa para um homem que bebia
muito e saía por aí, leal a um emprego durante doze anos e uma pessoa muito doce (nunca expressei uma opinião minha!). Mas o modo como eu era vista pelos outros não era o modo como eu me sentia por dentro.

Eu ouvi AAs dizendo sobre se libertar da culpa do passado, fazendo os Quarto e Quinto Passos. Eu queria me livrar de meus
sentimentos de medo, frustração e depressão, e me dispus a esperar o tempo que fosse necessário para realizar isso.

A primeira coisa a fazer era tomar uma decisão. Já que eu não podia dirigir minha própria vida (olhar para a bagunça que havia
dentro de mim), eu poderia encontrar meu próprio poder superior para o qual poderia voltar minha vida e minhas vontades. Depois disso eu poderia olhar para mim mesma e assumir a responsabilidade por minhas ações passadas. Eu não sabia dar nomes a meus sentimentos porque durante anos eu não falava aos outros sobre como eu me sentia e o que pensava.

Se eu tivesse problemas, deveria resolvê-los por mim mesma; ensinei-me a ser auto-suficiente? Enquanto ia às reuniões e ouvia os outros falando sobre seus sentimentos, eu sempre reconhecia alguns como sendo meus. E compreendi que meus instintos naturais "pela relação sexual, pela segurança material e emocional, e pelo companheirismo não precisavam estar em minha vida de um modo
tão negativo".

Uma das maneiras que encontrei para ficar sóbria foi escrever sobre meus sentimentos e minhas dúvidas e também sobre as coisas novas que aprendi. No começo de minha sobriedade eu voltava das reuniões de ônibus. Meu caderninho, que ficava em minha bolsa, estava sempre lá para que eu escrevesse qualquer pensamento que tive durante a reunião que acabei de assistir.

Depois de aproximadamente quinze meses procurei alguém com uma boa sobriedade e pedi ajuda para transformar minhas anotações em Quarto Passo. Ele sugeriu que nos encontrássemos e lá fui eu, de caderninho na mão. Ele começou falando, me conduzindo a uma discussão sobre meus problemas nas área de sexo, sociedade e segurança (como sugerido no Livro Azul). Ele sugeriu que eu olhasse para o orgulho, a cobiça, a raiva, a gulodice, a inveja e a indolência. Nós conversamos por aproximadamente três horas, cobrindo cada área de minha vida onde eu tinha problemas. Eu pensava que pudesse dar nomes a meus sentimentos negativos e descobrir a origem deles. Que alívio senti ao poder contar para alguém sobre mim sem qualquer ameaça de repreensão ou condenação. Eu descobri que não era a pior nem a mais imoral pessoa do mundo. Eu não era diferente dos outros que
compartilhavam as reuniões, nem pior nem melhor, e eu não era estranha nem diferente. Quando fiz meu balanço, percebi que não tive a intenção de prejudicar os outros, nem intencionalmente havia me comportado de uma maneira inaceitável. Eu não era uma pessoa má; era uma pessoa doente tentando melhorar. Era um ser humano que valia a pena. As pessoas falam sobre ter experiências espirituais depois de fazer o Quarto Passo. O que aconteceu a mim foi que aprendi muito sobre a pessoa que eu tinha sido. Eu olhei para minhas "deformidades emocionais" e assim pude "me orientar à correção". Agora tenho um sentido de direção melhor e sei em que áreas preciso trabalhar. Como "Os Doze Passos e as Doze Tradições" explica, "...um novo tipo de confiança nasce e a sensação de alívio por finalmente termos enfrentado a nós mesmos é indescritível." Desde o primeiro inventário, eu fiz muitas vezes o
Quarto Passo. Quando meu casamento estava em dificuldades, procurei a minha parte da culpa, onde eu tinha errado. Não tive medo de olhar para minha conduta porque eu estava sóbria para tentar ser uma boa esposa e companheira. Eu achei que depender de alguém que considerava mais forte me desvirtuava. Tive medo da vida e não cresci; me sentia dominada, mas em algumas áreas era eu quem dominava. Eu exigia muito de pessoas que sequer conhecia. Tentei manipular meu marido para que soubesse o que eu pensei serem minhas necessidades, quando nem eu mesma realmente as conhecia. Alguns anos mais tarde, quando meu casamento acabou e eu encontrei alguém em quem estava interessada, fiz um inventário das relações com os outros homens de minha vida (pai, irmãos, amigos, amantes), para descobrir minhas dificuldades. Eu não queria entrar numa relação e cometer os mesmos erros. Nesse inventário encontrei as mesmas dependências crescendo através do medo, autopiedade, preocupação, pena, cobiça, possessividade, raiva e uma falta de confiança em mim mesma. Hoje, quando um problema particular não pode ser encoberto por um Décimo Passo diário, acho natural usar o Quarto Passo. Eu começo com o Primeiro Passo e vejo onde sou impotente, eu reconheço que um
Poder Superior pode me ajudar, e uso o Terceiro Passo como um movimento preliminar para o Quarto Passo. Depois de fazer o Quinto Passo, eu uso os Passos subseqüentes para me ajudar a trabalhar o problema. O Quarto Passo permite que eu olhe para mim mesma, olhe para meus temores por não conseguir algo que eu queira ou por perder algo que eu consegui, dá uma perspectiva de meus defeitos de caráter e avança para tentar estabelecer verdadeiras parcerias com outros seres humanos: tudo para ser "alguém numa família, ser um amigo entre amigos, um trabalhador entre trabalhadores, ser um membro útil da sociedade." (Grapevine)

(VIVÊNCIA - JAN/FEV 98)