DP - Dos remendos à cocha de retalhos

O resultado é um presente para todos nós.

 Sou chamado de Remendão e sou um alcoólico em recuperação que, graças à minha esposa e à revista VIVÊNCIA, há dois anos não bebo bebidas que contenham álcool. Tenho esperado uma data propícia para fazer meu relato.
 
Até hoje pouco tenho falado, preferi ouvir atentamente o relato dos companheiros, sempre semelhantes aos depoimentos escritos na VIVÊNCIA, que minha esposa lê para mim, já que leio mal e, além disso, desde os meus dezoito anos já gostava muito mais de esvaziar copos que contivessem qualquer coisa com álcool, do que de dar atenção a alguma literatura.
 
Aos dezessete anos, recebi ordem de meu pai, que é agricultor, para ir trabalhar com um amigo dele, construtor, e assim comecei como servente de pedreiro e carpinteiro. Esse patrão tinha mais empregados, alguns bem chegados ao jogo e à bebida. Passei a acompanhá-los em tudo e logo estava pegando fundo no copo. Parava em casa de meus pais, onde dormia e tinha roupa lavada, e assim se passaram seis anos. Eu já chegava no trabalho atrasado e bastante ressacado, a ponto do patrão reclamar com meu pai. Quando meu pai me chamou a atenção, resolvi não voltar mais lá e comecei a trabalhar por conta própria, fazendo bicos pra lá e pra cá.
 
Onde havia algum serviço mais simples, um rancho, um estábulo ou coisa semelhante para remendar, lá eu era chamado. Quem passava por perto comentava: "Lá está o Remendão". Não abandonei o álcool, mas os que me conheciam sabiam que eu era trabalhador e sempre me arranjavam algum serviço simples, que eles próprios à vezes não conseguiam realizar e então se lembravam do Remendão.
 
 
Mesmo assim, casei-me aos 25 anos. Agora estou com 28. Meu pai me deu uma casinha que possuía num quarteirão próximo. A calçada estava danificada e o reboco caindo, e ele disse: "Vire-se meu filho, você sabe reformar e remendar. Pode caprichar, agora que está casado tem que assumir responsabilidade, pois sua esposa merece que você se corrija de suas bebedeiras". Passei a morar na casinha com minha paciente esposa. Um ano depois, ainda não tinha reformado nada e sequer tínhamos uma televisão. Continuei fazendo remendos para os outros.
 

Quando conseguia trabalho, juntava-me até tarde da noite com os amigos de jogo e bebida. Quando chegava em casa, minha esposa estava esperando, geralmente lendo revistas que ganhava de uma vizinha amiga, que morava a uns 70 metros da nossa casa. Lá ela também ia assistir tevê, com a minha permissão, já que sabia das minhas adiantadas horas de chegada.
 Numa noite em que cheguei um pouco mais lúcido, enquanto estava jantando, ela passou a ler alguns trechos da revista que chamaram a minha atenção. Era o depoimento de um alcoólico e a revista era a VIVÊNCIA. Daí pedi para ela ler o depoimento e logo fomos para a cama e ficamos conversando um pouco mais, porque no dia seguinte eu não ia trabalhar. Vendo o meu interesse, ela sugeriu que fôssemos a uma reunião de A.A. que aconteceria na noite seguinte, numa escola bem próxima. Não relutei. Aceitei o convite, o que a deixou muito feliz.
Na noite seguinte, no caminho, ela comentou que lá também funcionava em anexo um grupo que se chamava Al-Anon, do qual há havia participado uma vez, a convite da amiga. Eram todas senhoras muito sofridas, geralmente por problemas de álcool de algum familiar. Muitas delas já haviam conseguido, com seu trabalho pacífico, trazer a paz ao lar.
 Chegamos à escola, que distava uns quinhentos metros. Ali onde pensei que eram salas somente para educar crianças, em poucas horas semanais, adultos se transformavam em professores e médicos, desde que, humildes e crentes num Poder Superior, transmitissem, num trabalho conjunto, o milagre da fé e da aceitação!
 
Tudo se encaixou em minha mente. Imediatamente abandonei os lugares que frequentava e passei a ficar em casa, com minha esposa, logo que saia do trabalho. Conversávamos como antigos namorados e muitas vezes eu pedia a ela para ler alguns depoimentos da Revista. Logo me transformei em assinante, o que ajudou a me livrar da compulsão pela bebida.

 
Durante o trabalho, meu pensamento estava sempre voltado para as maravilhas que conheci. Minha esposa passou a estar sempre alegre.
 Um dia, cheguei em casa e ela estava cantarolando a música Colcha de Retalhos. Então pensei que a minha vida representava a letra da música, "de retalhos e remendos".
Se eu juntasse os meus cacos, ainda poderia ser útil. Depois de alguns dias, começamos a frequentar a casa de meus pais. Logo falei que estava com vontade de reformar a nossa casa, uma vez que meu interior estava quase reformado. Ao ouvir isso, eles de pronto franquearam crédito na loja de material de construção.
 
Retruquei que não precisava de muita coisa, pois havia ganhado uma grande quantidade de pedaços de piso e, com aproveitamento da atual calçada, teria o suficiente, pois eu a faria todinha de cacos, para representar uma colcha de retalhos. No dia seguinte comecei, e em vinte dias havia concluído a reforma, para espanto de todos os que por ali passavam, dizendo maravilhas.
 
 
Dali para frente, não consegui mais atender a todas as solicitações de serviço e logo consegui pagar o material. Também comprei uma tevê, que assistimos juntos, mas às vezes desligamos por algumas horas, quando chega uma nova VIVÊNCIA, pois minha esposa passa a lê-la em voz alta.
 
 
Termino aqui meu relato. Depois da primeira reunião que assisti nesse grupo, minha vida começou a se transformar e comecei a refletir sobre os depoimentos que minha esposa lia. Pensei que os depoimentos do grupo ficavam restritos às quatro paredes, e eram muito bons para mim e para quem freqüenta o grupo, enquanto que a Revista chega a muitos lares e, como no meu caso, abre a porta da recuperação.

 
Mas sou semi analfabeto, aprendi a fazer abstinência do álcool praticamente devido aos depoimentos lidos por minha esposa, e por isso não posso relatar minha história por escrito. Assim, observando os companheiros visitantes numa de nossas reuniões, pensei que talvez algum deles, com facilidade para escrever, se desse ao honrado trabalho de transcrever um resumo do relato que ouviu de mim, para que, assim como aconteceu comigo, alguém mais pudesse se beneficiar com o meu passado.

(Vivência N° 73 – set/out 2001)