DP - Devolvido à Sanidade

DP - Devolvido à Sanidade

Um membro associa o sentimento de ter sido devolvido à sanidade, previsto no Segundo Passo de A.A., à prática de muitas reparações, feitas cuidadosamente ao longo dos seus anos em recuperação.



Sendo filho, neto e pai de alcoólicos, não é de estranhar que também sou portador da doença. Descobri isso há doze anos. Sabia que eu bebia muito; tive uma carreira etílica longa, começando com o primeiro porre aos treze anos de idade e cessando de beber em A.A. aos 57. 
 
Entrei em A.A. por não ver alternativa, pois eu sabia que em A.A. as pessoas paravam de beber, e eu considerava parar de beber, para mim, humanamente impossível. Embora nunca tenha prometido a outra pessoa que eu ia parar, para mim mesmo devo ter jurado mil vezes que eu iria parar, principalmente nos últimos anos do meu alcoolismo ativo. Mas o meu fundo de poço finalmente chegou, e procurei ajuda. Na segunda noite em que me sentei numa reunião de grupo em A.A., decidi tornar-me um membro e não mais bebi álcool. Depois de menos de uma semana, não senti mais vontade.
 
Logo nos primeiros tempos pude perceber que A.A. era a coisa mais séria que eu havia visto na vida, mas tinha minhas dúvidas a respeito do Segundo e Terceiro Passos, mencionando um Poder Superior e Deus. Eu não acreditava em nada disso; achava coisa de igreja. Eu não precisava de Deus na minha vida... Coisa muito boa para aqueles crentes de mente fraca, eu pensava, mas Eu não precisava de nada disso. Precisava, sim, beber todos os dias, afinal percebo que já tinha um deus na vida, chamado deus álcool. Hoje, felizmente a situação se inverteu, vivo bem sem o álcool, mas não sei viver sem Deus, como O concebo. 
 
Como gosto de ler, li em rápida sucessão a nossa Bíblia o Livro Azul e os Doze Passos e Doze Tradições, sem entender muito, pois achava muito exagerado, que era conversa para boi dormir quando mencionava que o alcoolismo mata, até perceber quantas pessoas que eu conhecia haviam morrido por causa do alcoolismo (hoje em torno de 26).

Bom, mergulhei nos Passos e tive as dificuldades de praxe, mas continuei insistindo. Logo no primeiro ano eu já tinha escrito o meu Oitavo Passo, e de lá para cá, tenho tentado colocar em prática, um pouco de cada vez, tomando muito cuidado para não magoar a pessoa com quem estou tentando fazer reparações, e começando com as reparações mais simples para poder ganhar prática, até chegar aos casos mais cabeludos. É claro, para ajudar eu já tinha em mãos uma relação das pessoas tirada dos meus Quarto e Quinto Passos, só faltava acrescentar mais nomes e até instituições, que apareceram acompanhando a minha sobriedade crescente.  
 
Na primeira vez foi difícil evitar colocar na lista pessoas que eu inicialmente pensava que haviam me prejudicado. Logo fui incentivado a abandonar esta prática e concentrar-me naqueles a quem eu devia uma satisfação, mesmo se estes nem soubessem o que eu tinha feito, ao invés de focar nos meus ressentimentos. No início não foi fácil, mas com a prática e o tempo, se tornou menos oneroso para mim.
 
Após estar no programa já há algum tempo, comecei a seguir um plano que eu havia traçado. Um episódio muito vergonhoso havia acontecido entre eu e um grande amigo, que eu não havia visto por anos. Criei coragem, localizei o endereço e escrevi para ele. Eu levava este episódio na minha consciência já há muito tempo, mesmo antes de conhecer os Doze Passos. Quando finalmente falei com ele a respeito, ele nem se lembrava! E eu me mantive preocupado com isso durante anos! Mas, ele aproveitou para me lembrar de outros dois episódios que eu não lembrava, de quando esse amigo estava me ensinando a dirigir. Somos bons amigos até hoje. Nada mal para quem se conheceu aos 13 anos de idade.
 
Fui casado duas vezes, num total de 28 anos. Tempo bastante para eu ter criado muito tristeza nas vidas alheias envolvidas. Afinal, eu estava no alcoolismo ativo neste tempo todo.
 
Tentei por vários meios falar com a primeira esposa, mas ela se esquivava, desconfiada de mim, como era, e com toda razão. Partilhei esta dificuldade com meu padrinho, que sugeriu que eu escrevesse uma carta a ela. A resposta demorou umas semanas, e eu prendendo a respiração, até ela me mandar um recado através da nossa filha, de que ela havia já me perdoado alguns anos atrás. Achei muito generoso da sua parte. Hoje nos damos bem, sem problemas.
 
Quando chegou o momento de fazer reparações com a minha segunda esposa, o que aconteceu já era previsto nos Doze Passos e no livro Alcoólicos Anônimos. Depois de relatar a minha história e ser ouvido atentamente, ela aproveitou a ocasião e descarregou muitas das suas mágoas e culpas, como se estivesse pedindo perdão.
 
Fiz reparações também com todos os meus filhos, (duas mulheres e dois homens). Era muito necessário, pois durante o alcoolismo ativo eu os tratava com muita raiva e intolerância, e perdia a cabeça não somente quando estava bêbado. Lembro-me de um episódio com meu filho caçula. Eu havia conseguido para ele uma entrevista, uma boa oportunidade de trabalho, mas ele estava enrolando (não fazendo a minha vontade). Fiquei com raiva e descarreguei toda minha ira sobre ele. Ao falar com ele aos berros, pude perceber que ele estava chorando, e disse para mim: Sou um perdedor nato. Com isso estávamos nós dois chorando e eu percebi o quanto eu o tinha magoado ao longo dos anos, com minha agressividade desmedida.
 
Conversamos longamente e cicatrizes profundas sararam. Felizmente, a reparação deste episódio nos aproximou muito e agora, após mais de dez anos, ele já fez faculdade, viveu no estrangeiro por oito anos e está se virando bem, hoje é um homem admirável. 
 
Posso dizer que, ao trabalhar os Passos tenho uma vida boa, que acho impossível ter se não fosse por A.A., o que é comprovado pela realização das promessas descritas no Capítulo 6 do Livro Azul. Estou adquirindo, além alguma humildade, cada vez mais experiência também.
 
E aí reside um dos motivos para que o Passo das reparações seja colocado em nono lugar, pois é muito útil recordar também que em nosso Alcoólicos Anônimos, no Capítulo 6, página 113, Bill transmite uma mensagem importante logo após as promessas, a saber: E deixamos de lutar contra qualquer coisa ou qualquer pessoa até mesmo contra o álcool. Pois, a esta altura, a sanidade terá voltado. Lembro então que o Segundo Passo nos avisa que Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade; e, agora, sinto que cheguei a este momento.
Michael São Paulo/SP