DP - Despertar Espiritual - A luz vem com a prática

DESPERTAR ESPIRITUAL, VIAGENS...

A LUZ VEM COM A PRÁTICA.

 

Recentemente, parece que eu percebia mais artigos da Revista Grapevine sobre as tensões  entre A.A. e seus traços religiosos. Eu li que veteranos ameaçavam os recém-chegados com recaídas caso eles não concordassem com a velha ideia de um Deus milagroso. Li que os recém-chegados estão dispostos a tentar qualquer coisa, mas insistem que a oração e a crença são influências cristãs perniciosas e dispensáveis.  Nenhuma dessas posições é o programa que me deixa  sóbrio. No inicio do livro Alcoólicos Anônimos, vejo que Ebby não pregou, mas sugeriu que Bill encontrasse e escolhesse sua própria concepção de Deus. No final do mesmo livro, li um aviso “desprezo antes da investigação”. Na mesma página li que um alcoólico “ só pode ser derrotado por uma atitude de intolerância ou negação”, e acredito que é verdade em qualquer momento da recuperação. Aprendi em A.A. que depoimentos sobre religião não eram recomendáveis. Acho que é uma forma de evitar controvérsias. Mas recordar e partilhar a minha experiência me ajuda, e sei que minha vida e minha recuperação podem ajudar outros. Os ateus não são os únicos que resistem a A.A. Meus pais são missionários batistas. A primeira coisa que descobri com o álcool, quando comecei a beber na faculdade, foi a libertação da ansiedade, desconfiança e vida alienada que aprendi na igreja. Bebendo, me sentia parte do grupo, e a vida era divertida. Tornei-me um companheiro de copo e eu bebia com os melhores. Estranhamente afundei mais ainda no seminário. Quando bebia eu sabia tudo que gostaria de saber sobre Deus e era o melhor do curso de teologia. Os professores não sabiam que eu tinha um  problema com a bebida, eles só achavam que eu era arrogante e agressivo. O Deus no qual acreditava era a “base da experiência”, a energia do cosmo, supremo e incompreensível. Eu achava que Deus estava interessado na minha espécie, mas era indiferente em relação a mim, como pessoa, da mesma forma que eu era indiferente com relação aos insetos – para ser sincero eu era indiferente com relação a mim mesmo.  Vim para A.A., porque não conseguia parar de me embriagar. Vim para A.A. porque não conseguia para de beber. Eu odiava a alegria e as gargalhadas, opressivas, mas não sabia mais para onde ir. Ignorei o que ouvi, considerei tolices sem sentido. O que me fez voltar era a certeza de que eu não iria beber, enquanto estivesse sentado em uma reunião de A.A., não porque  eu sabia que lá o álcool não estava disponível. No final da minha primeira semana, percebi que tinha ficado sete dias sem beber, não fazia isso há anos. Minha mente foi clareando nos primeiros meses e percebi que “algo”  acontecia dentro das salas de A.A.. porque muitas vezes eu chegava frenético e saia mais calmo. Ocorreu-me que o que eu sentia nessas reuniões me manteve sóbrio entre eles, e percebi com surpresa que um poder de cura estava envolvido comigo diretamente. Minha primeira crise em A.A. veio no Terceiro Passo. Depois de ter passado por muitas lembranças religiosas, eu sabia que entregar a vida e as vontades não adiantava. Abandonar a fé foi inevitável. Entregar-me ao Terceiro Passo seria quebrar todas as promessas que fizera, na tentativa de corrigir meus erros, assim como todas as pessoas a meu redor quebrariam suas promessas para me apoiar. Para mim, o Terceiro Passo significava “conversão” e eu não queria nada que se relacionasse a promessas mentirosas de salvação que apenas aumentavam minha vergonha e desespero. Por outro lado, eu estava envolvido no programa há vários meses e começava a confiar. Havia concluído os dois primeiros Passos e era essa a situação que eu enfrentava agora. Então eu disse a mim mesmo que iria transformar minha vida e entregaria minha vida e vontade a qualquer coisa que me fosse sugerida numa sala de A.A. Confiava em A.A., mas queria que Deus ficasse fora disso. Não queria uma decisão com implicações cósmicas e eternas; queria apenas aquilo que havia funcionado até o momento para me manter sóbrio, um dia de cada vez. E depois de vários  anos de recuperação ainda me satisfaz. Tenho certeza que Deus prefere que eu fique sóbrio, mas também sei que na medida em que me sinto íntimo de Deus como meu Poder Superior, minha noção de recuperação fica perigosamente exagerada: eu começo a pensar que todos têm obrigação de estar em recuperação e tenho esta convicção uma vez que Deus, que é o meu Poder Superior, é responsável por tudo. Assim, em vez maquinar, racionalizar tudo isso, eu limito a “utilizar, não analisar”. Imagino o Poder Superior guiando a minha recuperação como um anjo da guarda – que me acompanha quando eu estou por perto, disposto e apto a ajudar, mas me ensinando a ser “autossuficiente” e “sem dar opiniões sobre  outros assuntos”.  Dois comentários mais. Estou contente por um pouco de religiosidade. Ajudou-me entender o que eu estava fazendo em Alcoólicos Anônimos. Todas as religiões têm disciplinas espirituais que orientam o praticante a determinadas escolhas ou libertação. A Irmandade oferece a possibilidade de “ um despertar espiritual como resultado destes passos”. E trabalhar os Passos abriram meus olhos para as lutas humanas dos escritores da Bíblia, eu me identifiquei com eles. Eles não estavam tomando ditado divino sobre verdades transcendentais e morais atribuídas, mas escreviam sobre sua própria transformação de “lamentável e incompreensível desmoralização” para uma “vida feliz e livre”. Eu passei a vê-los não como tiranos mal-humorados, mas como companheiros de viagem. Em segundo lugar, a abertura de espírito parece-me um princípio espiritual que é o núcleo do programa. É o coração do Segundo Passo. Sem ele eu não posso mudar.O programa é pragmático e experimental: ouço os outros compartilharem suas experiências, em seguida, “ajo como se” e “ mantenho o que funciona”. Se estou me recuperando, tenho que ser honesto sobre o que funciona para mim, aberto a outras coisas úteis e tentar – ou pelo menos deixar fluir. Eu não posso continuar a crescer em recuperação quando a teoria substitui a experiência, a teimosia substitui a força e o controle substitui a esperança.


 W. – São Francisco, Califórnia. – Agosto 1995.