DP - Décimo Passo

Décimo Passo

"CONTINUAMOS FAZENDO O INVENTÁRIO PESSOAL E,

                    QUANDO ESTÁVAMOS ERRADOS,
               NÓS O ADMITÍAMOS PRONTAMENTE."
              EVITANDO TEMPESTADES
 
     Vou  recorrer  à   história   para   falar  um   pouco   da   minha experiência com o Décimo Passo.  
      O  terremoto   de   Lisboa   em   1755  é   considerado  a  maior tragédia    natural    até   hoje   vivida  pela   Europa.  Milhares  de mortos.   E    da    pergunta    de   Dom   José,   Rei  de  Portugal  à época,   ao  Marquês  de  Alorna,  General  D'Almeida:-  E   agora, o que fazer?
      Veio   a   sábia   resposta:   "Agora  Majestade,  é   enterrar  os mortos,  cuidar  dos  vivos  e  fechar  os  portos". É  a  partir  desta resposta que vou traçar meu paralelo com o Décimo Passo, pois é exatamente  isso  que  acredito  devemos  fazer  na  prática deste Passo. Enterrar os mortos, não ficar imaginando como seria se eu não  fosse  alcoólico,  se  meu  passado fosse diferente, se isso, se aquilo  (armadilha do "se")  não  tivesse   acontecido,   nem   ficar tentando  entender  as  razões  mais  profundas  de minhas crises passadas.
      Enterrar  os  mortos   para  cuidar  dos  vivos,   significa  cuidar do  que  sobrou,  do  que  existe  de  concreto,  de  real.
      Fechar  os  portos  significava  para  eles  à  época impedir que novas epidemias chegassem,  pois  eram os navios que chegavam aos portos que traziam  epidemias,  saques, bandidos, etc. e para mim  significa  praticar  os  Passos  para  evitar  nova  tragédia  no alcoolismo.
      Portanto,   praticar   o   Décimo  Passo   é  fechar  os  portos  e, porque não, as portas para uma recaída, seja ela física, emocional ou espiritual.
      A tempestade passou; cuidamos dela até o Nono Passo; agora é criar condições para evitar novas tempestades e criar uma base sólida  de  desenvolvimento   emocional   e   espiritual   para   que possamos  vir a ser um ser humano íntegro, útil e, acima de tudo, merecedores de uma nova vida.
      No  Décimo  Passo  começamos  a  praticar o modo de vida de A.A. Além de dar manutenção  ao que  já foi realizado nos Passos anteriores, agora precisamos de  muita vigilância para não deixar acumular ações negativas.
      Aprendemos  a  conservar  o  que  alcançamos,   ficamos  mais confiantes  e prosseguimos nossa viagem espiritual com alegria.
      Os  nove  primeiros  Passos  puseram  nossa  casa em ordem e nos   permitiram   mudar   alguns   de   nossos    comportamentos destrutivos.
      A   prática   dos   Passos   começa    a   valer   a   pena   quando aumentamos  nossa  capacidade  de  desenvolver  meios  novos e mais saudáveis de cuidar de nós mesmos e de nos relacionar com os outros.
      Por   em   prática   os   Passos  ajudou-nos  a  ver como  somos frágeis  e  vulneráveis ,  mas  com  a  prática  diária  desses Passos começamos  a  sentir  que  somos  capazes  de  alcançar e manter nosso novo equilíbrio.
      Nossas habilidades de relacionamento melhorarão e veremos como nossas interações com os outros assumem nova qualidade.
      O    Décimo    Passo    mostra   o   caminho   para   o   contínuo crescimento espiritual.  No  passado, tínhamos o fardo constante dos   resultados   de   nossa   falta  de  atenção  no  que  fazíamos. Deixamos pequenos problemas tornarem-se grandes, ignorando-os  até   se   multiplicarem.    Deixamos    nosso   comportamento ineficiente criar confusão em nossas vidas.
      No    Décimo   Passo,   conscientemente   examinamos   nossa conduta diária e admitimos o que encontramos de errado.
      Precisamos    não    nos    julgar    com   severidade   excessiva. Precisamos    reconhecer    que   nossa    educação   emocional   e espiritual  requer   vigilância   diária,  compreensão   carinhosa   e paciência.
      A    vida    nunca    é    estável;    muda   constantemente   e   a  cada  mudança  exige  ajustes  e  desenvolvimento.
      O inventário pessoal é um exame cotidiano de nossas forças e fraquezas,   das   ameaças   e   oportunidades  que  o  mundo  nos propicia, é um exame de nossos comportamentos.
      Fazer  o  inventário  diário  não  é  uma  tarefa  demorada,  em geral  não  se  gasta  mais do que 15  minutos para a sua prática e pode  ser  feito  em  qualquer  lugar.  Temos  que  ter  disciplina  e regularidade,   pois   o   comodismo   pode   nos   afastar   dele.   É importante  nos  vigiar  para  verificar  se estamos enviando sinais de que estamos voltando aos velhos hábitos. 
      A prática diária do Décimo Passo conserva a nossa sinceridade e  humildade  e  nos permite continuar nosso desenvolvimento. O inventário  pessoal  nos  ajuda  a  descobrir  quem  somos,  o  que somos e para onde vamos.
      No  século  XVIII   os   problemas   externos   chegavam   pelos portos.  Fechar  os  portos  para  dar  foco e cuidar do que sobrou dos vivos. 
      Para  nós  hoje,  fechar  os  porto  significa  que  a vida é daqui para frente.  Ao  fecharmos  os  nossos portos para novos saques, para os  abutres (ressentimentos, mania de grandeza, arrogância, auto piedade, prepotência, etc.), estamos cuidando de nossa vida atual.   E,  como  sabemos,  se  quisermos   viver  bem  o  amanhã, temos que cuidar bem do hoje.
      A tempestade passou, agora é deixar o passado onde ele deve estar,   ou   seja,   no   passado,   e  cuidar  do  hoje,  que  é  o  que realmente existe. 
      Este  é   o  meu   entendimento  e  a  idéia  que  faço  hoje   do Décimo Passo. 
      Agradeço  a todos os companheiros pela minha sobrevivência ao   alcoolismo   e   à   Revista   Vivência   pela   oportunidade   de compartilhar meu ponto de vista. 
 
 
Vivência nº 120 - Julho/Agosto - 2009