Artigos - Desviando-nos do propósito primordial - (Bill W., Grapevine, 1947)

Desviando-nos do propósito primordial

O trecho de um texto de Bill W. mostra as conseqüências de ligar A.A. a outros projetos.

Faz alguns anos, eu acreditava que nós poderíamos, de forma limitada e cautelosa, emprestar o nosso nome a certos empreendimentos alheios à nossa Irmandade. Um deles foi um projeto educativo muito promissor. Vários membros do corpo docente da Universidade de Yale que estavam patrocinando o Comitê Nacional sobre o Alcoolismo, perguntaram-me se podiam contratar um membro de A.A., e se esse membro poderia romper o seu anonimato para esse propósito especial. A minha resposta foi que naturalmente poderiam conseguir a participação de um membro de A.A.; que tal participação não poderia ser considerada,sob nenhum aspecto, como uma profissionalização de Alcoólicos Anônimos, já que o trabalho que se iria fazer seria realizado num campo totalmente diferente; que se um membro de A.A. pudesse ser um educador, tanto melhor... então, por que não participar? Embora nunca se tenha posto em dúvida a prudência desta política,não se pode dizer o mesmo a respeito da minha resposta sobre o assunto de abandonar o anonimato, ao qual, neste caso especifico, dei a minha aprovação.

Desde então, temos visto equivoco dessa decisão. Um bom amigo meu, membro de A.A., acatou essa decisão e logo abandonou o seu anonimato. O primeiro resultado obtido foi bom. Atraiu uma considerável quantidade de publicidade para Alcoólicos Anônimos, assim como muitos membros. Com referencia à educação, conseguiu que o publico ficasse mais consciente do que nunca, de que o alcoolismo é uma doença, e que se podia fazer algo a respeito. Até ali, tudo muito bem.

Porém, recentemente tem surgido alguma confusão. Devido à grande quantidade de publicidade, na qual vinculava o nosso nome com esse projeto educativo, o publico tendia a pensar que A.A. no seu todo havia se metido no campo da educação sobre o álcool. E quando o nome de A.A. chegou a estar associado na mente do publico a uma campanha para reunir fundos, houve mais confusão. Alguns doadores que tinham impressão de que estavam contribuindo para A.A. se surpreenderam ao ouvirem dos seus amigos que A.A. não solicitava dinheiro. Portanto, tem se começado a ver que as vantagens à curto prazo de abandonar o anonimato, não compensavam as desvantagens a longo prazo. À medida que a experiência veio tornando isso mais claro, não só para mim, mas também para os meus amigos da Universidade e do Comitê Educativo, eles têm-se manifestado de acordo, e agora estão se esforçando para remediar a situação.

Naturalmente tenho a mais sincera esperança de que o nosso erro não cause o menor mal ou prejuízo aos membros do Comitê Educativo ou seu trabalho. Os erros formam uma parte importante do processo de provas e experimentos, por meio dos quais todos nós vamos aprendendo e crescendo.

Para resumir o anterior em poucas palavras, sinto-me razoavelmente convencido de que a nossa política com referencia a projetos “alheios” à nossa Irmandade, chegará a ser o seguinte: “A.A. não patrocina projetos em campos alheios. Não obstante, se esses projetos são construtivos e de caráter não-polêmico, os membros de A.A. têm perfeita liberdade de participarem deles sem censura ou críticas, se o fazem como indivíduos comuns, e tendo o cuidado de não comprometer o nome de A.A”.

(Bill W., Grapevine, 1947)

VIVÊNCIA N/ 61 SET/ OUT. / 99