DP - DO COPO AO SORVETE

Aparentemente estava tudo bem, mas ele voltou a beber. Não deixe de ler a história de uma recaída. Muitas vinte e quatro horas de sobriedade já haviam se passado.  Sentia-me bem comigo mesmo, feliz da vida, sem compulsões, tranqüilo, sereno com a minha família e também junto aos que me são caros, principalmente junto ao meu grupo, onde desfrutava prazerosamente do convívio, do carinho, da amizade e do respeito de todos os companheiros indistintamente. Eram meus amigos, meus psicólogos, meus psiquiatras, meus confessores e mais do que tudo isso, eram meus irmãos e eu os amava. Freqüentava regularmente as reuniões, e dentro de minhas limitações procurava participar de tudo o que pudesse enriquecer e valorizar a minha recuperação. Porém, a minha autoconfiança e auto-suficiência começaram a perturbar o meu sono, meus sonhos, a inquietar-me, a sugerir-me coisas que paulatinamente eu ia aceitando, contestando às vezes, porém, sem muita convicção. Foi então que o orgulho e a prepotência falaram mais alto. Essa minha volta ao copo não aconteceu em um momento impensado ou de fraqueza, levado por circunstâncias muito fortes ou situações imprevisíveis que proporcionassem uma justificativa, mesmo que covarde, para voltar ao primeiro gole. 
 
Nada disso. Simplesmente a mente doentia e calculista de um alcoólico achava que todo aquele tempo de "vivida" sobriedade fora suficientemente longo para reeducar-se, para auto-administrar sua "suposta" força de vontade e entender que: "Agora sim, posso voltar a beber socialmente". E assim, infelizmente, aconteceu. 
 
A doença é progressiva e por isso mesmo a cada dia mais  aumentavam as doses que alimentavam a minha embriaguez constante, que se  estendia diuturnamente. Desnecessário seria relatar as terríveis conseqüências morais, físicas e espirituais oriundas de uma recaída. O abandono completo à sala. Não mais ouvir dos companheiros palavras de fé, esperança, relatando vitórias, conquistas, paz, serenidade e
agradecimento a Deus. 

 
A vergonha e o orgulho fizeram com que eu simplesmente me escondesse dos companheiros. 
 
Vivia tenso, temeroso na expectativa de que, de um momento para o outro , poderia encontrar-me com alguns deles.Lembro-me muito bem. Meio-dia de sábado. A mercearia servia bebidas no balcão. Eu estava talvez no terceiro copo. O vendedor de produtos adentra à loja aproximando-se do balcão para a entrega da mercadoria vendida.
 
 "Oi, cara, como vai? Tudo bem contigo?" "Tudo bem", respondi, já com a voz rouca e murmurante.
"Até mais ver", e saí  apressadamente, deixando para trás copo cheio, garrafas, salgadinhos e uma conta para pendurar. Minha face enrubesceu tanto que parecia queimar. Minhas pernas, estas eu não mais as sentia. Queria morrer naquele momento, pois na minha frente estava o meu amigo, o meu companheiro de grupo que devido ao anonimato vou chamá-lo de MANÉ. Era a primeira vez que eu via o Luiz fora da nossa sala de A.A.

Mais dias. Mais meses se passaram, muitos copos, muita bebida, muito álcool.Sofrimentos, angústias, autopiedade, fraqueza, tudo somava e se agigantava em meu cérebro doentio de alcoólico, fazendo-me beber cada vez mais. Foi numa daquelas manhãs que eu ainda não tinha bebido o primeiro gole antes do café,que tudo aconteceu. O interfone tocou. 
 
Disseram-me que alguém me chamava da entrada do prédio. Lá encontrei o Luiz juntamente com outro companheiro, que pelo mesmo anonimato eu o chamo de DOCA. 
 
Fiquei cara a cara com os dois amigos, que sutil, humilde e sabiamente exerciam a abordagem, inspirados pelo Décimo Segundo Passo. Ouvi tudo, calado, sem rancores ou justificativas, mágoas ou irritações. Ao se despedirem, emocionado eu agradeci. Porém, novamente o orgulho e a vergonha de retornar à sala impediram temporariamente o meu reingresso, que aconteceu somente muito tempo depois, numa pequena cidade do Espírito Santo, onde passei as férias.

Hoje estou novamente integrado de corpo e alma ao meu grupo de origem, junto aos amigos que tanto prezo e aos quais agradeço a minha recuperação diária. Antes das reuniões, nós nos divertimos muito. 

 
Contamos piadas, resolvemos todos os problemas sociais, políticos, econômicos e  futebolísticos. Algum tempo atrás, pouco antes do meio-dia, sol escaldante, eu estava na calçada em frente a uma máquina de fazer sorvetes, degustando um desses sorvetes enormes, misto de creme e chocolate. Eis que vejo um companheiro caminhando apressadamente, trazendo debaixo do braço uma daquelas pastas de executivo.

"Oi cara!", falei. "Vai um sorvete aí?" "Não, obrigado", respondeu, "estou com muita pressa. 
Fica pra outra vez". 
Era a terceira vez que eu via esse companheiro fora de nossa sala de A.A. 
Era o MANÉ...

(Vivência - Maio/Junho 2002)