DP - Despertar Espiritual, Viagens... A força para suportar.

Estivemos juntos em um retiro – uma oportunidade de realizar uma autoavaliação anual, fazia parte do meu trabalho do Décimo Segundo Passo – quando disse ao meu padrinho: “Faz muito tempo que não me lembro de ter ficado tão mal espiritualmente. Toda a alegria que sentia nos períodos de sobriedade, se fora. Não bebo mais, mas e daí? Começo a me perguntar se esse esforço v ale a pena. Esse fundo de poço é ainda pior que aquele que me conduziu para recuperação.” Nós conversamos por muito tempo, ele perguntou e respondi da melhor forma que pude. Sim, eu ia regularmente ás reuniões. Sim, ainda orava. “Mas qual a utilidade?” questionei .” Não me sento como se estivesse em contato com Deus!” Quando era convocado, falava em reuniões, e as vezes me oferecia para falar. Ligava para os amigos que me apoiavam, e ajudava meus afilhados. Ainda coordenava uma reunião e estava quase coordenando uma nova reunião. E mantinha contato com o meu padrinho. Ele sabia disso, pois atendia aos meus telefonemas diários, ás vezes apenas ouvia conforme tentava expressar meus sofrimentos dolorosos que muitas vezes eu não entendia e, por vezes, não conseguia identificar ou descrever. ”Você esta sofrendo demais, e precisamos fazer algo”, ele disse quando terminei. “ Mas a dor é emocional. Sua vida espiritual vai bem – muito bem, de fato!” Ele viu o meu espanto. “Você confundiu os seus sentimentos com o seu estado de espírito”, ele prosseguiu. “Quando você se sente bem, acha que está bem espiritualmente, e quando se sente mal, pensa que esta mal espiritualmente. Parece que muitas pessoas pensam assim. Mas  se isso for verdade, então você estaria muito bem espiritualmente na época em que se embriagava, festejava e pensava que estava se divertindo. Mas não importa o quão maravilhoso se sentia naqueles momentos, na verdade, estava péssimo espiritualmente.ESSE era o seu fundo de poço espiritual”. Nós conversamos muito sobre o que ele disse e pediu para que eu trabalhasse com  uma consciência mais profunda, a qual constitui um crescimento espiritual e um estado espiritual melhor. “ Comece com o livro Alcoólicos Anônimos”, sugeriu, e comecei a ter uma ideia do possível significado do crescimento espiritual. O primeiro sinal de “crescimento espiritual” foi aceitar as coisas que pareciam totalmente inatingíveis. Na discussão do Décimo Passo, em algumas páginas, é feita a referência de uma nova maneira de lidar com o egoísmo, a desonestidade, ressentimento e o medo: Pedimos a Deus para removê-los, discutimos com alguém, e, em seguida, fazemos a reparação imediata para aqueles que prejudicamos. Uma fórmula muito simples para a manutenção espiritual é dada: “ ter a visão da vontade de Deus em todas as nossas atividades”. Finalmente no livro “ Os Doze Passos e as Dozes Tradições”, na discussão do despertar espiritual, Bill W. escreveu: “ Quando um homem ou uma mulher vivencia um despertar espiritual, o significado mais importante é que se torna capaz de realizar, sentir e acreditar como nunca antes, pois não tinha força nem recursos... Ele foi transformado de forma muito verdadeira, pois adquiriu uma fonte de força que, de um modo ou de outro, ele mesmo negara até agora. Ele se encontrou com um grau de honestidade, tolerância, dedicação, paz de espírito e amor, dos quais se julgava totalmente incapaz”.  Eu me perguntava se não havia uma única palavra que poderia resumir tido, que poderia descrever a espiritualidade, uma descrição simples do crescimento espiritual. Enquanto eu refletia sobre tudo que havia lido e ouvido, e também sobre minha experiência anterior e posterior ao início da minha recuperação, parecia que tudo poderia ser expresso na simples ideia de “força”. Para mim, ser espiritual é ser capaz. Ser capaz significa encontrar força para fazer aquilo que eu não era capaz; significa também que posso fazer as coisas de uma forma saudável e curadora, ou seja, todas as coisas que antes fazia de forma insalubre ou que proporcionavam sofrimento para mim e para os outros. Por isso, o Décimo Primeiro Passo, mais do que qualquer outro, abre-nos ao poder de Deus e torna possível para nós fazermos o que antes seria impossível. É o passo que leva á “ certeza de poder e segura orientação de Deus”. Para mim, espiritualidade não é, portanto, uma questão de sentir bem (apesar de que se sentir bem é um sentimento que aprecio muito).  Pelo contrário, é uma questão de buscar em oração e meditação, em outras pessoas, em reuniões – em suma, em todas as “ferramentas de recuperação” – o poder de fazer o que é bom. O que é o poder de fazer estas coisas, embora possa estar em sofrimento emocional e uma maneira que tenho de medir a minha força espiritual é ver se sou capaz de realizar a vontade de Deus. O crescimento espiritual significa o aumento dessa capacidade e eu perco o alicerce espiritual quando não tenho a força que tinha antes. Como meu padrinho me lembrou, ás vezes me sentia maravilhoso quando bebia. Mas, apesar desse sentimento, o meu estado espiritual estava no nível mais baixo já que não tinha forças para parar de beber, ou força para ver ou interromper o mal que causava para mim e para os outros. Qualquer que tenha sido o “poder” que o álcool me deu, não foi o poder que tenho agora em recuperação, o poder de conhecer a vontade de Deus e de realizá-la. Mesmo quando me sentia no fundo do poço, a força (que é sinônimo de espiritualidade) possibilita que3 eu trabalhe para os outros e tente ajudá-los. Ela pode proporcionar coragem para cuidar bem de mim, ir ás reuniões, mesmo quando acho que não preciso de reunião, para falar no momento que o alcoolismo deseja que eu guarde a dor para mim, para falar honestamente com o meu padrinho e com as pessoas do meu grupo sobre questões dolorosas que preferia manter ocultas. A força permite que eu ore e medite quando eu não quero, mesmo quando não me sinto ”ligado” ao meu Poder Superior, mesmo quando eu sinto que não terei qualquer benefício com essas práticas. Quando posso fazer o que é saudável e me proporciona cura, estou bem espiritualmente. A espiritualidade não é um estado de sentimentos. Trata-se de uma condição do ser, do ser com forças. 
James C. – West Henrietta, Nova York. –Setembro de 1990.