DP - O quinto Passo é uma celebração da vida

O Quinto Passo é uma celebração da vida

Precisamos nos sentir seguros em três áreas da vida: sexual, social e
emocional.

Tem gente que diz que o problema do Quarto Passo é o Quinto Passo. A
idéia de relatar a alguém aquilo que você pôs no papel inibiria o ato de
escrever. Todavia, será que isso não funciona ao inverso também? Saber
que alguém está ali, disposto a ajudar você nesse processo de limpar a
casa, poderia servir de incentivo.

As pessoas brincam demais falando que começaram seu Quarto Passo,
dizendo: "mas foi ate aí que eu cheguei".

Isso é uma grande pena, porque a recompensa de terminar o Passo é
imensa. Não estou falando de um clarão vindo do nada, mas do inicio de
um processo o processo de simplesmente fazer amizade com a pessoa mais
importante que você não conhece: você mesmo. É disso que de fato todo o
resto do programa trata.

Olhar para você pela primeira vez pode ser assustador. Para mim foi o
problema de confundir o Quinto Passo com o sacramento católico da
confissão que conheci desde menino. Ficava deprimido cada vez que
pensava em entrar naquela pequena caixa azul chamada confessionário.
Havia vergonha e culpa grudadas nesse ritual, e não tinha conexão com a
minha vida cotidiana. Eu havia pecado e devia receber absolvição.

Estando ainda acorrentado às lembranças do que para mim se havia tornado
um ritual de ódio a mim mesmo, naturalmente evitei os Passos de "faxina
de casa" por muito tempo (e os Doze Passos e as Doze Tradições ainda por
cima mencionam os mesmos pecados). Talvez A.A. não fosse um programa
religioso, mas com certeza me lembrava algumas práticas religiosas
bastante deprimentes.

Hoje em dia, toda essa experiência contém um significado completamente
novo para mim, positivo e levantador do moral. Dizem que a verdade
machuca. Não é a verdade que machuca, é a negação. Depois de ser aceita,
a verdade faz a gente se sentir muito bem. Um irmão religioso que
realiza retiros para homens em A.A., na minha área, diz: "Tudo o que
você precisa está bem na sua frente". Que declaração poderosamente
verdadeira e maravilhosa! Tudo o que preciso mesmo as coisas que ainda
não sei que não me servem, porque ainda estou pensando que gosto delas.
Dá-se a elas o nome de defeitos de caráter. Gosto de clamá-las de
esconderijos. São bebidas debaixo de um disfarce objetivos de uma curta
visão ou indignos. (As palavras são importantes. O jeito como converso
comigo é o que decide como me sinto e como me comporto.)

Agora, enxergando instintos bem direcionados, e como meus desejos
naturais tornam a mim e a outras pessoas infelizes, tudo faz sentido.
Não quero continuar sendo infeliz. Então, quando hoje penso em
"pecados", penso na palavra "transgressões", como está no Pai Nosso. Os
pecados são transgressões. De inicio, não vi que a nossa literatura diz
que preciso estar seguro em três áreas da minha vida: sexo, sociedade e
minhas emoções.

Nunca li que tinha emoções retorcidas, dificuldades emocionais ou
excessos de emoção negativa, nem que a imposição irracional dos meus
instintos sobre outras pessoas era a causa de muita infelicidade para
mim. O que eu pensava é que esses Passos eram a respeito de ser
"bonzinho". E são mesmo. Mas eu preciso começar por ser verdadeiro.

Olhando de novo para a maneira que confundi os Passos Quarto e Quinto
com o sacramento católico da confissão, me recordo que a absolvição
nunca me ajudou em nada, mas me colocava no que chamavam de "estado de
graça", que era uma coisa que eu imaginava me qualificasse para posar
para quadros sagrados. Nos Passos Quarto e Quinto não estou procurando
absolvição, mas sim aceitação procuro uma chance de olhar outro
alcoólico olho no olho, uma chance de fazer uma conexão humana que
estenderá uma ponte sobre o vazio dentro de mim, e para lá onde a culpa
me fez ficar com medo de olhar.

Em A.A. fala-se muito sobre graça, mas o pessoal raramente diz o que é
isso. Para mim é tempo e espaço numa atmosfera segura, onde eu possa
olhar para o meu comportamento passado e lidar com ele sem medo. E
quando falo de "comportamento" não me refiro apenas a "atos
pecaminosos". O comportamento inclui percepções, pressuposições,
sentimentos, ilusões e motivações, bem como ações. A graça me concede o
espaço vital de que necessito, onde não me sinto julgado nem tenho
confirmada a minha experiência anterior de mim mesmo.

Para mim, o problema real com os Passos Quarto e quinto não era "o que
vai ser se eu for julgado?", mas sim "o que vai ser se não for
julgado?". É que não saberia como reagir a uma imagem de mim que já não
tivesse desenvolvido na minha imaginação distorcida.

Para todos e todas que tomam esses Passos comigo, eu falo: "Aceito você,
mesmo antes de saber quem você é. Na atmosfera da graça, fico contente
esperando descobrir. Sei que a minha humanidade vai sair enriquecida
nesse processo. E quando acabar, ambos estaremos mais prontos para nos
desapegarmos das coisas que fizemos, e que fizeram mal a nós e aos
outros". Os Passos Quarto e Quinto significam a celebração da vida em
todas as suas maravilhosas possibilidades, através do contato com as
nossas próprias experiências e as dos outros. São mais um Passo em
direção ao tema de todos os Passos: a alegria de viver.

( Jim N. Grapevine)

VIVÊNCIA N.°75 JAN/FEV 2002